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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
A
Presidência na
temperatura ideal
Lula
combina um
estilo "quente" junto ao
povo com um estilo "frio" nas
disputas políticas
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve na semana passada
em São José dos Campos (SP) e na Venezuela. Em São
José dos Campos participou do velório das vítimas
da explosão do foguete no Maranhão. Na Venezuela,
mais que pelo encontro com Hugo Chávez, distinguiu-se pela
declaração de que não se sente confortável
com o rótulo de "esquerdista". Enquanto isso, o governo que
preside vivia seu primeiro grande escândalo, com o colapso
dos serviços do Instituto Nacional de Câncer, atribuído
pelos médicos que ali trabalham às nomeações
políticas para a direção no órgão.
Os três episódios, combinados, contribuem para entender
o estilo Lula de exercer a Presidência. Eis as características
que deles se extraem:
Presidência
emocional. Quatro dias depois de ter comparecido ao velório
de Sérgio Vieira de Mello, o brasileiro que comandava a ONU
em Bagdá, Lula, em São José dos Campos, prestigiou
o velório coletivo de parte dos mortos no acidente do Maranhão.
No velório de Vieira de Mello já havia distribuído
abraços calorosos. Em São José dos Campos fez
mais: chorou, além de apertar carinhosamente contra o peito
as viúvas e os filhos das vítimas. Já seria
novidade um presidente tão presto em apresentar-se de carne
e osso em eventos desse tipo. A norma no Brasil é de a solidariedade
ser expressa de longe, em Brasília, por meio de declarações
formais e decretação de luto. Lula faz mais: envolve-se
e, de temperamento emotivo, chega às lágrimas. Ressalve-se
que, nos dois casos, se tratava de tragédias, digamos, oficiais,
a primeira por envolver um brasileiro em missão internacional
e a segunda por resultar do malogro de um programa do governo, como
é o desenvolvimento da tecnologia espacial. A presença
de autoridades é nelas menos incomum. Mas é de supor
que mesmo diante de eventos de outra índole uma catástrofe
natural, ou um massacre como, entre tantos outros, o da Candelária
Lula adotasse procedimento semelhante. É de sua natureza.
Presidência
olímpica. Ao renegar a filiação à
esquerda, Lula não apenas se afasta dos atributos negativos
que, no imaginário popular, possam se confundir com "esquerdismo"
insubordinação, barulho, desordem e, no limite,
violência. Mais que isso, afasta-se da querela política
em geral. O movimento obedece a impulsos inversos aos que determinam
a "Presidência emocional". Nesta, prevalecem a autenticidade
e a natureza íntima do presidente. Já a "Presidência
olímpica" resulta de uma construção racional.
Lula fez toda uma carreira à esquerda e nunca se envergonhou
disso. O partido que fundou, e do qual sempre foi a figura paradigmática,
é indubitavelmente de esquerda. Na Venezuela, no entanto,
saiu-se com a novidade de que "Em toda a minha vida, nunca gostei
de ser rotulado de esquerda", conforme resposta a uma pergunta da
jornalista Eliane Cantanhêde, da Folha de S.Paulo.
Lula lembrou na mesma resposta que, da primeira vez que lhe perguntaram
se era comunista, disse: "Sou torneiro mecânico". Ora, "comunista",
além de ele nunca ter sido mesmo, é qualificativo
pesado demais para assumir, quando se quer trilhar uma carreira.
Ser "de esquerda" é outra coisa. Negá-lo, a esta altura,
coincide com o desejo de situar-se acima do bem e do mal, tão
distante da chã disputa política quanto próximo
do povo na emoção do sofrimento e da morte.
Presidência
blindada. O escândalo do Instituto Nacional de Câncer
evidencia que o estilo Lula de exercer a Presidência vem dando
certo. Um órgão público de reputação
impecável foi arrastado a crise sem precedentes em sua história.
A vida dos doentes que dele dependem correu risco. O ministro da
Saúde passou à classe dos ministros-problema. E o
presidente... Nada. Nem por um momento o escândalo o atingiu.
Com Fernando Henrique Cardoso ocorria o oposto. Durante meses ele
enfrentou a campanha "Fora FHC". Mais de uma vez teve apontada contra
o peito a ameaça letal do impeachment, empunhada por parlamentares
ou advogados do PT. Até escândalos que não houve,
como a falsificação conhecida como "Dossiê Cayman",
abalaram-lhe a cadeira. Lula, já no oitavo mês de governo,
economia estagnada, desemprego nas alturas e, agora, o primeiro
caso digno da palavra "escândalo", conserva-se invulnerável.
Nos tempos do presidente Ronald Reagan os americanos tomaram de
empréstimo às panelas a palavra "teflon" para caracterizar
os governantes em quem, como em Reagan, os escândalos não
"grudavam". Hoje a palavra "blindagem" está mais na moda.
A blindagem de Lula decorre da feliz conjugação da
"Presidência emocional" com a "Presidência olímpica".
A primeira conduz a uma "Presidência quente", algo que, embora
resulte da personalidade do presidente no que tem de mais autêntico,
cai melhor que truque de marketing junto ao caloroso povo brasileiro.
Inversamente, a segunda estimula uma "Presidência fria", descontagiada
da febre da política. Não se trata de contradição.
As duas categorias ajudam a manter a Presidência na temperatura
ideal.
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