Edição 1818 . 3 de setembro de 2003

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Ponto de vista: Luiz Felipe de Alencastro
Lições gaúchas

"Um revés do PT em Porto Alegre,
onde
o partido ganhou densidade
nacional
e prestígio internacional,
será
de mau agouro"

Muitos problemas do governo Lula deveriam ser meditados à luz da experiência petista no Rio Grande do Sul. Lá ocorreram sucessos e fiascos instrutivos para o atual governo.

A regra de ouro do presidencialismo supõe que o partido e, melhor ainda, o candidato alçados à Presidência da República tenham recolhido em mandatos anteriores uma sólida prática na gestão de municípios e Estados importantes. Nessa perspectiva, o percurso petista no Rio Grande do Sul é emblemático. Depois de eleger dois prefeitos sucessivos em Porto Alegre, o PT ganhou as eleições gaúchas em 1998, passando a administrar um Estado de papel decisivo na política nacional. Nas eleições do ano passado, na hora em que Lula deu o pulo-do-gato, arrebatando a Presidência, o PT perdeu o governo gaúcho, embora ainda detivesse a prefeitura de Porto Alegre. Que lições tirar do perde-ganha petista? Para simplificar a análise, ponha-se de lado o impacto eleitoral das querelas do PT gaúcho e da rivalidade entre petistas sulistas e "nortistas", leia-se paulistas, que existem no partido, mas também no MST, dividido entre Stédile e José Rainha. Feitas as ressalvas, é possível entrar no cerne da questão: a especificidade da gestão municipal.

Ilustração Ale Setti


Jaime Lerner, alheio ao ideário do PT, já havia demonstrado em seus três mandatos na prefeitura de Curitiba (dois dos quais como prefeito biônico) que a boa gestão municipal proporciona grandes dividendos políticos. Acresce que os prefeitos dotados de um programa articulado podem constituir maiorias com os vereadores para implementar mudanças de fôlego. Como mostra o caso de Curitiba, de Porto Alegre e, mais recentemente, de São Paulo, onde a prefeita Marta Suplicy realizou uma "reforma tributária" voltada para a justiça social, com um IPTU que incide mais sobre as moradias mais valorizadas. A melhoria dos serviços públicos – das escolas primárias, dos transportes coletivos e da ocupação do espaço urbano – responde às expectativas da opinião pública e cria um perfil municipal que se torna uma referência nacional e, às vezes, internacional, como em Curitiba e Porto Alegre.

Na esfera estadual, a parada é outra. O governador lida com interesses complexos na Assembléia estadual, nas numerosas prefeituras e no tecido social do Estado. Paralelamente, tem de agir junto à bancada estadual no Congresso e às instâncias federais eventualmente dominadas por adversários políticos. Nesse sentido, o insucesso gaúcho de Olívio Dutra resulta em grande parte de uma má avaliação das relações de força regionais e nacionais. Levado por secretários de governo que desenvolveram, quase sempre, uma estratégia de enfrentamento político, Olívio Dutra trombou com a imprensa e forças partidárias e sociais de um Estado considerado dos mais politizados do país. Mesmo que correspondesse a uma análise econômica defensável, a renegociação com a Ford, sobre o estabelecimento da montadora na região, fracassou e apareceu aos gaúchos como um prejuízo para o Estado. Apesar de Olívio Dutra, Tarso Genro e outros quadros do PT gaúcho terem caído escada acima, tornando-se ministros depois da derrota estadual do ano passado, o futuro do PT continua incerto no Rio Grande do Sul.

Nas eleições presidenciais de 1989, o PT passou no teste de viabilidade nacional quando os gaúchos que haviam votado em Leonel Brizola no primeiro turno votaram maciçamente em Lula no segundo turno. Acentuaram-se, então, o desvanecimento do varguismo e a migração do trabalhismo mais dinâmico para o PT. Um revés do PT em Porto Alegre, onde o partido, até então tributário do ABC, ganhou densidade nacional e prestígio internacional, será de mau agouro. Orgulhosos de sua identidade, os gaúchos pensarão que quem não acertou no Rio Grande do Sul não acertará no governo federal. Outros brasileiros de outros Estados, sabendo que as mesmas causas produzem os mesmos efeitos, farão o mesmo raciocínio.


Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris – Sorbonne (abomey@uol.com.br)

 
 
 
 
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