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Ponto
de vista: Luiz Felipe de Alencastro
Lições gaúchas
"Um
revés do PT em Porto Alegre,
onde o
partido ganhou densidade
nacional e
prestígio internacional,
será de
mau agouro"
Muitos problemas do governo Lula deveriam ser meditados à
luz da experiência petista no Rio Grande do Sul. Lá
ocorreram sucessos e fiascos instrutivos para o atual governo.
A regra de ouro do presidencialismo supõe que o partido e,
melhor ainda, o candidato alçados à Presidência
da República tenham recolhido em mandatos anteriores uma
sólida prática na gestão de municípios
e Estados importantes. Nessa perspectiva, o percurso petista no
Rio Grande do Sul é emblemático. Depois de eleger
dois prefeitos sucessivos em Porto Alegre, o PT ganhou as eleições
gaúchas em 1998, passando a administrar um Estado de papel
decisivo na política nacional. Nas eleições
do ano passado, na hora em que Lula deu o pulo-do-gato, arrebatando
a Presidência, o PT perdeu o governo gaúcho, embora
ainda detivesse a prefeitura de Porto Alegre. Que lições
tirar do perde-ganha petista? Para simplificar a análise,
ponha-se de lado o impacto eleitoral das querelas do PT gaúcho
e da rivalidade entre petistas sulistas e "nortistas", leia-se paulistas,
que existem no partido, mas também no MST, dividido entre
Stédile e José Rainha. Feitas as ressalvas, é
possível entrar no cerne da questão: a especificidade
da gestão municipal.
Ilustração Ale Setti
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Jaime Lerner, alheio ao ideário do PT, já havia demonstrado
em seus três mandatos na prefeitura de Curitiba (dois dos
quais como prefeito biônico) que a boa gestão municipal
proporciona grandes dividendos políticos. Acresce que os
prefeitos dotados de um programa articulado podem constituir maiorias
com os vereadores para implementar mudanças de fôlego.
Como mostra o caso de Curitiba, de Porto Alegre e, mais recentemente,
de São Paulo, onde a prefeita Marta Suplicy realizou uma
"reforma tributária" voltada para a justiça social,
com um IPTU que incide mais sobre as moradias mais valorizadas.
A melhoria dos serviços públicos das escolas
primárias, dos transportes coletivos e da ocupação
do espaço urbano responde às expectativas da
opinião pública e cria um perfil municipal que se
torna uma referência nacional e, às vezes, internacional,
como em Curitiba e Porto Alegre.
Na esfera estadual, a parada é outra. O governador lida com
interesses complexos na Assembléia estadual, nas numerosas
prefeituras e no tecido social do Estado. Paralelamente, tem de
agir junto à bancada estadual no Congresso e às instâncias
federais eventualmente dominadas por adversários políticos.
Nesse sentido, o insucesso gaúcho de Olívio Dutra
resulta em grande parte de uma má avaliação
das relações de força regionais e nacionais.
Levado por secretários de governo que desenvolveram, quase
sempre, uma estratégia de enfrentamento político,
Olívio Dutra trombou com a imprensa e forças partidárias
e sociais de um Estado considerado dos mais politizados do país.
Mesmo que correspondesse a uma análise econômica defensável,
a renegociação com a Ford, sobre o estabelecimento
da montadora na região, fracassou e apareceu aos gaúchos
como um prejuízo para o Estado. Apesar de Olívio Dutra,
Tarso Genro e outros quadros do PT gaúcho terem caído
escada acima, tornando-se ministros depois da derrota estadual do
ano passado, o futuro do PT continua incerto no Rio Grande do Sul.
Nas eleições presidenciais de 1989, o PT passou no
teste de viabilidade nacional quando os gaúchos que haviam
votado em Leonel Brizola no primeiro turno votaram maciçamente
em Lula no segundo turno. Acentuaram-se, então, o desvanecimento
do varguismo e a migração do trabalhismo mais dinâmico
para o PT. Um revés do PT em Porto Alegre, onde o partido,
até então tributário do ABC, ganhou densidade
nacional e prestígio internacional, será de mau agouro.
Orgulhosos de sua identidade, os gaúchos pensarão
que quem não acertou no Rio Grande do Sul não acertará
no governo federal. Outros brasileiros de outros Estados, sabendo
que as mesmas causas produzem os mesmos efeitos, farão o
mesmo raciocínio.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris Sorbonne (abomey@uol.com.br)
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