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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Leoa
de um lado, gata distraída do outro
Depoimento
da mulher de Marcos Valério representou vitória
estrondosa da família sobre o Estado Imagine-se
o leitor, ou a leitora, morador(a) do exclusivo condomínio Retiro do Chalé,
ao sul de Belo Horizonte, perto da casa onde mora a senhora Renilda Santiago Fernandes
de Souza. Que sorte contar com uma vizinha como essa. A aparência, os modos,
a fala, não deixam dúvida é uma pessoa em quem se
pode confiar. É o tipo de pessoa a que se pode recorrer de olhos fechados,
se um dia surgir o problema de ter de deixar as crianças com alguém.
Renilda é a mulher do hoje célebre
Marcos Valério Fernandes de Souza, e não há nenhuma ironia
no que acima se disse dela. Seu depoimento na CPI dos Correios, na semana passada,
não deixou dúvidas de que é uma dona-de-casa, mãe
e esposa exemplares. Também não há razão para supor
que o marido seja menos prestimoso nos assuntos privados. Agora, vá o leitor,
ou leitora, entregar uma prefeitura ao casal, um governo de estado, um ministério...
No governo da casa e da vida íntima, pode haver igual, como disse outro
dia de si próprio o presidente Lula, sobre o respeito aos mandamentos da
ética, mas melhor impossível. Já quando se dá à
dupla a chave do Erário... A apresentação
da senhora Marcos Valério foi, de longe, o que de melhor ofereceu, até
agora, a CPI. E não apenas pelo que ela declarou ou deixou de declarar
sobre o caso em si ora em investigação. Aquela senhora bonita e
de fino trato, fortíssima por um lado e frágil de se desmanchar
em lágrimas por outro, proporcionou-nos uma aula de Brasil ao pôr
diante dos olhos do público um embate velho como o país o
da família contra o Estado. Terça-feira passada foi o dia em que,
por artes de Renilda, essas duas entidades se defrontaram ao vivo pela TV, direto
da sala da CPI, com resultados consagradores para a família e humilhantes
para o Estado. O Estado, ao contrário,
mais uma vez, do que pensa o presidente Lula, não é uma extensão
da família. O presidente gosta de posar de pai dos brasileiros e de comparar
o andamento do governo a uma criança que aprende a andar, depois vai à
escola etc. É má pedagogia. No clássico Raízes
do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda ensina que Estado e família
pertencem a "ordens diferentes em essência". Só pela "transgressão
da ordem doméstica e familiar" vale dizer, em complemento ao mestre,
pela superação do universo dominantemente afetivo, particularista
e egoísta que é o da família "é que nasce o
Estado". O simples indivíduo torna-se então "cidadão, contribuinte,
eleitor, elegível, recrutável e responsável perante as leis
da cidade". Há nessa transformação, conclui o autor, com
a habitual e elegante clareza, "um triunfo do geral sobre o particular, do intelectual
sobre o material, do abstrato sobre o corpóreo".
Que dificuldade, no Brasil, em distinguir uma ordem da outra. Quando o indivíduo
entra na órbita da administração do Estado, seja por eleição,
nomeação, apadrinhamento ou mesmo pela simples relação
de amigo do amigo caso de Marcos Valério , nada é mais
comum do que arrastar consigo os valores familistas do afeto, do particularismo
e do egoísmo. Na época dos escândalos de Collor, uma conhecida
senhora, dessas que são classificadas de "socialite", disse, em defesa
do caçador de marajás: "No momento em que você ocupa um cargo
que o favoreça de alguma forma, acho até um pouco de burrice não
aproveitar a situação". A frase, de comovente candura, tem como
corolário que, se você não "aproveita", estará prejudicando
a família. Quantos, aberta ou ocultamente, não partilhariam o mesmo
pensamento, por estes Brasis tão ardentes de amor familiar e tão
órfãos de respeito à esfera pública? É muito
fácil execrar "os políticos" e escandalizar-se com a corrupção.
Raro é examinar no mais recôndito da consciência como seria
o próprio comportamento caso se tivesse o Erário ao alcance da mão.
O que faz Renilda tão fascinante é
que ela não está sozinha. Ela representava, naquela cadeira da CPI,
tão vulnerável e ao mesmo tempo tão esperta, tão digna
de pena e tão digna de raiva, um tipo que brota com a fartura do chuchu,
por estes solos, em especial entre as pessoas de sua classe social. Renilda se
disse "um pouco leoa" quando se trata de defender a família. Exibiu avassaladora
devoção aos filhos e ao marido. E disse que proibia terminantemente
encontros políticos ou de negócios no sagrado recesso do lar. Quanto
ao vertiginoso crescimento de sua conta bancária, do patrimônio familiar
e de seu nível de vida, coincidindo com a entrada em cheio do marido no
mundo da política, ela nem reparou. Não podia ser mais agudo o contraste
entre a atenção da leoa do lar quando o que está em jogo
é o bem-estar dos seus e a desatenção de gata preguiçosa
com respeito aos meios pelos quais o marido lhe ia aumentando os luxos. A ética,
para Renilda e para as Renildas, a multidão de Renildas e Renildos
que no Brasil garantem a vitória permanente da roubalheira e do atraso
, é um valor tão sagrado que, assim como o afeto, a confiança
e o respeito, deve ser reservado única e exclusivamente à família.
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