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Entrevista:
Maurício Corrêa
Choque de poderes
O
presidente do Supremo Tribunal Federal
fala da morosidade da Justiça e investe
contra Lula, Palocci e José Dirceu

Eduardo
Oinegue
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Ana Araujo

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"Lula
deve ao país e a seus eleitores uma explicação mais
honesta a respeito da agenda adotada"
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Na
semana passada, o Supremo Tribunal Federal dedicava-se a uma discussão
de alta complexidade e significado. Com base no pedido de habeas-corpus
de um gaúcho condenado por racismo contra os judeus, os ministros
discutiram genética, história, religião e preconceito.
A votação sobre o tema foi interrompida e deve ser
retomada nos próximos dias. Até o momento, vence a
tese de que judeu não é raça, mas pode ser
vítima de racismo. Quem defendeu esse ponto de vista foi
o presidente do STF, Maurício Corrêa, 69 anos.
Debates
de qualidade como esse não acontecem com freqüência
na alta corte. Os ministros em geral se dedicam a casos menos expressivos
recebidos aos milhares. Em seu gabinete na presidência
do STF, Corrêa recebeu VEJA para uma entrevista. Falou do
trabalho dos juízes e criticou duramente o governo Lula.
Estava incomodado com certas atitudes do Planalto, uma delas ligada
à reforma agrária. "As declarações do
presidente ainda são modestas nesse campo", afirma. "Ele
deveria dizer que é crime invadir propriedade."
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Como pode existir racismo sem haver raça?
Corrêa O caso envolve um gaúcho que editou
livros de conteúdo nazista, um deles negando o holocausto.
Processado pela comunidade judaica local, acabou condenado por racismo.
Seus advogados entraram com pedido de habeas-corpus, que chegou
ao STF. Moreira Alves, um dos mais eminentes magistrados dessa casa,
deu voto a favor da concessão do habeas-corpus. Argumentou
que judeu não é raça, e sem raça não
há racismo.
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Essa é a tese derrotada até o momento, certo?
Corrêa Se nada mudar, sim. A tese vencedora,
que defendo, nega o habeas-corpus. Judeu não é raça
mesmo, como afirma Moreira Alves, mas ele pode ser vítima
de racismo. A ciência provou que não existem as raças
no sentido antropológico, aquelas que a gente aprendia na
escola: raça branca, negra e amarela. A partir da abertura
do genoma humano demonstrou-se que os seres vivos têm origem
similaríssima, sejam eles vermes, vírus, camundongos
ou o ser humano. Provou-se que pode haver mais semelhanças
genéticas entre um ariano e um negro zulu do que entre dois
arianos. Como o espírito da Constituição era
evitar o racismo no sentido de preconceito, pode-se condenar toda
manifestação preconceituosa e discriminatória
contra um grupamento que se possa identificar por laços culturais
ou físicos. Estamos vivenciando um julgamento histórico.
Pena que essa não seja a rotina do nosso tribunal.
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A rotina é mais burocrática que intelectual?
Corrêa A lei delegou ao Supremo incontáveis
competências. Julgar as chamadas cartas rogatórias
é uma delas. As cartas rogatórias são documentos
que os ministros do STF precisam assinar quando uma pessoa que mora
no exterior deseja citar alguém no Brasil. É burocracia,
e toma tempo. Tem dia que assino centenas de despachos desse tipo.
E a homologação de sentença estrangeira? O
sujeito se divorcia na Tasmânia e quer validar o documento
no Brasil. Cabe aos ministros do STF cuidar disso. A sentença
estrangeira pode ser contestada ou não. Se for contestada,
elege-se um relator no tribunal e o caso vai a julgamento. É
por essas e outras que a Justiça acaba ficando morosa.
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O senhor se sente confortável presidindo um poder
que é lento e parece sustentar a impunidade?
Corrêa Quando eu era um jovem advogado, fui procurado
por um cidadão humilde que movia uma ação na
Justiça havia mais de trinta anos. Seu pleito: "Doutor Maurício,
gostaria que o senhor pedisse ao juiz que decidisse logo o meu caso.
Estou morrendo e gostaria de ver a decisão julgada antes
de ir". A Justiça já funcionava de forma lenta naquele
tempo. Agora, as coisas só pioraram e nada mudará
enquanto não operarmos uma faxina na legislação.
Chega de discussões laterais.
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Que discussões laterais?
Corrêa A reforma do Poder Judiciário é
uma delas. Existe uma proposta de emenda constitucional no Senado
que visa a reorganizar a estrutura dos tribunais. Até o Ministério
da Justiça criou uma secretaria da reforma do Poder Judiciário,
tão útil quanto montarmos no STF uma secretaria da
reforma do Poder Executivo. A reforma do Judiciário está
para a agilização da Justiça assim como a reforma
ministerial está para a diminuição das desigualdades
sociais. Precisamos reorganizar as leis, não as pessoas.
Em nada contribui a declaração do presidente Lula
falando em caixa-preta do Judiciário. Não existe caixa-preta.
Estamos com nossas vísceras expostas. O Judiciário
tem diversos defeitos, como a juizite, doença que acomete
principalmente os magistrados mais novos. Eles chegam cheios de
vontade, achando-se super-homens. Muitas vezes tomam decisões
exóticas, que acabam reformadas. Só que os males permanecerão
imutáveis se não mexermos nos códigos que orientam
o trabalho dos juízes. Algumas de nossas leis mofaram e precisamos
jogá-las fora antes que embolorem a sociedade. Precisamos
conter a legiferação dos governantes, que depois se
tornam ações cobrando do Estado reparação
de danos. Também não podemos conviver com um sistema
processual que dá aos advogados o direito de optar por uma
infinidade de recursos procrastinatórios, como agravo regimental,
agravo de instrumento, embargo declaratório, embargo infringente,
instrumentos que favorecem em geral os mais ricos.
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A Justiça trata mesmo pobres e ricos de maneira
diferente?
Corrêa A Justiça é boa para os ricos.
Você já escutou algum pobre falando "eu vou até
o Supremo Tribunal Federal, mas não me curvarei a esta arbitrariedade"?
O cidadão mais modesto não sabe da existência
do Supremo, não sabe quais são seus direitos. Imagine
o seguinte: um caminhão da prefeitura derruba o muro da casa
de uma pessoa humilde. Se ela recorrer à Justiça para
pedir reparação, a fase inicial do périplo
é o "processo de conhecimento". O juiz analisa o caso, as
partes contestam e o juiz lavra a chamada "sentença de conhecimento".
O camarada vai ser então indenizado pela prefeitura? Não.
O dinheiro só sairá se ele entrar com outro processo,
o "processo de execução", e aí a batalha recomeça,
inclusive com a convocação de peritos. Quando o infeliz
for receber seu dinheiro, já se passaram dez anos. Mas isso
não é o pior.
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Há algo pior?
Corrêa O pior é que, enquanto as mudanças
não saem, o cidadão fica com suas ações
paradas e o Judiciário amarga o descrédito. Detectar
o problema certo é o começo da solução.
Acusar os outros de manter uma caixa-preta só aumenta a confusão
e estimula a reciprocidade. Eu, por exemplo, teria comentários
a fazer sobre o funcionamento da Esplanada dos Ministérios.
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Quais comentários?
Corrêa Não sei se deveria meter a minha
colher nisso, mas o governo tem dois pólos que atuam como
czares. Um é Antonio Palocci, da Fazenda, o outro é
José Dirceu. O presidente Lula flutua no meio dos dois, viajando
para o exterior mais do que Fernando Henrique Cardoso e fazendo
discursos Brasil afora, modulando o tom de acordo com os locais
onde está. Fica ali naquela peroração, do ponto
de vista aristotélico, peripateticamente no palco, indo para
lá e para cá, e, do ponto de vista figurado da exacerbação
da linguagem, cometendo certos impropérios que depois precisam
ser corrigidos pela habilidade de José Dirceu. Os outros
ministros apenas gravitam em torno dessas órbitas. O centralismo
está tão acentuado que tudo no campo político
depende da Casa Civil. No dia 11 de junho, o presidente baixou o
decreto nº 4 734 delegando ao ministro Dirceu o poder de prover
todos os cargos de confiança do governo, os chamados DAS.
Fico pensando se talvez não esteja aí certa reminiscência
"concentratória" do tipo stalinista, que ainda continua presidindo
o subconsciente dos tempos passados. Com todo esse poder, e não
falo aqui da doçura dispensada pela amabilidade externa do
Zé Dirceu, a verdade é que ele não tem tempo
sequer para dar maior atenção pelo menos àqueles
que detêm algum cargo de relevância na República.
Isso não é bom nem para o presidente da República,
muito menos para o povo.
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O senhor não está exagerando?
Corrêa Olhe só o que aconteceu com a deputada
Maninha, do PT de Brasília, que se absteve de acompanhar
a orientação do governo em alguns pontos da reforma
da Previdência. Ela foi apenada com a exoneração
de seu marido, Antônio Carlos de Andrade, da Funasa.
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A sua avaliação sobre o governo Lula é
tão negativa assim?
Corrêa Lula deve ao país e aos seus eleitores
uma explicação mais honesta a respeito da agenda adotada.
Será que ele fazia aqueles discursos durante a campanha para
alcançar o poder e depois mudar de opinião ou foi
a realidade do poder que o transformou? Prefiro imaginar que ele
usou o discurso para chegar aonde chegou e, ao chegar, está
aplicando a mesma agenda política e econômica adotada
por Fernando Henrique. E para fazer isso conta com uma aliança
de partidos que misturou tendências de toda natureza.
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O senhor tem reparos também à aliança
que o presidente montou para se eleger?
Corrêa Construiu-se algo que nunca vi nesta República,
nem na época da ditadura, uma base parlamentar feita por
meio de manipulações políticas, de arranjos
que envolvem partidos de toda natureza. Quem poderia imaginar que
o PT pudesse organizar essa agenda parlamentar englobando num só
cadinho partidos de várias tendências ideológicas
como o PL e o PMDB? Acho até que Lula percebeu os escorregões
e está num trabalho para recuperar sua imagem. Não
posso admitir que a longa entrevista que o presidente deu ao programa
Fantástico, da Rede Globo, não seja uma forma
de marketing.
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A revista VEJA também entrevistou o presidente
e o colocou na capa. Se o senhor fosse editor do Fantástico
ou de VEJA não faria o mesmo?
Corrêa Meu ponto é que o presidente não
é mais a mesma pessoa que se apresentou na campanha. A gente
vê pela elegância dele em se vestir, pela forma de pentear
o cabelo, suas gravatas e seu modo de agir. O poder é algo
contagiante. O presidente tem uma origem humilde. É um operário
que chegou ao poder. Isso é lindo, mas alguém que
tem helicóptero e jato à disposição,
que desce onde quiser, tem aquela criadagem toda, até aquelas
mulheres bonitas que vão lá visitá-lo, pode
mudar de comportamento. Isso tudo encanta.
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O senhor está sugerindo que a Presidência
da República só deveria ser entregue a aristocratas
e pessoas acostumadas a jatos, helicópteros e palácios?
Corrêa Não foi minha intenção.
Quero apenas sugerir ao presidente que reflita sobre o tema. Servi
a um presidente de origem modesta que não se deslumbrou.
Itamar Franco não mudou ao tomar posse.
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Mas foi ele, não o presidente Lula, quem apareceu
numa fotografia patética feita no Sambódromo ao lado
da modelo sem calcinha.
Corrêa Olha, Itamar era e é solteiro. Tem
lá direito às suas opções. E ninguém
tira da minha cabeça que aquela cena foi armada. O Brizola,
que é meu amigo, me telefonou naqueles dias e disse: "Fala
para o Itamar não vir". Cheguei a comentar com o presidente,
que desistiu da viagem num primeiro momento, mas depois mudou de
idéia e me convocou para ir junto. No camarote, acabei bebendo
um uisquezinho misturado com cerveja, coisa que nunca aconteceu
na minha vida, e daquele momento em diante passei a ser tido como
um inveterado bebedor.
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O senhor tem fama de ser um bom copo. Sabia?
Corrêa Não sou. A fama é criada por
um equívoco. Naquele Carnaval infeliz misturei bebidas. Acabei
ficando um pouco alegre e me fotografaram com a mão na cintura
de uma moça, mas o ângulo dá a impressão
de que estava com a mão nas nádegas dela. O que não
é verdade.
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O episódio lhe causou aborrecimentos?
Corrêa Eles seriam maiores se o presidente
não tivesse aparecido nas fotografias ao lado da modelo.
Mas foi chato, sim. Em casa, minha mulher ficou chateada. Que mulher
não ficaria?
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A Constituição preconiza que todos são
iguais perante a lei. Por que o senhor pleiteou para a sua categoria
privilégios na aposentadoria que os demais brasileiros não
têm?
Corrêa Não pleiteei privilégios.
Apenas defendi direitos adquiridos na própria Constituição.
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A palavra "direito" parece associada a uma vantagem coletiva
e "privilégio" a garantias criadas para beneficiar um grupo
reduzido de pessoas, caso das aposentadorias dos senhores juízes.
Corrêa Os magistrados apenas pediram tratamento
semelhante ao dos militares. Por que ninguém chiou com os
militares?
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Não seria por que os juízes, entre outras
ameaças, falaram em fazer greve?
Corrêa Greve contra a qual me insurgi, diga-se,
e que acabou cancelada. Sejamos claros com relação
a esse ponto. Um executivo bem-sucedido na iniciativa privada recebe
um salário compatível com seu grau de responsabilidade,
e ninguém acha isso estranho. Mas, quando o juiz recebe aposentadoria
mais alta que a de outra categoria profissional, surgem os protestos.
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O salário remunera a produção. A
aposentadoria subsidia o ócio. Por que o senhor quer transferir
para a Previdência a tarefa de compensar um desequilíbrio
salarial dos magistrados?
Corrêa Não há legislação
separando o salário do juiz da ativa e o de seu colega aposentado.
E o governo propôs a redução dos proventos dos
aposentados. O próprio presidente da República deu
declarações sugerindo um paralelo entre a realidade
dos magistrados e a de um cortador de cana, que fica horas e horas
sob o sol e recebe ao final da vida apenas o equivalente a um salário
mínimo de provento. Por favor. Sejamos justos.
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Qual é a injustiça embutida na comparação?
Corrêa Nossa formação e responsabilidade
não pode ser comparada à de um cortador de cana, profissional
que merece todo o meu respeito. Vida sofrida não é
currículo que habilite alguém a ser ministro do Supremo
Tribunal Federal ou presidente da República. Os juízes
tratam da liberdade, da preservação do direito à
vida digna e do patrimônio das pessoas e do Estado em ações
que muitas vezes envolvem milhões ou bilhões de reais
e seu comportamento deve ser irreprochável. Daí por
que ele deve ter assegurada uma aposentadoria condigna com o papel
que desenvolveu. Para que, durante o período em que ele trabalhou,
não seja tentado a praticar determinadas ações
não recomendadas. Estamos tratando de uma categoria extremamente
dedicada ao trabalho. Já fui advogado, parlamentar e ministro
de Estado. Nunca trabalhei tanto na minha vida como agora.
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