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Rússia
Deus e o consumo
Selvagem e
bela, Moscou comemora 850 anos
com festa, igreja nova e pique capitalista
Izalco
Sardenberg
Moscou enfim se
tornou a cidade sem mendigos e prostitutas, como sonharam
os comunistas pelo menos durante esta
semana. Por ordem do prefeito Iuri Lujkov, os velhos
pobres e as moças alegres precisam sumir da vista neste
domingo. A opção, para quem resiste, é a cadeia. De
tempo em tempo, Lujkov
um político populista que planeja ser presidente da
República e é facilmente identificado pelo boné tipo
Lênin que usa para esconder a calvície
expulsa os "indesejáveis". A faxina dessa vez
é especial: a cidade comemora seu 850º aniversário e a
prefeitura armou uma festa memorável. De sexta a
domingo, os moscovitas terão Pavarotti na Praça
Vermelha, ao lado do Kremlin, um show de música new age
comandado por Jean-Michel Jarre e a apresentação do
ilusionista americano David Copperfield. Como prata da
casa, um espetáculo do Balé Bolshoi e um show com fogos
de artifício.
O estrangeiro que
só conheceu a Moscou comunista ficará surpreso se
voltar hoje à cidade. Desde que a União Soviética
virou fumaça, quase seis anos atrás, Moscou tomou um
banho de capitalismo que lavou o cinza burocrático da
era comunista. A cidade sempre foi bela e os comunistas
tudo fizeram para transformá-la no cartão-postal do
Império Vermelho. Mas havia mazelas complicadas de
esconder, como as filas intermináveis diante de lojas de
prateleiras vazias. O capitalismo injetou vivacidade,
enfeitou as fachadas com vitrines de griffes
internacionais e liberou as ruas para o deslumbramento
dos novos-ricos, dos novíssimos negócios que se abrem
por toda parte. A parte ruim é que o crime organizado
as chamadas máfias prosperou com a mesma
desenvoltura. As disputas entre quadrilhas resultaram em
53 mortes no ano passado, o equivalente a um único fim
de semana quente em São Paulo, mas chocantes pelo que
representam de domínio dos bandidos sobre todos os
aspectos da vida russa.
O clima de terra de
ninguém, a selvageria da transição para o capitalismo
e, ao mesmo tempo, uma liberdade jamais desfrutada em
quase 1 000 anos de História transformaram Moscou. No
que diz respeito aos produtos de consumo e à oferta de
diversão, visitar a capital russa já não representa,
como no passado, uma viagem ao outro lado da Lua.
"Parece outra cidade", espanta-se o empresário
João Prestes, filho do falecido líder comunista Luiz
Carlos Prestes e morador da capital russa desde os anos
70. É verdade que a vida continua penosa para a maioria
dos 12 milhões de moscovitas, abrigados em apartamentos
miseráveis. "Nenhuma festa vai mudar o fato de que
vivemos numa cidade com preços de Primeiro Mundo e
salários de Terceiro", lamenta o moscovita Alexandr
Bogdanov, um dos tradutores de Jorge Amado. Moscou, no
entanto, continua a ser a cidade onde todo russo quer
morar. No ano passado, a polícia deteve 1,2 milhão de
pessoas sem a devida propiska, a permissão de
residência na capital.
Mina de
ouro
Moscou absorveu mais de 60% dos investimentos
estrangeiros que aportaram na Rússia nesta década. A
dinheirama alimenta o consumo conspícuo da Rua
Tverskaia, com griffes tão renomadas e caras quanto em
Milão. Manteve também projetos como a construção de
hotéis cinco-estrelas o
mais novo, da cadeia americana Marriott, será inaugurado
no 850º aniversário da cidade. A diária,
salgadíssima, é de 300 dólares. Um restaurante de
comida brasileira recém-aberto na badalada Rua Arbat tem
garçons vestidos de gaúcho e refeições a preço fixo
de 100 dólares por pessoa. A última vez que Moscou
passou por uma reforma geral foi para as Olimpíadas de
1980, mas então era uma cidade de telefones grampeados e
agentes da KGB posando de guia turístico. Com os
monumentos e igrejas restaurados, ruas repavimentadas e
fachadas pintadas de novo, Moscou está bonita como
nunca. A área central foi transformada num canteiro de
obras, movimentado, em levas sucessivas, por 600 000
trabalhadores.
A obra mais falada
da reforma geral é a Catedral do Cristo Salvador,
reconstruída exatamente como a original, dinamitada por
ordem de Stalin em 1931. Com as paredes cobertas de
mármore branco e uma cúpula revestida com 50 quilos de
ouro, a catedral já se incorporou ao perfil da cidade
apesar do modelo antigo, cheira a uma obra novinha em
folha, o que lhe dá o inevitável ar de coisa falsa. O
que Moscou tem de mais novo, contudo, é a paisagem
humana, agitada pelos efeitos da era pós-comunista.
Apareceram as gangues de jovens, num revival da moda
punk, skinhead ou grunge. Mendigos são onipresentes nas
praças e nos desvãos do metrô. Os novye russkye (literalmente
"novos russos", mas com o sentido de
novos-ricos) desfilam em Porsche, BMW e Mercedes, celular
a tiracolo, pencas de jóias de ouro penduradas no
pescoço e mulheres belíssimas no braço. Cinqüenta
anos atrás, quando a cidade comemorou oito séculos,
Stalin reinava no Kremlin e a capital russa se recuperava
dos horrores da guerra. Aos 850 anos, Moscou merece um
aniversário mais alegre.

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