|
|
Reformas
Para
tirar a fera da sala
No momento em que se discutem as
reformas, é um erro esquecer que
o grande objetivo delas é aliviar as
finanças dos
lares e das empresas
brasileiras. Nenhum país do mundo
cresceu com carga tributária do
tamanho da brasileira

Alexandre Secco e João Gabriel de Lima
Na
selva africana, ele chega a 250 quilos e passa de 3 metros de comprimento.
Seu rugido é tido como o mais aterrador e espetacular dos
sons produzidos pelos animais selvagens. Pode ser ouvido a até
9 quilômetros de distância. Dono de um apetite ilimitado,
quando está na selva é capaz de comer até 30
quilos de carne numa única refeição. Nas cidades
brasileiras, quando o leão, símbolo da voracidade
tributária do Estado brasileiro, aparece na sala da sua casa
ou no saguão de uma empresa, ele só se acalma quando
morde quase cinco meses do salário das pessoas e da produção
das empresas. É natural que todos morram de medo dele. Seu
dono, o Estado, recusa-se no entanto a colocá-lo atrás
das grades. No momento em que Brasília discute a reforma
tributária, esta é a discussão certa: como
fazer para que o Leão deixe as pessoas e as empresas em paz.
Muitos países trabalham com carga tributária alta.
Entre eles, o Japão (30%), o Canadá, a Espanha (35%)
e a Alemanha (36%). Em comum, são todos países ricos.
Em torno desse fato, há um alerta e um desafio para o Brasil,
que, apesar de pobre, freqüenta a turma dos gastadores. O alerta
é o seguinte: esses países cresceram graças
à carga tributária alta ou aumentaram a carga tributária
depois de ter crescido? Pois é. A história não
registra um só caso de país que tenha crescido num
ambiente de tributos elevados. Sempre acontece o contrário.
"Os países europeus subiram seus gastos depois que ficaram
ricos", alerta Ian Vásquez, do instituto americano Cato,
que congrega estudiosos do pensamento liberal. "O que pouca gente
lembra é que nenhum país ficou rico tendo gastos como
os que o Brasil tem." A não ser que a história venha
um dia a dedicar um capítulo à exceção
brasileira, o Congresso Nacional precisará rever a qualidade
do debate tributário. São insuficientes as promessas
de que o volume de impostos não vai subir. Será preciso
cortá-los. Na impossibilidade prática de chegar a
essa solução ideal, é preciso perseguir uma
meta mais viável: gastar melhor.
O
desafio diante do Brasil é este: os governos têm grande
dificuldade para cortar despesas. "Excetuando-se os países
nórdicos, são poucas as nações que fizeram
um corte efetivo de carga tributária", diz o economista José
Alexandre Scheinkman, professor da universidade americana Princeton.
O economista Fabio Giambiagi, do BNDES, preparou um trabalho sobre
as despesas públicas no Brasil e confirmou o fenômeno
em solo pátrio. Ele concluiu que o governo Fernando Henrique
promoveu um enorme esforço para ajustar as despesas a partir
de 1998, quando o FMI condicionou seus empréstimos a superávits
no Orçamento da União. Ainda assim, Giambiagi mostra
em seu trabalho que o gasto público cresceu durante os oito
anos da era FHC. O governo gastou mais a cada ano. As despesas públicas
aumentaram, na média, 6% ao ano de 1995 a 2002. Nesse mesmo
período, a economia cresceu a uma taxa de 2,4% ao ano. Ou
seja, menos da metade. Segundo Giambiagi, a despesa disparou porque
o governo abriu o cofre para os políticos. "O aumento de
despesas foi causado pela dificuldade de resistir à pressão
por mais gastos", descreve o economista. Para manter o equilíbrio,
a solução encontrada pela equipe econômica foi
aumentar os impostos. Nos anos que precederam a era FHC, a carga
tributária girava em torno de 26% do PIB. No fim do ano passado,
chegou a 36%. Agora, estima-se que ela vá beirar os 40%.
É um peso muito grande para um país que precisa crescer
e gerar emprego.
A situação chegou a um ponto extremo no Brasil. Uma
família de classe média alta, com renda bruta mensal
em torno de 10.000 reais, tem 40% desse valor sugados por impostos
de toda ordem. São 27 diferentes tributos, quase um por dia
do mês. Outros 15% da renda bruta vão embora na forma
de contratação de serviços privados que o Estado
não oferece com a devida qualidade, a saber: previdência,
saúde e educação. Fazendo-se as contas, percebe-se
que essa família destina quase 60% de sua renda a tributos
e despesas obrigatórias para cobrir as deficiências
de serviços do Estado nas áreas da educação,
segurança e saúde. Não há país
no mundo com "carga tributária" tão elevada. O campeão
de tributação é a Suécia, onde a carga
é de 52% do PIB. Como se sabe, o Estado sueco recolhe muito,
mas devolve à sociedade tudo a que ela tem direito
e mais um pouco. Lá, o Estado paga psicólogo, cursos
variados, como navegação, por exemplo, e designa uma
acompanhante para os mais velhos, quando preciso. Os estudantes
têm reembolsadas as despesas com os livros e ninguém
sabe o que é fila para ser atendido nos hospitais.
Saindo dos porcentuais para os reais, a família com renda
de 10.000 reais mensais desembolsa no Brasil 6.000 reais por mês
na forma de despesas obrigatórias exigidas pela cunha fiscal
do Estado ou por sua incapacidade de prestar serviços. Se,
por hipótese, metade desse dinheiro pudesse ser poupada e
aplicada a juros no banco, na bolsa de valores ou em fundos de pensão,
no fim de dez anos a família conseguiria juntar um patrimônio
de 700.000 reais. O efeito multiplicador de milhões de famílias
de classe média poupando nesse volume criaria no Brasil uma
das vigas mestras do Santo Graal da economia contemporânea:
o crescimento sustentado que se prolonga por longos períodos
e não produz inflação. Atualmente, os brasileiros
poupam o equivalente a 18% do PIB. É pouco. Não existe
na história econômica recente nenhum país que
consiga crescer de forma sadia com menos de 25% de poupança.
Países exemplares nesse campo, como a Coréia, poupam
38% do PIB. Como é esse dinheiro que financia os investimentos
na indústria, na agricultura, no comércio e em serviço,
o aumento da produção e a criação de
empregos, quanto mais, melhor. Os economistas são unânimes
em colocar ênfase na robustez da poupança interna como
combustível da prosperidade nacional. De acordo com cálculo
recente preparado pelo economista Fernando Montero, da Consultoria
Tendências, o Brasil conseguiria manter taxas de crescimento
entre 3,5% e 4% se a poupança interna atingisse o patamar
de 22% do PIB.
A
carga tributária vitima de forma igualmente perversa as empresas,
que pagam impostos sobre tudo: o faturamento, o lucro e a folha
de pagamento. Quando contrata um funcionário, para cada 100
reais de salário, a empresa precisa recolher 110 reais em
tributos. Além disso, as empresas que agem corretamente ainda
se vêem obrigadas a custear mais 40 reais na forma de benefícios
sociais, como plano de saúde, vale-transporte e previdência
privada. É um duplo pagamento. Um feito ao governo para custear
benefícios. E o segundo, para pagar benefícios que
são responsabilidade do Estado mas que nunca se materializam.
A competição fica ainda mais desigual quando se sabe
que algo perto de um quarto do dinheiro em circulação
no país não sofre tributação, a não
ser a CPMF. São aqueles setores da economia que trabalham
na "informalidade", eufemismo para sonegação, se não
para ilegalidade. Há empresas vivendo no limbo em todo o
território nacional, que, além da sonegação,
namoram o contrabando e a pirataria. Como seus custos são
frações daqueles das empresas corretas, elas inviabilizam
a competição, a base do capitalismo e, em última
análise, da democracia. Essa distorção resiste
à ação das autoridades. Raramente, ou nunca,
essa questão aparece nas grandes discussões nacionais.
No passado, as grandes companhias mantinham departamentos financeiros
monstruosos que não olhavam para a produção.
Apenas operavam como bancos como forma de aumentar os ganhos da
firma no overnight. Com o fim da inflação, cresceram
as equipes que controlam os juros e os impostos. Grupos empresariais
com escritórios e lojas em vários Estados convivem
com legislações variadas e alíquotas distintas.
O ICMS, tributo estadual cobrado sobre a circulação
de mercadorias, é motivo de piada entre os técnicos
do Fundo Monetário Internacional que cuidam do Brasil. Em
nenhum lugar do mundo o tributo mais importante é regido
por 27 leis uma para cada Estado.
A pedido da Federação das Indústrias do Estado
de São Paulo, a Fundação Getúlio Vargas
do Rio de Janeiro fez um estudo no ano passado a respeito do peso
de alguns impostos sobre o produto acabado. Foram pesquisados trinta
setores e se descobriu que a cascata de tributos formada por PIS/Pasep,
Cofins e CPMF encarece os produtos em quase 10% em média.
Quem exporta no Brasil enfrenta um conjunto de regras, paga incontáveis
taxas e ainda depende de uma logística complicadíssima.
Em Manaus, por exemplo, em função da burocracia estatal,
o tempo gasto entre o pedido e a chegada de matéria-prima
importada a uma fábrica de produtos eletrônicos pode
ser de doze dias. No México, o mesmo pedido é liberado
para a fábrica em até seis horas. Esse efeito cascata
é hoje o maior entrave à produção e
à competição internacional e precisa ser revisto
em profundidade.
Infelizmente, não será desta vez, pelo menos de acordo
com o texto atual da reforma tributária em discussão
no Congresso Nacional. Na semana passada, um grupo de empresários
ligados à Confederação Nacional da Indústria
(CNI) visitou o Congresso para discutir a criação
de um sistema de travas que evite que a carga tributária
cresça. De acordo com um levantamento preparado pela entidade,
há pelo menos sete pontos de fragilidade na reforma, em que
até por medida provisória os governantes poderiam
aumentar alíquotas de um dia para o outro. Recentemente,
a CNI encomendou uma pesquisa com 1.381 empresários a respeito
do assunto. Ela mostra o desânimo da categoria encarregada
de retomar o crescimento econômico e fazer o Brasil crescer.
Pediu-se aos empresários que apontassem as falhas do sistema
tributário nacional. Foram listados dez grandes defeitos,
entre os quais a burocracia, o tratamento desigual dado a brasileiros
e estrangeiros, o grande número de tributos, a cumulatividade,
os prazos exíguos para recolhimento de alguns tributos.
Entre os políticos oriundos da esquerda, reina a convicção
de que imposto mais baixo é pleito de quem deseja aumentar
as margens de lucro. Não é o caso. A experiência
internacional mostra que quando caem os impostos sobre a produção
os preços também baixam. E quando os preços
baixam o poder de compra das pessoas aumenta, elevando-se junto
a capacidade de poupança interna olha ela aí
novamente. O sistema tributário nacional é o fator
mais importante quando se calcula o chamado "custo Brasil". O custo
de um país é uma espécie de radiação
de fundo. É a temperatura média do ambiente empresarial.
Se ela for muito alta ou muito baixa, inibe e até inviabiliza
a atividade capitalista. Por muitos critérios, o Brasil já
chegou a esse ponto de desestímulo, ocasionando um ambiente
hostil à criação e sobrevivência das
empresas.
O
desastre econômico foi tão grande que a Constituição
brasileira, que tem 245 artigos, já recebeu quarenta emendas
constitucionais, boa parte delas para corrigir o pecado original
da gastança sem fonte de receita e o engessamento da economia.
Agora, com um novo governo, com uma equipe econômica sintonizada
com as práticas mais atualizadas de gestão das finanças
públicas, existe uma chance grande de atacar os problemas
que incham o "custo Brasil". Existe uma chance de que a fera que
se instalou na sala da casa de milhões de brasileiros e de
milhares de empresas possa se transformar em um monstro menos assustador.
Nos últimos anos, o governo tem feito um bom trabalho para
contornar os defeitos macroeconômicos do país. Privatizou
estatais, iniciou o processo de abertura da economia, criou as agências
reguladoras, aprovou a Lei de Responsabilidade Fiscal e interrompeu
o processo de aventuras heterodoxas. Eleito sob uma nuvem de dúvidas,
Lula surpreendeu os analistas. Indicou Henrique Meirelles para o
Banco Central e nomeou Antonio Palocci para a Fazenda. Os dois orientaram
o debate para as discussões certas. Subiram os juros quando
foi preciso e souberam baixá-los quando possível.
Esse comportamento teria sido um achado raro na década de
80, algo capaz de fazer do Brasil uma Suíça nos trópicos.
Nos anos 90, essas medidas não eram mais consideradas avanços,
mas sim obrigatórias. Agora, neste começo de milênio,
elas são imprescindíveis, porém insuficientes.
Aplicadas, livram os países de defeitos paralisantes sem,
no entanto, sinalizar virtudes. A idéia mais atraente que
circula pela corrente de pensamento econômico de ponta é
a expressa pelo economista americano Douglass North, da Hoover Institution.
North sustenta que o único papel relevante dos governos atualmente
é definir e manter um ambiente propício ao crescimento
econômico em seus países. Isso significa ter um governo
barato e altamente benéfico. Em termos práticos, o
moderno papel dos governantes consiste em fazer passar e aplicar
leis de qualidade, respeitar e fazer respeitar os contratos, diminuir
o custo da mão-de-obra e regular a economia. "Desde Adam
Smith se acredita que a regulação dos governos se
resume em evitar monopólios e outros abusos. Ela vai muito
além disso. Regulando e estabilizando a vida econômica,
evitando sustos, crises e minimizando a necessidade de recorrer
ao Poder Judiciário, os governos podem potencializar seu
poder de fomentar a prosperidade e o crescimento econômico",
escreveu North. Nos países desenvolvidos, as teorias de North
são quase leis não escritas. Há uma razão
econômica vital para que seja assim. O capitalismo, principalmente
nos Estados Unidos, vive um momento de enormes ganhos de produtividade.
Segundo cálculo do economista brasileiro José Alexandre
Scheinkman, a produtividade da economia americana atingiu um ponto
tal que, para começar a gerar novos empregos, precisa crescer
mais de 4% ao ano. Antes disso, todo o crescimento é produzido
apenas pelo azeitamento da máquina empresarial e institucional.
O corolário dessa realidade é que se vive atualmente
no mundo um capitalismo de "margens declinantes" ou seja,
o lucro das empresas tende a ser menor a cada ano. Em alguns setores,
especialmente o financeiro, as margens de lucro em cada transação
estão se tornando mais e mais rarefeitas em um ritmo maior
do que nos setores industrial e comercial. Por essa razão,
por mais atraente que pareça socialmente taxar o sistema
financeiro, isso pode ser um tiro no pé no Brasil, especialmente
quando e se os bancos perderem seu grande tomador de crédito
o governo.
A situação já seria grave demais se o Brasil
fosse uma ilha, um país de economia fechada, blindado aos
estímulos e também às crises externas. Como
a economia brasileira é hoje uma das mais porosas do mundo
ao ambiente externo, baixar o "custo Brasil" é um imperativo.
Deveria ser prioridade em todos os níveis de administração.
É uma questão de vida ou morte para setores inteiros
da economia e uma decisão que vai influir de modo categórico
no tipo de país que a atual geração de brasileiros
deixará para seus filhos. Quando os constituintes de 1988
resolveram que o mais adequado para o país era um Estado
assistencialista, cujas boas ações não precisavam
de uma fonte de financiamento conhecida, estavam com a cabeça
voltada para o passado, dispostos a enterrar o período militar
que os precedeu no poder. Estavam "enlouquecidos de esperança",
para usar a expressão com que o falecido presidente Tancredo
Neves descreveu Tiradentes. Nesse estado de elevação
de espírito político, os constituintes acabaram produzindo
um país de economia louca. É hora de mudar.
Com
reportagem de Lucila Soares, Malu Gaspar,
Monica Weinberg e Sandra Brasil
|