Edição 1818 . 3 de setembro de 2003

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Saúde
Minha proteína é
melhor que a sua

A Dieta de South Beach, versão amena
do regime de Atkins, é o livro mais vendido
nos EUA há quatro meses


Em Profundidade: Dietas

Na primeira linha do capítulo 2 de seu livro de dietas, o cardiologista americano Arthur Agatston declara: "Não sou um médico de dieta". Imaginem se fosse. Lançado em abril, The South Beach DietA Dieta de South Beach, em português, assim chamado porque o autor mora em Miami e South Beach é o bairro que evoca moda, riqueza e sucesso – pulou quase que imediatamente para o primeiro lugar na lista dos títulos de auto-ajuda mais vendidos do jornal The New York Times e lá permanece há sólidos quatro meses. Deve ficar muito mais ainda, agora que o regime do doutor Agatston deu o primeiro passo na direção da mesa-de-cabeceira das celebridades: a revista New York entreouviu o ex-presidente Bill Clinton atribuindo sua atual boa forma, e a de sua mulher, Hillary, à dieta de South Beach. Apesar de todo o seu sucesso, baseado em parte na propaganda boca a boca de ex-obesos e em parte em um muito bem-sucedido plano de marketing, o regime de Agatston não traz nenhuma fórmula nova ou mirabolante. Ele é, basicamente, uma adaptação, mais amena, da dieta rica em proteínas e escassa em carboidratos preconizada pelo mais famoso dos médicos do gênero, Robert Atkins, de longe o maior freqüentador de listas de best-sellers dos Estados Unidos: só nos primeiros seis meses deste ano, ele esteve 21 semanas na dos livros de auto-ajuda de capa dura e 26 na dos livros de bolso. A diferença entre os cardiologistas Atkins (morto em abril, aos 72 anos, ao cair e bater a cabeça na calçada congelada por uma nevasca) e Agatston, 56 anos, é que o médico de Miami tem uma visão mais eclética (veja quadro ao lado) da guerra da picanha contra o pão de fôrma. No front das proteínas, diz, há gorduras boas e gorduras ruins. Igualmente, há mocinhos e bandidos entre os carboidratos. Emagrecerá com saúde quem souber identificá-los.

O próprio Agatston concorda que os dois programas são parecidos. "Conheci Atkins e sei que era sincero", declarou em uma entrevista. "Mas meu livro trata do que há de mais moderno na ciência e vai além do dele." A primeira fase dos dois regimes é parecidíssima: ambos propõem um período de duas semanas em que carboidratos, frutas inclusive, não são permitidos. Gordura pode, porque com ela vem proteína, mas, enquanto Atkins preconiza o consumo à vontade de bacon e carnes gordurosas, Agatston recomenda comer carnes mais magras e frango sem pele, com moderação, empanturrar-se de peixes como salmão e atum e dar sempre preferência às gorduras monoinsaturadas, como a do azeite de oliva, a das castanhas e a dos amendoins. Garante, em catorze dias, perda de 3,5 a 6 quilos. Na fase dois, introduz mais frutas do que Atkins e, rompendo o princípio mais básico do manual atkiniano, autoriza alguns carboidratos (com muita moderação): pão ("trigo integral é melhor que pão sírio, que é melhor que pumpernickel, que é melhor que centeio, que é melhor que pão branco", ensina Agatston), cereal matinal e macarrão feitos com grãos integrais, arroz também integral, pipoca e batata-doce. Chocólatra assumido, permite (pouco) chocolate amargo e meio-amargo, ou sorvete, ou merengue – "mas você terá de escolher uma dessas indulgências. Não pode querer todas, o tempo todo". Ao contrário da abstinência pregada por Atkins, na dieta de South Beach vinho, a essa altura, pode ser tomado na medida do bom senso. A perda de peso, segundo Agatston, será de meio a 1 quilo por semana, e a fase dura até a pessoa chegar ao peso desejado. Resumindo: é a dieta de Atkins temperada aqui e ali com concessões aos alertas para o efeito das gorduras saturadas (como a da picanha, bacon e manteiga) e da ausência de fibras no bom funcionamento do organismo.

Em boa forma com 1,70 metro e 74 quilos, Agatston conta que foi a primeira cobaia para sua dieta, organizada em meados dos anos 90, quando, muito descontente, viu sua cintura crescer e a barriga aumentar. Passou a receitá-la a seus pacientes e começou a dar entrevistas a TVs e rádios locais até chegar a um agente, que montou um projeto de livro pelo qual várias editoras se interessaram. Ganhou a Rodale, especializada em saúde, que primeiro publicou um trecho de The South Beach Diet em sua própria revista, Prevention (13 milhões de leitores), e depois fez propaganda da nova dieta por mala-direta a 5 milhões de clientes. Resultado: a tiragem inicial de 50.000 exemplares esgotou-se em semanas e o livro está na oitava edição. A editora já planeja um volume só de receitas, outro contendo um guia de compras dos ingredientes "legais" – como define Agatston – e ainda uma edição em espanhol. Planos de uma linha de produtos são mencionados, mas Agatston, que continua clinicando diariamente, jura que não quer nada disso. Seu projeto agora, diz, é escrever sobre medicina preventiva, exercícios (por sinal, ausentes do primeiro livro) e hábitos saudáveis.

 
Adeptos da comida zero
Maurício Nahas

Nem carne gordurosa, nem carne magra, nem pão branco, nem pão preto – tem muita gente nos Estados Unidos apelando para a mais radical das dietas para emagrecer: aquela em que a pessoa simplesmente não come. Natalia Rose, consultora de nutrição de Nova York, ganha dinheiro com isso. Ela organiza concorridos fins de semana só para mulheres em que o cardápio é jejuar. Para distrair, muita massagem, muitos tratamentos estéticos e, ponto alto da jornada, uma longa visita à Barneys, loja com vários andares lotados de grifes badaladas. "Criamos um guarda-roupa completo", explicou Natalia ao The New York Times, que acaba de dedicar uma ampla reportagem aos adeptos do jejum estético. Comprar não é obrigatório. "Elas focam a atenção em Narciso Rodriguez (o estilista cubano-americano), em vez de ficar pensando no que estão pondo no estômago." Um regime típico dessa turma dura no mínimo quatro dias, chegando a um mês no caso dos mais empenhados. No período, consumirão sucos de fruta e de vegetais, chás de ervas, sopas batidas e laxantes. Quem deseja orientação e acompanhamento médico paga caro para jejuar. No We Care Spa, da Califórnia, freqüentado por Liv Tyler e Ben Affleck, lotado até outubro, uma semana sem comer custa mais de 3 000 dólares. Dietas à base de sucos e sopas também são comuns em spas brasileiros, onde a média de tolerância fica entre uma semana e dez dias. "Apesar de abranger todos os nutrientes necessários, essa dieta é meio enjoativa", reconhece o médico Alexandre Ferrari da Cunha, do Spa Sete Voltas, de São Paulo. Seu colega Carlos Alberto Moraes, da Lapinha Clínica Naturista, do Paraná, ensina um truque: "O suco deve ser tomado de colherada. Assim, a pessoa tem insalivação e deglutição lentas, fazendo o cérebro perceber a sensação de saciedade". Bom apetite.

 

 
 
 
 
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