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Canudos em chamas, numa foto da época: calcula-se que 15000 pessoas morreram |
| Foto: Flávio de Barros |
| Onde ficava Canudos, hoje: açude no lugar do arraial e, ao fundo, os morros do Mário e da Favela | ![]() |
| Foto: Orlando Brito |
Vestia um camisolão azul, sem cintura.
Tinha cabelos longos como Jesus e barbas longas. Nos pés
calçava sandálias para enfrentar o pó das estradas e,
a cabeça, protegia-a do sol inclemente com um chapelão
de abas largas. Nas mãos levava um cajado, como os
profetas, os santos, os guiadores de gente, os
escolhidos, os que sabem o caminho do céu. Saudava as
pessoas dizendo "Louvado seja Nosso Senhor Jesus
Cristo". Respondiam-lhe dizendo "Para sempre
seja louvado". Chamava os outros "meu
irmão". Os outros chamavam-no "meu pai".
Foi conhecido como Antônio dos Mares, uma certa época,
e também como Irmão Antônio. Os mais devotos o
intitulavam "Bom Jesus", "Santo
Antônio". De batismo, era Antônio Vicente Mendes
Maciel. Quando fixou sua fama, era Antônio Conselheiro,
nome com o qual conquistou os sertões e além. O mais
célebre cronista de suas aventuras, Euclides da Cunha,
escreveu em Os Sertões que poderia tanto ir para
a História como para o hospício. Maldade considerá-lo
caso de hospício. Foi para a História, e nela cravou um
marco profundo
um ferimento.
Transformou-se num dos personagens mais perturbadores da
História do Brasil, figura central de um dos episódios
mais extravagantes, equivocados e trágicos da
nacionalidade, e também dos mais fascinantes, em que o
Brasil defronta o Brasil, estranha o Brasil e choca-se
frontalmente com o Brasil.
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A igreja de Crisópolis, feita
pelo Conselheiro: "Só Deus é grande" |
| Foto: Orlando Brito |
A Guerra de Canudos, na qual, calcula-se, morreram 15 000 pessoas, faz 100 anos. No dia 5 de outubro de 1897, depois de quatro expedições militares, um ano de lutas intermitentes e uma resistência feroz por parte de seus defensores, o arraial erigido pelo Conselheiro nos ermos do Nordeste da Bahia foi finalmente tomado pelo Exército. Quase nada sobrava daquele santuário-cidadela, um povoado que sonhou ser a Jerusalém dos confins do mundo e acabou uma Pompéia sem Vesúvio, reduzida a escombros, cadáveres, sangue e cinzas. Escreveu Euclides da Cunha:
"Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até o esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 000 soldados."
Dias antes, em 22
de setembro, morrera o Conselheiro
de disenteria, segundo alguns, talvez das complicações
de um ferimento leve, segundo outra versão, talvez da
desolação e da tristeza que cresciam a seu redor
naqueles derradeiros momentos. Cem anos passados,
programam-se seminários, haverá cerimônias na Bahia e
em outras partes, e continua a pairar sobre o país a
enormidade do mistério de Canudos. Mistério, ou
misterioso, são palavras usadas muitas vezes por
Euclides da Cunha para qualificar o local que descreve, o
ambiente e a coligação de jagunços e beatos que se
opunha à ordem representada pelo governo da República e
o Exército nacional
ou talvez o bando de
jagunços feitos beatos, ou beatos feitos jagunços.
Imagine-se a
seguinte cena. Depois de um dia inteiro de combates
ferozes, tiros, mortos e feridos de lado a lado, correria
e cansaço infinitos, caía a noite, depunham-se as armas
e fazia-se silêncio no vale onde se situava o arraial e
nas montanhas ao redor. De repente, um rumor começava a
insinuar-se na escuridão. Aos poucos, percebia-se que
era um coro de vozes humanas, com predominância das
vozes femininas, num arrastado entoar de ladainhas.
Euclides da Cunha explica: "O inimigo, embaixo, no
arraial invisível
rezava". O
mistério, a sensação de intercâmbio com o
sobrenatural, de parte com o Absoluto, baixava sobre as
desolações do sertão.
Canudos não existe
mais. A vila do Conselheiro, não bastasse ter sido
destruída na guerra, encontra-se submersa, afogada que
foi, em 1969, pelas águas do Açude de Cocorobó. A
cidadezinha que hoje toma o nome de Canudos fica a 10
quilômetros da original. Em volta do açude, qual
sentinelas de uma história que insiste em não morrer,
vigiam os morros tornados nacionalmente conhecidos, à
época da campanha, como locais de onde o Exército
disparava seus canhões contra o arraial insurgente, e
onde os rebeldes arriscavam suas escaramuças contra as
tropas regulares
o Morro da Favela, o
Morro do Mário. O Morro da Favela tornou-se tão famoso
que veio a nomear um morro similar no Rio de Janeiro
por causa dos casebres parecidos com os de Canudos que
nele vieram a erigir, segundo uma versão, ou porque nele
se aboletaram os soldados veteranos da campanha, segundo
outra. E a partir daí a palavra "favela"
passou a ter um significado tão simbólico do Brasil
quanto as cores verde e amarela.
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José Calazans: a história reconstruída a partir do relato dos sertanejos |
| Foto: Orlando Brito |
Uma
multidão de casas de taipa, ordenadas, ou melhor,
desordenadas em volta de uma praça: eis o que era o
arraial. O Exército calculou em 25 000 os seus
habitantes, o que o tornaria a segunda cidade da Bahia na
época, só inferior a Salvador. Considera-se hoje, em
geral, o cálculo exagerado. Na praça central havia duas
igrejas, uma em frente da outra
as chamadas "igreja velha", a menor, e
"igreja nova", esta uma ambiciosa obra
empreendida pelos conselheiristas, nunca terminada.
Aquela guerra singular, tão brasileira quanto a Guerra
de Tróia foi grega, e tão reveladora de mitos,
artimanhas e desencontros da nacionalidade, travou-se em
torno da praça das igrejas. Mais particularmente, da
igreja nova, em cujas torres incompletas e andaimes
encarapitavam-se os sertanejos para alvejar os inimigos,
e que por sua vez consistia no alvo preferencial da
fuzilaria e do canhoneiro dos soldados. Quando caiu enfim
a igreja nova, no finzinho da guerra, houve grandes
manifestações de júbilo entre os soldados e, segundo o
relatório de um dos comandantes militares, "uma
entusiástica e violenta vaia na jagunçada".
Aproximava-se do desfecho a bizarra guerra que teve por
centro uma igreja.
Hoje, sobe-se ao
Morro da Favela ou ao Alto do Mário e não se ouvem
rezas. O amplo espaço em torno é vazio e silencioso.
Abaixo, vêem-se as águas do açude
apenas um plácido lago, às vezes cruzado por botes
simples de pescadores, que num dia de sorte terminarão
sua jornada fornidos de tucunarés, carpas ou tilápias.
É um lago como outro qualquer, consideraria o
observador, até mais feio, porque cercado de árida
paisagem. Mas, se se tem consciência das ruínas que ele
encobre, dos muitos cadáveres e da cidade duplamente
fantasma, destruída pelo fogo e afogada nas águas, um
frêmito pode percorrer o observador. O mistério
continua.
Antônio Vicente
Mendes Maciel, nascido em Quixeramobim, no Ceará, em
1830, foi professor primário, comerciante e advogado
prático
rábula é a palavra
,
antes de se tornar beato. Não era de família pobre, mas
remediada. Não era um ignorante, mas tinha suas letras.
Alguns atribuem a guinada que deu na vida a uma
desilusão amorosa
o abandono da mulher,
Brasilina. Ele ainda se uniria a uma segunda mulher, uma
fazedora de imagens conhecida pelo luminoso nome de Joana
Imaginária, antes de renunciar aos amores. Em 1874, aos
44 anos, já estava avançado na nova senda. É de quando
data a primeira notícia sobre suas atividades, um
registro do jornal O Rabudo, da cidade de
Estância, Sergipe, dando conta de um certo Antônio dos
Mares que, em andanças pelo sertão, vinha atraindo um
"número espantoso" de pessoas. Seu modesto
mundo circunscrevia-se a lugares perdidos como Natuba,
Cumbe, Masseté, Uauá, Jeremoabo, Itapicuru
basicamente o sertão da Bahia, com uma ou outra
incursão a Sergipe. Ele andava, andava. Rezava, vivia de
esmolas e ajudava os necessitados, acompanhado de um
séquito cada vez maior. Quando parava em uma cidade,
oferecia-se para recuperar ou, quando não houvesse,
construir uma igreja, ou então os muros do cemitério.
Maciel tinha mania de fazer igrejas e arrumar
cemitérios.
Algumas de suas
obras subsistem. A cidade que hoje leva o nome de
Crisópolis, fundada por ele próprio, na década de
1880, com o nome de Bom Jesus, para ali acomodar alguns
dos seguidores, tem em sua praça central uma igreja de
sua lavra. A igreja, que Euclides da Cunha considerou
"belíssima", está pintada de novo e bem
conservada. Do séquito do Conselheiro faziam parte pelo
menos dois mestres-de-obras, Manuel Faustino e Manuel
Feitosa. A igreja de Crisópolis obedece a um desenho de
Manuel Faustino, sendo dele também a talha do altar.
Numa das paredes internas, pendura-se um medalhão com a
inscrição "Só Deus é grande", o dístico
favorito do Conselheiro. A praça que se estende à
frente da igreja, remodelada recentemente, chama-se
"Antônio Conselheiro". A cotação de Maciel
nunca andou tão alta, no sertão e fora dele. Euclides,
entre muitos outros epítetos depreciativos, chamou-o de
"messias de feira" e "bufão arrebatado
numa visão do Apocalipse". Considerava-o o
"grande desventurado", e, Canudos, a
objetivação daquela "insânia imensa". A
cotação do Conselheiro, hoje, variará de herói
para aqueles que vêem nele um certo tipo de bravura e
resistência
a um bom homem, que não
queria senão a salvação eterna, para si e os adeptos.
Como se informar
sobre esse cearense que procurava a paz de Deus mas
acabou joguete dessa obra do Demo que são as guerras
fratricidas? Durante décadas, a fonte capital
e
sagrada
foi o livro de Euclides da Cunha.
Hoje, impossível introduzir-se no assunto sem passar por
José Calazans. O octogenário Calazans é o decano dos
canudistas da Bahia, um grupo de estudiosos voltado à
pesquisa das aventuras do Conselheiro, seu arraial e a
guerra. Calazans tem saído a campo, principalmente, em
busca da chamada história oral de Canudos
a
história recomposta a partir do depoimento dos
sertanejos. Como começou a trabalhar na década de 40,
ainda alcançou vários sobreviventes do arraial do
Conselheiro. Por exemplo, Honório Vilanova, irmão do
dono da principal loja de Canudos, Antônio Vilanova, um
dos homens mais próximos do Conselheiro. Honório
Vilanova, com o irmão e as respectivas mulheres, escapou
de Canudos nos últimos dias da guerra, como vários
outros conselheiristas. Veio a morrer com mais de 100
anos. Uma vez, contou a Calazans que quando conheceu
Maciel, em Assaré, no Ceará
Honório também era cearense
,
este era beato. Anos mais tarde, ao reencontrá-lo na
Bahia, já era conselheiro. "E há
diferença?", perguntou Calazans. Honório explicou
então que o beato tira rezas, pede esmolas e ajuda os
pobres. O conselheiro vai além: dá conselhos. Qual
seja, prega. Na hierarquia informal do sertão, a
hierarquia paraeclesiástica do misticismo sertanejo, o
conselheiro situa-se acima do beato.
Essas figuras de
guias espirituais surgiam no interior do Nordeste muito
em função da ausência de padres, explica o professor
Cândido da Costa e Silva, da cadeira de História das
Religiões da Universidade Federal da Bahia, autor de Roteiro
da Vida e da Morte, um estudo sobre o catolicismo
sertanejo. "Portanto, não existiam para contestar a
Igreja oficial, mas para suplementá-la." O sertão
não tinha padres como nas aldeias francesas, que davam
assistência permanente às famílias e acompanhavam-nas
ao cemitério, inclusive, levando seus mortos, prossegue
o professor. Daí, os tiradores de reza e as incelências
eram figuras e fórmulas que supriam
a falta de pessoal e de liturgia oficial. A pessoa
ascendia à condição de beato ou conselheiro, ainda
segundo Costa e Silva, de forma natural, pelo destaque
que haviam obtido na sociedade, em virtude de sua
liderança, capacidade de expressão, piedade e outras
qualidades.
Maciel jamais ousou ir além do que permitia sua condição. Nunca se aventurou a ministrar sacramentos. Tampouco podia ser acusado de desvios de doutrina, pois não pregava senão a teologia conservadora daqueles rincões e não aconselhava senão práticas de longa tradição sertaneja, como o jejum, quanto mais jejum melhor, caminhadas longas, até se esfalfar, e carregar pedras, para pagar os pecados. Mesmo assim, a hierarquia da Igreja lhe era crescentemente hostil. Em 1887, o arcebispo de Salvador, dom Luís Antônio dos Santos, cobrou providências ao governo do Estado, que por sua vez pediu socorro ao governo do Império. A idéia era internar Maciel no Hospício Dom Pedro II, no Rio de Janeiro. A autoridade imperial consultada respondeu, no entanto, que não havia vaga no referido hospício. Em seu ímpeto repressor, na verdade, a autoridade eclesiástica aliava-se à aflição dos coronéis do sertão, que se viam ameaçados duplamente, no poder econômico e no poder político. Estudiosos contemporâneos, como o brasilianista americano Ralph Della Cava, demonstraram como o Conselheiro, e também o padre Cícero, no Ceará, na mesma época, drenavam a mão-de-obra das fazendas, ao mesmo tempo que retiravam da influência dos chefetes os votos de cabresto que lhe garantiam o controle dos instrumentos do Estado.
Acresce que, quando o movimento do Conselheiro aproximava-se de seu auge, ocorre a mudança de regime no país, de Monarquia para República, e o Conselheiro, tradicionalista como era, recusa-se a aceitar o novo regime. A República era o Anticristo, era a ordem de Satanás. Ousara separar a Igreja do Estado. E, entre outras disposições odiosas, instituíra o casamento civil, roubando da Igreja a exclusividade de celebrar matrimônios. Uma mulher casada no civil, segundo o professor Costa e Silva ouviu de um sertanejo, em época bem mais recente, seria uma "p... testemunhada". O novo regime também delegara aos municípios a faculdade de instituir impostos. Certa vez, o Conselheiro encontrou os habitantes de Natuba inconformados com os impostos anunciados em editais no centro do povoado e incentivou-os a destruí-los. Foi seu primeiro gesto de desobediência civil. Em conseqüência, uma tropa policial saiu-lhe ao encalço. Depois de um choque violento, na localidade de Masseté, que resultou em três mortos de cada lado, a tropa retirou-se, mas para o Conselheiro ficou um sinal de alerta. O clima crescentemente desfavorável pedia uma decisão. Chegara a hora de mudar de vida. Depois de vinte anos de andanças, ele se estabeleceria com sua gente num lugar onde pudesse rezar em paz, aconselhar em paz e viver em paz, ao abrigo dos agentes do insano governo dos incréus, ou dos bispos que faziam o jogo do Diabo. Nascia Canudos.
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