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Em
foco: Gustavo Franco
Um
pacote como
todos os outros
"O
processo de reforma tributária começou sem termos
de referência claros, sem plano
de vôo nem filosofia, adquiriu dinâmica própria,
virou um imperativo político e perdeu a
racionalidade econômica"
Se o leitor
quiser saber qual a lógica, ou qual o projeto ordenador, do
imenso aglomerado heterogêneo de temas e problemas em que se
tornou a reforma tributária, acho que não vai ser fácil
encontrar uma resposta. A única coisa sobre a qual existe absoluta
clareza é que União, Estados e municípios querem
aumentar suas despesas, e querem muito. Vamos ter eleições,
os limites de endividamento estão estourados, não há
recursos para novos investimentos e os políticos legitimamente
eleitos querem dinheiro para cumprir suas promessas.
Ilustração Ale Setti
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Pode não parecer, mas esta situação é
nova: no passado, a falta de dinheiro era resolvida com a fabricação
de papel-moeda e "tributação" do pobre via inflação.
Mas, quando esse "imposto" foi abolido, a solução
para a incontinência gastadora passou a ser a dívida
pública, que nada mais é que imposto no futuro. Esgotada
essa possibilidade, o governo (tal como o anterior) viu-se, afinal,
de frente para o problema de equilibrar suas contas usando impostos
no presente.
O
encaminhamento meio atropelado e improvisado da reforma tributária
está obscurecendo a natureza e a importância deste
momento histórico. Até pouco tempo atrás o
governo negava, mas hoje admite, ainda que pela metade, que pretende
uma elevação da carga tributária. Seria hipócrita
se não o fizesse, tendo em vista o que pretende realizar
(gastar).
A
sociedade já aprendeu o que é responsabilidade fiscal
e agora deve decidir com clareza, através de seus congressistas,
se quer pagar mais impostos para que os políticos tenham
mais recursos, ou se vai querer que o governo reduza, ou ao menos
não aumente, suas atividades e despesas.
Se
a discussão sobre a reforma tributária tivesse sido
ampla, e nem passou perto disso, teríamos assistido a um
debate organizado sobre o tamanho e a natureza do Estado, e teríamos
um projeto ou uma filosofia a nortear o redesenho do sistema tributário
e da estrutura de gastos públicos. Como não houve
nada disso, a agenda da reforma tributária ficou aberta,
entraram dezenas de pequenas e importantes mudanças, conforme
os ventos da política e o que havia nas gavetas da burocracia,
como nos pacotes tributários de fim de ano.
Se
o conteúdo "esquerdista" da reforma tem a ver com os impostos
sobre patrimônio ditos "progressivos" impostos sobre
embarcações e aeronaves (IPVA), sobre terras (ITR),
heranças, doações, grandes fortunas ,
vamos assistir ao sacrifício inútil de mais uma virgem:
essas iniciativas redentoras não têm efeito prático,
pois geram pouca receita, muita atividade para advogados tributaristas
e insegurança em proprietários de capital, gente que
não deveria estar sendo punida.
Aumento
de imposto de verdade vai acontecer em todas as instâncias
onde se ouve que a mudança vai ser "neutra": um novo imposto
sobre faturamento para substituir os encargos sobre a folha de pagamento,
elevação de alíquotas (do PIS e Cofins, por
exemplo) para compensar a não-cumulatividade, redução
no número de alíquotas do ICMS para "simplificar"
o sistema, desoneração da cesta básica com
oneração do resto. A experiência mostra que,
em assuntos tributários, o governo sempre troca seis por
uma dúzia.
Aumento
de despesa para valer acontece onde há "fundos de compensação"
pela desoneração das exportações ou
pelo fim da "guerra fiscal", e principalmente em novas vinculações
ou partilhas de tributos com Estados e municípios, que já
abocanharam um naco da Cide (que incide, sem trocadilho nem clemência,
sobre a gasolina) e pretendem também um tasco da CPMF. É
um absoluto contra-senso que, para renovar a DRU (mecanismo que
desobriga a União de transferir dinheiro aos Estados), o
governo tenha de entregar aos Estados justamente a obrigação
de transferir porcentuais de certo imposto.
Resumo
da ópera: o processo de reforma tributária começou
sem termos de referência claros, sem plano de vôo nem
filosofia, e agora adquiriu dinâmica própria, virou
um imperativo político e perdeu a racionalidade econômica.
Por muito menos do que isso o governo anterior abortou o processo
para evitar um mal maior.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco
Central (gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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