Edição 1818 . 3 de setembro de 2003

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
A Presidência na
temperatura ideal

Lula combina um estilo "quente" junto ao
povo com
um estilo "frio" nas disputas políticas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve na semana passada em São José dos Campos (SP) e na Venezuela. Em São José dos Campos participou do velório das vítimas da explosão do foguete no Maranhão. Na Venezuela, mais que pelo encontro com Hugo Chávez, distinguiu-se pela declaração de que não se sente confortável com o rótulo de "esquerdista". Enquanto isso, o governo que preside vivia seu primeiro grande escândalo, com o colapso dos serviços do Instituto Nacional de Câncer, atribuído pelos médicos que ali trabalham às nomeações políticas para a direção no órgão. Os três episódios, combinados, contribuem para entender o estilo Lula de exercer a Presidência. Eis as características que deles se extraem:

Presidência emocional. Quatro dias depois de ter comparecido ao velório de Sérgio Vieira de Mello, o brasileiro que comandava a ONU em Bagdá, Lula, em São José dos Campos, prestigiou o velório coletivo de parte dos mortos no acidente do Maranhão. No velório de Vieira de Mello já havia distribuído abraços calorosos. Em São José dos Campos fez mais: chorou, além de apertar carinhosamente contra o peito as viúvas e os filhos das vítimas. Já seria novidade um presidente tão presto em apresentar-se de carne e osso em eventos desse tipo. A norma no Brasil é de a solidariedade ser expressa de longe, em Brasília, por meio de declarações formais e decretação de luto. Lula faz mais: envolve-se e, de temperamento emotivo, chega às lágrimas. Ressalve-se que, nos dois casos, se tratava de tragédias, digamos, oficiais, a primeira por envolver um brasileiro em missão internacional e a segunda por resultar do malogro de um programa do governo, como é o desenvolvimento da tecnologia espacial. A presença de autoridades é nelas menos incomum. Mas é de supor que mesmo diante de eventos de outra índole – uma catástrofe natural, ou um massacre como, entre tantos outros, o da Candelária – Lula adotasse procedimento semelhante. É de sua natureza.

Presidência olímpica. Ao renegar a filiação à esquerda, Lula não apenas se afasta dos atributos negativos que, no imaginário popular, possam se confundir com "esquerdismo" – insubordinação, barulho, desordem e, no limite, violência. Mais que isso, afasta-se da querela política em geral. O movimento obedece a impulsos inversos aos que determinam a "Presidência emocional". Nesta, prevalecem a autenticidade e a natureza íntima do presidente. Já a "Presidência olímpica" resulta de uma construção racional. Lula fez toda uma carreira à esquerda e nunca se envergonhou disso. O partido que fundou, e do qual sempre foi a figura paradigmática, é indubitavelmente de esquerda. Na Venezuela, no entanto, saiu-se com a novidade de que "Em toda a minha vida, nunca gostei de ser rotulado de esquerda", conforme resposta a uma pergunta da jornalista Eliane Cantanhêde, da Folha de S.Paulo. Lula lembrou na mesma resposta que, da primeira vez que lhe perguntaram se era comunista, disse: "Sou torneiro mecânico". Ora, "comunista", além de ele nunca ter sido mesmo, é qualificativo pesado demais para assumir, quando se quer trilhar uma carreira. Ser "de esquerda" é outra coisa. Negá-lo, a esta altura, coincide com o desejo de situar-se acima do bem e do mal, tão distante da chã disputa política quanto próximo do povo na emoção do sofrimento e da morte.

Presidência blindada. O escândalo do Instituto Nacional de Câncer evidencia que o estilo Lula de exercer a Presidência vem dando certo. Um órgão público de reputação impecável foi arrastado a crise sem precedentes em sua história. A vida dos doentes que dele dependem correu risco. O ministro da Saúde passou à classe dos ministros-problema. E o presidente... Nada. Nem por um momento o escândalo o atingiu. Com Fernando Henrique Cardoso ocorria o oposto. Durante meses ele enfrentou a campanha "Fora FHC". Mais de uma vez teve apontada contra o peito a ameaça letal do impeachment, empunhada por parlamentares ou advogados do PT. Até escândalos que não houve, como a falsificação conhecida como "Dossiê Cayman", abalaram-lhe a cadeira. Lula, já no oitavo mês de governo, economia estagnada, desemprego nas alturas e, agora, o primeiro caso digno da palavra "escândalo", conserva-se invulnerável. Nos tempos do presidente Ronald Reagan os americanos tomaram de empréstimo às panelas a palavra "teflon" para caracterizar os governantes em quem, como em Reagan, os escândalos não "grudavam". Hoje a palavra "blindagem" está mais na moda. A blindagem de Lula decorre da feliz conjugação da "Presidência emocional" com a "Presidência olímpica". A primeira conduz a uma "Presidência quente", algo que, embora resulte da personalidade do presidente no que tem de mais autêntico, cai melhor que truque de marketing junto ao caloroso povo brasileiro. Inversamente, a segunda estimula uma "Presidência fria", descontagiada da febre da política. Não se trata de contradição. As duas categorias ajudam a manter a Presidência na temperatura ideal.

 
 
 
 
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