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Rodoviária Tietê, em São Paulo: "Acordar neste mundo ou no paraíso" |
| Foto: Ricardo Correa |
Todos os dias, 250 companhias de ônibus intermunicipais e interestaduais transportam 685 000 passageiros país afora, o equivalente à população de uma cidade como Maceió. O vaivém dessa massa humana gera mais de 15.000 empregos diretos e movimenta 5,5 bilhões de reais por ano. É um filão econômico e tanto, do qual apenas dez empresas abocanham um terço. Como se trata de um setor no qual teoricamente impera a concorrência, seus clientes deveriam ser brindados com segurança, bons serviços e facilidades de todo tipo. Não é o que acontece. Segundo um levantamento feito por VEJA entre companhias, usuários e técnicos, há uma enorme distância a percorrer no setor que responde por 90% das viagens feitas no país. "De duas décadas para cá, pouca coisa mudou na maneira de operar das empresas de ônibus brasileiras", diz Cláudio Ivanof, secretário dos transportes terrestres do Ministério dos Transportes.
Chegar são e salvo
a seu destino é o primeiro objetivo de quem viaja,
independentemente do meio de transporte escolhido. Em
fases de temor de acidentes aéreos, muitos passageiros
apelam para o ônibus por acreditar que se trata de um
meio de transporte seguro, mas as estatísticas mostram
que os desastres rodoviários vêm crescendo a uma
velocidade máxima. A Polícia Rodoviária Federal
computou no ano passado 8.439 ocorrências envolvendo
ônibus só nas estradas federais
um crescimento de espantosos 40% em relação a 1994.
Vários fatores concorrem para o perigo. Um deles é que
a idade média da frota é alta, o que aumenta a
probabilidade de surgimento de defeitos mecânicos.
"Levando-se em conta o estado das estradas e o tipo
de manutenção feito pela maioria da empresas, o ideal
seria que os ônibus fossem aposentados com cinco anos de
uso", afirma Luso Ventura, diretor da Mercedes-Benz.
Cinco das dez maiores companhias do país exibem frotas
com idade superior a esse limite (veja quadro).
"Fechar
os olhos"
O
fator humano, no entanto, é o que mais pesa. As empresas
mantêm um quadro de motoristas menor do que o mínimo
recomendável. Isso significa que, como o rodízio é
curto, eles são obrigados a cumprir jornadas exaustivas
de trabalho. Resultado: a maioria já dormiu ao volante
ou mete o pé no acelerador para poder cumprir as escalas
apertadas
ou comete os dois erros. De 200
passageiros entrevistados por VEJA na Rodoviária Tietê,
em São Paulo, mais de 50% declararam que sentiram medo
na viagem que haviam acabado de fazer, por causa da
imprudência dos motoristas. "O jeito é fechar os
olhos e só acordar quando a viagem acaba
seja aqui neste mundo ou no paraíso", conforma-se a
pernambucana Maria Pereira Ramos, que sacolejou 46 horas
para chegar a São Paulo.
Uma pesquisa recente, feita em conjunto pelas universidades federais de São Paulo, Goiás e Uberlândia, levantou dados alarmantes sobre as condições de trabalho dos motoristas de ônibus intermunicipais. Segundo a pesquisa, 25% deles admitem consumir bebidas alcoólicas durante o expediente e 20% dizem que já dormiram ao volante. "Entre os 400 entrevistados, foi difícil encontrar um que estivesse inteiramente sóbrio", assusta-se o médico Marco Túlio de Mello, um dos coordenadores da pesquisa. Parte desses profissionais leva uma vida de escravo. "Já cheguei a passar cinco dias trabalhando sem parar", reclama o motorista Carlos Braga, de 37 anos e dezessete de estrada.
No que se refere
aos serviços oferecidos aos passageiros, o quadro é
desolador. Enquanto as companhias de aviação vendem
passagens em aberto
que valem por um ano
,
aceitam cheques e cartões de crédito, parcelam
pagamentos, fazem reservas por telefone, oferecem
programas de milhagem e dão descontos para passageiros
que optam por horários de menor demanda, as empresas de
ônibus continuam na pré-história do relacionamento com
o consumidor. A maior parte só aceita pagamento em
dinheiro, não costuma vender bilhetes de ida e volta e
só troca a passagem se o usuário chegar até seis horas
antes da partida do ônibus.
Apesar de andar com passos lentos, algumas empresas têm procurado melhorar a qualidade dos serviços oferecidos. Salas de espera, cartão de milhagem e lanches servidos a bordo são as novidades ainda incipientes. A viação Pluma, por exemplo, que desponta como uma das melhores empresas do país segundo o levantamento de VEJA, lançou um cartão especial que possibilita a compra de passagens a prestação. Não raro, porém, tais chamarizes se revelam um engodo. Boa parte das empresas que oferecem chá, café e água a bordo não os repõe durante viagens longas. "A água acabou logo na primeira hora de viagem", reclama o mineiro Carlos de Medeiros, que viajou de Belo Horizonte a São Paulo num ônibus executivo da empresa Gontijo.
Ortópteros
onívoros
Quem costuma usar ônibus sabe: os
quilômetros custam mais a passar quando se tem um
banheiro sujo sob o nariz e ortópteros onívoros como
companheiros de viagem. "Havia baratas no ônibus, e
nem me arrisquei a usar o banheiro", indigna-se
Ésio Pedroso, passageiro da Viação Motta entre
Dourados (Mato Grosso do Sul) e São Paulo. As
companhias, talvez confiando demais na boa educação dos
passageiros, não se preocupam em limpar os veículos ao
longo de percursos demorados. O americano Diego Chang,
que atravessou o país num ônibus da Itapemirim, ficou
impressionado. "Nunca vi nada parecido: o ônibus
estava um lixo", diz ele.
Num país com dimensões continentais como o Brasil, um aspecto grave do transporte rodoviário é a falta de linhas diretas entre cidades importantes. Quem sai de Florianópolis com destino a Belo Horizonte, por exemplo, tem de pegar um ônibus para São Paulo ou Curitiba, para só então embarcar em uma nova companhia que o leve a Minas Gerais. Se essa pessoa fizer baldeação na capital paulista, será obrigada a enfrentar o desconforto adicional de mudar de rodoviária. Por trás desse contratempo há um problema mecânico chamado burocracia ruim e lobby bom. Há mais de vinte anos o Ministério dos Transportes não promove nenhuma licitação para exploração de novas linhas. "É um escândalo. Por pressão das dez maiores companhias, que formam um verdadeiro oligopólio, o governo não abre licitações", afirma Amaury Andrade, dono da empresa 1001, que opera com uma permissão provisória entre Rio e São Paulo.
As de
sempre
Como não se regulamentam novos trajetos, o asfalto é
fértil para o improviso. Teoricamente, não existe
nenhuma linha que ligue Palmas, capital do Estado de
Tocantins, a qualquer outra capital brasileira. Para
driblar o transtorno que isso significa, o Ministério
dos Transportes tem permitido adaptações no roteiro de
linhas já existentes. Assim, algumas das empresas que
fazem a viagem entre Belém e Brasília obtiveram a
permissão de passar em Palmas
o
que não quer dizer que os ônibus estejam fazendo um
desvio até a capital de Tocantins. Aproveitando-se da
brecha, essas companhias puseram outros veículos na
estrada para operar duas novas linhas. A exemplo de
Palmas, outros municípios foram criados nos últimos
vinte anos. Para atendê-los, o governo permitiu que
linhas fossem prolongadas e tivessem roteiros alterados
tudo isso sem licitação e com as empresas de sempre no
comando. Para as companhias, é um bom negócio. Os
usuários, no entanto, continuam mal servidos, pois o
número de linhas e de ônibus não cresceu na
proporção necessária para a demanda.
O que vem resolvendo esse déficit são os ônibus clandestinos. Segundo o secretário Cláudio Ivanof, "cerca de 800 linhas são operadas por ônibus piratas ou clandestinos mantidos por pequenos empresários e até mesmo pelas grandes empresas que já atuam no mercado formal". Das 800 linhas clandestinas, 300 operam com autorização judicial. Em vários Estados, a Justiça Federal decidiu permitir que os clandestinos operassem em determinados trajetos para atender a fatias do mercado não servidas pelas empresas regulares. Outra gambiarra, que permite um serviço essencial, porém menos sujeita ainda aos controles mínimos.





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