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Carta
ao leitor
Cara
e ineficiente
VEJA
publica nesta edição uma reportagem que analisa a
deformação básica do Estado brasileiro, a de
cobrar muito caro da sociedade em troca da oferta de serviços
públicos de péssima qualidade. Na semana passada,
um dos poucos centros de excelência médica pública
no Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (Inca), parou em
protesto contra o preenchimento político de cargos técnicos
por parte do PT. Exemplos de injunções deletérias
como essa são parte da história brasileira e, em graus
variados, se fazem sentir em todo o país. Como se sabe, o
governo absorve em impostos quase 40% de toda a riqueza produzida
pelos brasileiros. Cada chefe de família trabalha quatro
meses por ano apenas para satisfazer a voracidade tributária
dos cofres públicos. Além disso, com uma dívida
pública entre as maiores do mundo, o Estado brasileiro precisa
de quase todo o crédito bancário disponível
no país para rolar seus papéis. Sobram para a clientela
dos bancos apenas 23% do total do dinheiro destinado a empréstimos
no sistema financeiro. Essa é uma realidade conhecida. Com
efeitos desastrosos sobre a vida econômica e social do país.
A presente edição de VEJA é uma contribuição
à tarefa indispensável de refletir sobre as entranhas
dessa máquina cara e ineficiente.
Atacar as raízes dessa distorção deveria ser
a prioridade dos governantes de todos os níveis, do presidente
da República aos prefeitos. Sem que o Estado aprenda a fazer
mais com menos recursos, sem que Brasília descubra meios
de não onerar tanto os cidadãos e as empresas, o país
continuará com uma economia de desempenho medíocre
e vulnerável a choques. Não são mudanças
fáceis. Levantamento recente da Universidade de Chicago,
nos Estados Unidos, mostrou que nos últimos cinqüenta
anos na maioria dos países os gastos governamentais cresceram
sempre acima da variação do PIB. Muitos deles, porém,
foram bem-sucedidos em gastar dinheiro público com mais justiça.
A Inglaterra destina na forma de serviços aos cidadãos
mais ricos apenas 1 de cada 12 libras que eles mesmos pagam de impostos.
No Brasil, a situação é iníqua: os mais
ricos recebem de volta em subsídios, serviços, isenções
e gratuidades 1 de cada 2 reais pagos de imposto. Cedo ou tarde,
o governo do PT terá de enfrentar o desafio de racionalizar
as relações do Estado com a sociedade. Melhor começar
cedo.
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