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Sérgio
Abranches
Sem
chance de entendimento
"Não
há um lado totalmente certo, nem respostas
totalmente verdadeiras às questões postas pelos
atentados em Nova York e Washington"
Ilustração
Ale Setti

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A
maneira como a imprensa dos EUA trata a seqüência do ataque terrorista
revela bem a variedade de perspectivas possíveis. O jornal The
New York Times optou por refletir na sua seção especial
a expectativa sobre a reação que ainda virá: "Uma nação
desafiada". O Washington Post optou por ser descritivo: "A América
atacada". A ABC News resolveu indicar o estado de espírito
dos americanos: "Uma nação unida". O USA Today escolheu
linguagem mais militar: "A América em alerta", enquanto a CNN
"A nova guerra da América" e a CBS News
"A América revida" decidiram tomar a retaliação
militar como fato consumado.
Essa multiplicidade de pontos de vista aparece também na reação
dos analistas, intelectuais e militantes, que interpretam diversamente
o que aconteceu no dia 11 de setembro. Os que preferem caracterizar os
terroristas como irracionais falam de ato de loucura ou de puro fanatismo.
Os que não vêem a guerra como meio de punição
dos terroristas preferem falar de "atentado terrorista". Os que defendem
a resposta militar exemplar encaram o que houve como um ato de guerra
contra seu país. Finalmente, os que procuram justificar de alguma
forma os terroristas, ainda que censurando a violência indiscriminada,
insistem em que se trata de uma reação a comportamentos
americanos, com técnicas terroristas.
O ataque sofrido pelos EUA é daqueles eventos históricos
divisores de águas, de múltiplas implicações
e longa duração. Marca a ascensão de um novo paradigma
de relações internacionais e inaugura uma nova polêmica
carregada de conotações ideológicas, políticas
e morais.
O paradigma substitui a ideologia que dominou a diplomacia americana durante
a Guerra Fria e supre um vazio que atravessou os dois governos Clinton.
Nesse período, não houve um modelo claro de segurança
nacional, predominando a "diplomacia de negócios".
A nova ideologia chega fortalecida por ter previsto uma tragédia
como a de Nova York. No início do ano 2000, um relatório
da Comissão Nacional sobre Terrorismo alertava para o fato de que
o primeiro atentado contra o World Trade Center tinha tido a intenção
de causar perdas patrimoniais e de vidas humanas em grande escala. Se
tivesse sido bem-sucedido, alertava, poderia ter afetado "profundamente
toda a nação, causando milhares de mortes". Por isso, seria
essencial que a América estivesse totalmente preparada para prevenir
e responder a essa forma de terrorismo catastrófico. Uma das muitas
vozes a vaticinar um massacre em território americano.
Sua receita básica é fazer do contraterrorismo a maior prioridade
da política externa americana. Fora encontrar e punir os responsáveis,
propõe assegurar econômica, política e militarmente
que os Estados que patrocinam o terrorismo deixem de fazê-lo. Postula
reforçar a segurança interna, nas fronteiras, nos pontos
de entrada do país e na sua "infra-estrutura crítica", incluída
a de informação, vulnerável ao ciberterrorismo. O
pivô da nova política deveria ser uma rede abrangente e proativa
de inteligência e vigilância. Dificilmente sua adoção
deixará de limitar o escopo das liberdades civis, que se ampliou
com o fim da Guerra Fria. O novo inimigo é invisível, clandestino,
móvel e múltiplo. Seu combate exigiria espiões se
infiltrando, satélites espionando, invasões de territórios
nos quais podem estar alojados grupos terroristas.
O sentimento de retaliação é compreensivelmente majoritário
entre os americanos. O novo consenso em Washington elimina a hipótese
de uma resposta sem um forte componente militar. E há uma minoria
ativa que é contra um revide.
A questão envolve realmente aspectos morais, sociais e políticos
de profundidade. É legítimo um povo se defender e retaliar
quando sofre uma agressão brutal dessas, independentemente de suas
causas presumíveis. Um povo miserável e tiranizado como
o afegão pelo Talibã, entre outros não
deve sofrer as conseqüências dos erros bárbaros de suas
elites. Miséria e opressão nutrem ressentimentos e ódios.
Mas não são a única e imediata causa do ataque aos
EUA. O povo americano não deve ser culpado pelo que seus governos
tenham feito no passado a outros povos. Quem morreu nas torres gêmeas
e no Pentágono era inocente.
Não há um lado totalmente certo, nem respostas totalmente
verdadeiras às questões postas por essa situação,
e seus desdobramentos ainda provocarão muito choro e ranger de
dentes.
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