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Acidente
Vale
a pena insistir?
Depois
do terceiro fracasso do VLS,
o Brasil precisa decidir se ainda quer
um foguete espacial

Ariel Kostman
Jorge Araujo/Folha Imagem
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| O
presidente Lula consola familiares das vítimas: o país perdeu
os seus especialistas |
A explosão
do Veículo Lançador de Satélites (VLS) em Alcântara
pôs em xeque todo o programa espacial brasileiro, criado com
o objetivo de colocar o Brasil entre as nações capazes
de lançar foguetes e satélites ao espaço. Foi
a terceira tentativa de fazer o VLS entrar em órbita
e o terceiro fracasso. Diferentemente das vezes anteriores, quando
os foguetes tiveram de ser destruídos logo após o
lançamento por causa de problemas técnicos, agora
houve 21 mortes. Além da tragédia humana, o país
perdeu seus melhores especialistas em tecnologia de foguetes espaciais.
Serão necessários pelo menos dez anos até que
se consiga reunir novamente uma equipe do mesmo nível. Por
tudo isso, o momento é apropriado para o governo rever o
programa espacial brasileiro, a começar por sua razão
de ser. "É preciso verificar se devemos mesmo insistir nessa
direção", diz o físico Ennio Candotti, presidente
da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. "Afinal,
o projeto do VLS foi concebido na década de 70, em situação
política e econômica completamente diferente. Será
que ele ainda é atual?"
O
governo militar acreditava que o domínio do ciclo do átomo,
incluindo a construção da bomba atômica e de
um míssil intercontinental capaz de lançar as ogivas
nucleares, era vital para o futuro e a segurança do país.
Hoje, o Brasil sabe que não precisa desse tipo de arma para
se defender. Criado em 1980, o projeto foi batizado de Missão
Espacial Completa Brasileira e ganhou uma finalidade civil. O objetivo
era construir o foguete, três satélites de coleta de
dados, dois satélites de sensoreamento remoto e um de comunicações.
Depois de 23 anos e gasto total de mais de 1 bilhão de dólares,
apenas três satélites ficaram prontos. Dois foram lançados
por foguetes americanos Pegasus, em 1993 e 1998, a um custo de 16
milhões de dólares cada um. O terceiro foi destruído
no primeiro lançamento do VLS, em 1997. O Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais (Inpe), que projeta e monta os satélites,
desistiu dos outros três que ia construir. Pretende retomar
as pesquisas com projetos inteiramente novos, mais modernos. Sobrou
o VLS, de concepção ultrapassada.
Ainda
sem domínio do bê-á-bá do lançamento,
o Brasil não tem como acompanhar o notável avanço
científico ocorrido na tecnologia espacial nas últimas
duas décadas. O orçamento do programa é de
35,7 milhões de reais, quantia insignificante perante a grandeza
do desafio. A Índia, que coloca os próprios satélites
no espaço, gasta 1,3 bilhão de reais anuais. Para
ser considerado viável, um foguete precisa fazer quatro testes
bem-sucedidos. Com três fracassos em três tentativas,
o VLS dificilmente será considerado confiável. O mercado
de lançamento de satélites é dominado por Estados
Unidos, Rússia, China e um consórcio de países
europeus. Todos eles têm lançadores capazes de colocar
satélites mais pesados que aqueles previstos para serem levados
pelo VLS e em órbitas mais altas. "O acidente enfraquece
as possibilidades de demanda por futuros serviços de lançamento
brasileiros", diz Patrick Collins, analista da área aeroespacial
da consultoria Frost & Sullivan. Para complicar, o mercado de
lançamento de satélites encolheu de 5,3 bilhões
de dólares, em 2000, para 3,7 bilhões, em 2002. A
Arianespace, responsável pelo lançamento de foguetes
da Agência Espacial Européia, estima que em 2008 o
mercado estará saturado.
O
grande trunfo do programa espacial brasileiro é a base de
lançamentos de Alcântara, no Maranhão. Por ela
estar bem perto da linha do Equador, onde a velocidade de rotação
da Terra é maior, os foguetes ganham um impulso extra na
largada, economizando combustível. O empurrão adicional
pode reduzir o custo do combustível em até 30%. Outra
vantagem é o clima, que permite lançamentos em qualquer
época do ano. Em 2001, o Brasil perdeu uma boa chance para
transformar esse trunfo em algo lucrativo. O governo assinou um
acordo com os Estados Unidos para uso da base. Os americanos iriam
pagar 70 milhões de dólares para catorze lançamentos
em um ano (5 milhões de dólares para cada um). O valor
é seis vezes maior que o total previsto no orçamento
deste ano para a Agência Espacial Brasileira. Bombardeado
com acusações de que feria a soberania nacional, o
acordo não foi aprovado pelo Congresso. A base continuou
ociosa. "O país perdeu uma excelente oportunidade", afirma
o brigadeiro Hugo de Oliveira Piva, um dos pais do programa espacial
brasileiro. "Além de ser ótimo financeiramente, teríamos
contato com os líderes em tecnologia de lançamento
de foguetes." Vale a pena insistir?
| Pacote
quero ser grande
O
Veículo Lançador de Satélites não
foi o único megaprojeto do pacote "Brasil Potência",
idealizado pelo governo militar na década de
70. Veja alguns outros
Embraer
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AVIÕES DE COMBATE
O Brasil
gastou 2,5 bilhões de dólares no projeto
do caça AMX: o plano era vender 800 unidades,
mas só oito foram comercializadas |
PROGRAMA
NUCLEAR PARALELO
Entre 1975 e 1990,
o Brasil tentou dominar o ciclo do átomo em um
programa secreto: o objetivo era fabricar a bomba atômica
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SUBMARINO NUCLEAR
No Centro Experimental Aramar, no interior de
São Paulo, a Marinha já gastou 1 bilhão de dólares,
mas até hoje só existe uma miniatura
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Claudio Rossi
 |
Orlando Brito
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ARMAS DE GUERRA
Nos anos 80, a Engesa investiu 100 milhões
de dólares para projetar um tanque pesado,
o Osório: nunca passou da fase de protótipo
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| A
velharia da Nasa
A
Nasa, a agência espacial americana, cometeu erros
grosseiros no acidente com o ônibus espacial Columbia,
em fevereiro. A afirmação é do
relatório de 248 páginas divulgado na
semana passada pela comissão que investigou o
desastre. A nave desintegrou-se ao reentrar na atmosfera,
matando os sete ocupantes. Havia poucas dúvidas
sobre a causa do acidente, agora confirmada pela investigação:
um rombo de 25 centímetros de comprimento na
asa esquerda provocado pelo choque de um pedaço
de espuma sintética que se soltou do tanque de
combustível na hora do lançamento. A questão
sem resposta é por que, durante os dezesseis
dias em que o Columbia permaneceu em órbita,
a Nasa não tomou providências para evitar
o desastre ou para resgatar a tripulação.
Teria sido perfeitamente possível enviar outro
ônibus espacial, o Atlantis, se o pessoal
de terra houvesse avaliado corretamente os dados que
tinha à mão. O relatório diz que
ninguém tomou providências porque a iniciativa
não faz parte da cultura interna da Nasa.
O relatório coloca novamente o foco no futuro
da própria Nasa. Desde o fim da Guerra Fria,
que encerrou a competição espacial com
a União Soviética, a agência luta
para convencer o governo americano de que vale a pena
continuar com os vôos tripulados. Nos últimos
dez anos, houve um corte de 40% no orçamento
do programa dos ônibus espaciais. O relatório
afirma que eles são uma aposta de altíssimo
risco. O ônibus espacial é um projeto dos
anos 70, muito caro e excessivamente complexo, o que
faz aumentar os riscos de alguma coisa dar errado. Com
máquinas mais baratas e menor quantidade de mortes,
os russos levam e trazem cosmonautas da Estação
Espacial Internacional. "Comparados às Soyuz
russas, os ônibus espaciais são vasos de
porcelana Ming voadores", disse o astrônomo Jeffrey
Bell, da Universidade do Havaí, à revista
inglesa The Economist. A comissão que
investigou o acidente fez 29 recomendações
de segurança à Nasa, das quais quinze
devem ser cumpridas antes de os ônibus espaciais
retomarem os vôos. Fica claro, porém, que
para evitar novos acidentes o melhor a fazer é
aposentar de vez a frota.
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