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Brasil Aonde
Dirceu vai... ...Bob vai atrás
Documento em poder da CPI mostra que ajudante e amigo do ex-chefe da Casa
Civil foi autorizado por Marcos Valério a sacar 50 000 reais no
Rural  Julia
Duailibi e Victor Martino Ernesto
Rodrigues/AE
 | DÚVIDA
O que será que o ajudante Bob Marques carregava na mala da foto? Documentos, autorizações
de saque, fotos de Fidel Castro, as cuecas de José Dirceu? Os dois, segundo Bob,
são amigos há mais de vinte anos |
Não foi só o depoimento de Renilda Santiago que colocou o ex-ministro
José Dirceu no epicentro do escândalo do mensalão. Um documento,
apreendido pela Polícia Federal na agência do Banco Rural em Belo
Horizonte, revela que, entre as pessoas autorizadas a sacar dinheiro das contas
do publicitário Marcos Valério, estava um dos principais ajudantes
de Dirceu, Roberto Marques, conhecido como "Bob", que cuida da agenda e das contas
do ex-chefe da Casa Civil. A descoberta surpreendeu a bancada petista na CPI dos
Correios e provocou frisson entre os oposicionistas, que vêem no documento
em poder da comissão o mais forte indício até agora da ligação
de Dirceu com o esquema irregular de arrecadação de fundos. O documento,
um fax com papel timbrado do Banco Rural, foi enviado à agência de
São Paulo no dia 15 de junho do ano passado. Nele, um funcionário
da agência mineira encaminha ao colega da Avenida Paulista uma autorização
para o "sr. Roberto Marques receber a quantia de 50.000, referente ao cheque 414270,
da empresa SMPB Comunicação". Clique
nos documentos para ampliá-los |  |  |
Os membros da CPI já sabem que, apesar da autorização dada
ao ajudante de Dirceu, o saque foi feito no dia seguinte por Luiz Carlos Mazano,
contador da corretora Bonus-Banval, que também estava autorizado a realizá-lo.
A corretora informou que realmente tem um funcionário com esse nome, mas
que o saque teria sido feito por um homônimo. O advogado da corretora, Antônio
Sérgio Pitombo, vê armação. "Quando se associa o homônimo
à corretora, o que se quer é agir de má-fé e desviar
o foco das investigações da CPI", diz. Não é a primeira
vez que o nome da Bonus-Banval aparece na investigação do escândalo
do mensalão. Em Brasília, as investigações identificaram
saques no valor de 225.000 reais cujo autor é Benoni Nascimento de Moura,
funcionário da Banval. A corretora diz que está realizando uma auditoria
interna para descobrir se houve alguma irregularidade cometida pelo funcionário
Benoni. Quanto a Roberto Marques, a Bonus-Banval diz que não conhece nem
nunca ouviu falar do ajudante de Dirceu. Pouco se sabe ainda sobre as atividades
da corretora paulista, exceto que ela empregou até o fim do ano passado
como estagiária Michele Janene, filha do deputado José Janene, suspeito
de ser um dos chefes do mensalão. Talvez um bônus do tipo banval.
O aparecimento de Roberto Marques
deve pautar os debates da CPI dos Correios, que vai ouvir nesta semana a diretora
financeira da SMPB, Simone Vasconcelos. Bob é uma espécie de secretário
particular de Dirceu. Faz as vezes de motorista, de despachante e de carregador
de bagagem. Funcionário da Assembléia Legislativa de São
Paulo, ninguém sabe direito o que ele é realmente só
que está sempre na companhia de Dirceu. Em muitas ocasiões, foi
visto circulando por gabinetes do Palácio do Planalto. Em março
deste ano, Bob, sob o comando de Dirceu, foi um dos mais ativos operadores na
campanha para a presidência da Assembléia Legislativa de São
Paulo. A parceria entre Bob e Dirceu é tão intensa que o assessor
chegou a representar oficialmente o então ministro da Casa Civil em solenidades,
como a organizada pela Associação para Prevenção e
Tratamento da Aids, realizada em 2003, em São Paulo. "Sou amigo do Zé
há vinte anos. Faço companhia a ele nos fins de semana e ajudo no
que for possível", afirma Bob. Dinheiro de Valério? Ele garante
que nada tem a ver com isso. É, segundo ele, coincidência ou armação.
"Só em São Paulo existem 5.000 pessoas com o mesmo nome", diz o
amigo-secretário de Dirceu. "Nunca estive no Rural, não saquei dinheiro
nenhum e se usaram meu nome foi indevidamente", garante ele. O problema é
que a CPI resolveu investigar e descobriu que a autorização foi,
sim, dada ao assessor legislativo, embora ele não tenha sido o autor do
saque. "Só pode ser então uma armação para complicar
a vida do Zé Dirceu", afirma. Esse Bob é mesmo esponja. R.
R. Rufino/Jornal de Londrina
 | OLHA
O JANENE AÍ, GENTE A filha do deputado
José Janene, líder do PP, trabalhou na mesma corretora do contador
Luiz Mazano, que teria sacado o dinheiro destinado a Bob pela SMPB |
A confirmação de que o Roberto Marques do documento do Rural é
o mesmo Bob ajudante de Dirceu foi dada a VEJA na última sexta-feira pelo
deputado Carlos Abicalil, do PT de Mato Grosso. Sub-relator da CPI dos Correios,
o parlamentar contou que foi procurado pelo próprio Marques na semana retrasada
para tentar esclarecer o aparecimento de seu nome nos documentos contábeis
do Banco Rural. Segundo o deputado, o assessor repassou o número de sua
identidade e de seu CPF, para que ele pudesse conferir com os documentos em poder
da CPI. O resultado da pesquisa, nas palavras do próprio deputado, foi
o seguinte: "O número do RG conferia. Só não conferia o saque",
diz. Dirceu sabia que o documento
com o nome do ajudante apareceria cedo ou tarde. O próprio Roberto Marques
contou ter conversado com o ex-ministro sobre o assunto muito antes de surgirem
os rumores de que o papel existia. "Eu disse que não tinha nada a ver com
isso." Desde o início da semana passada, Dirceu procurava insistentemente
falar com o presidente da CPI, o senador Delcidio Amaral. Na terça-feira,
Delcidio foi à casa do ex-ministro, onde passou meia hora. Os dois tiveram
uma conversa dura, segundo relatos ouvidos por membros da CPI. Oficialmente, discutiram
sobre o andamento dos trabalhos da comissão. O ex-ministro demonstrou grande
preocupação com a velocidade da investigação e, principalmente,
com o vazamento de documentos um estranho incômodo para quem, em
tese, nada tem a ver com o assunto. Dirceu também defendeu que seu depoimento
era desnecessário. Por fim, fez uma proposta indecorosa ao presidente da
CPI. Sugeriu a Delcidio que barganhasse seu depoimento em troca da não-convocação
do presidente do PSDB, Eduardo Azeredo, cujo nome também apareceu como
beneficiário do dinheiro de Marcos Valério. Delcidio desconversou.
Outros parlamentares afirmam que Dirceu queria sumir ainda com a autorização
de saque para Bob, sob a alegação de que era um papel avulso, sem
validade jurídica. Sobre o aparecimento do nome de seu secretário
particular, ajudante, amigo e, agora se sabe, pau para toda a obra, Dirceu mandou
dizer que tudo indica tratar-se de uma "plantação" para prejudicá-lo.
A convocação do ex-ministro para a CPI deverá ser aprovada
nesta semana. |