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Brasil Ele
assusta o governo No olho do furacão,
às vésperas de seu duelo com Roberto Jefferson, o ex-ministro
José Dirceu manda recados ameaçadores, inclusive a Lula, para
evitar que sua cabeça seja dada como prêmio à oposição
 Otávio
Cabral e Julia Duailibi
Alex
Ribeiro/Futura Press
 | ARQUIVO
VIVO Dirceu se arma com memória do governo
e da campanha para fugir à cassação desejada também
pelo Planalto | |
O
esquema clandestino de arrecadação de dinheiro e repasse a parlamentares
aliados do PT, que ficou conhecido como mensalão, ganhou na semana passada
um rosto de comando: o do ex-todo-poderoso ministro-chefe da Casa Civil, deputado
José Dirceu. Desde que estourou o escândalo de corrupção
no governo, em maio, o ex-ministro jurava desconhecer a estrutura milionária
montada por seus colegas petistas para comprar apoio político e financiar
campanhas eleitorais. Em depoimento à CPI dos Correios, Renilda Santiago
Fernandes de Souza, mulher do publicitário Marcos Valério, o operador
do esquema, disse que José Dirceu não só sabia de tudo como
ainda se reuniu com representantes dos bancos envolvidos no caso, Rural e BMG,
para tratar do assunto. Se confirmadas, as informações de Renilda
comprovam o que havia muito se suspeitava: José Dirceu era o mandachuva
do mais surpreendente escândalo de corrupção descoberto desde
o impeachment do presidente Fernando Collor. Depois da revelação,
a oposição e petistas importantes passaram a enxergar na cassação
do mandato do deputado a melhor alternativa para abreviar a crise. Disposição
que deverá aumentar com a revelação de que o sujeito que
cuidava da agenda e despesas pessoais do ex-ministro estava na lista dos sacadores
de uma conta da agência SMPB, de Marcos Valério, no Banco Rural (veja
reportagem). O problema é que José Dirceu avisou que não
vai aceitar assumir o papel de chefe de quadrilha e ameaça envolver
o presidente Lula.
Lula
Marques/Folha Imagem
 | AMOR
E ÓDIO Parceria abalada: de homem forte do
governo, Dirceu se distanciou de Lula, a quem acusa de ser traidor, desleal e
ciumento |
O ex-ministro
é um arquivo dos acontecimentos recentes da política brasileira.
Ele foi o responsável pela construção do PT nos moldes que
se conhece, promovendo a chefes figuras virtuosas como José Genoíno,
Delúbio Soares, Silvio Pereira e Marcelo Sereno.
Foi também o arquiteto da bem-sucedida campanha eleitoral de 2002, quando
conseguiu atrair empresários e costurar alianças com outros partidos.
Viu-se incumbido, ainda, da montagem do governo em todas as esferas, atendendo
a interesses políticos legítimos e também aos inconfessáveis.
Como chefe da Casa Civil, comandou a máquina administrativa e conhece como
ninguém as áreas de interesse. José Dirceu tem a memória
boa e a ruim do governo Lula. "Ele nunca dividiu com ninguém o mapa político
dos cargos na administração", conta um ministro. "Fiz tudo com o
conhecimento e o aval do presidente", repete Dirceu, dando a entender que, para
se salvar, não hesitará em chantagear o presidente Lula. Ana
Araujo
 | Fernando
Bizerra Jr../EFE
 | JOGADA
EM FAMÍLIA O casal Fernandes de Souza se
esqueceu de muita coisa, mas se lembrou de que Dirceu sabia do esquema |
Os recados enviados pelo ex-ministro são inequívocos. Peça-chave
no escândalo, o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares confessou ser
o responsável pela máquina clandestina de arrecadação
de recursos para campanhas políticas. Delúbio, enfatize-se, foi
transformado em dirigente do partido pelas mãos de José Dirceu.
Desde o início do governo, transitava livremente pelos principais gabinetes
de Brasília como se fosse autoridade. O ex-tesoureiro era visto com freqüência
no 4º andar do Palácio do Planalto, onde funciona a Casa Civil, e
chegou a integrar a comitiva presidencial em viagens ao exterior. Nos últimos
dias, porém, Dirceu tem dito a interlocutores que suas relações
com Delúbio não eram tão boas como se apregoa. Aliás,
seriam até muito ruins. "O Delúbio estava descolado, agindo por
conta própria, falando diretamente com o presidente", disse o ex-ministro.
O afastamento teria acontecido por divergências políticas. O ex-tesoureiro
queria ser candidato ao governo de Goiás, mas Dirceu considerava a idéia
imprópria. Delúbio, então, teria ido buscar apoio para a
empreitada com o presidente Lula, seu velho amigo. "Se forem conferir quem o Delúbio
visitou mais vezes no Palácio, vocês vão ver que o presidente
ganha de longe", diz uma assessora do ex-ministro.
O curioso é que, ainda assim, Delúbio fez questão de preservar
Dirceu em seu depoimento à CPI, dizendo que o ex-ministro não sabia
nadica de nada dos empréstimos bancários malandros contraídos
pelo PT e avalizados por Marcos Valério. Em outra demonstração
um tanto peculiar de relação estremecida, Delúbio acrescentou
um lance ao jogo de chantagem de Dirceu, mandando um torpedo contra Lula
o ex-tesoureiro fez vazar uma parte do depoimento que deu ao procurador-geral
da República, Antonio Fernando de Souza. No depoimento, Delúbio
afirma que usou recursos do caixa dois do PT para financiar a festa da posse de
Lula. Por último, ninguém consegue expulsar Delúbio do PT,
apesar de todos os seus trambiques, com medo da reação do ex-ministro.
Isso que é inimizade. Dida
Sampaio/AE
 | Nilton
Fukuda/AE
 | EFEITO
DOMINÓ NO PT Dirceu tenta se livrar da responsabilidade
pela crise que abala o PT e o governo, mas seus aliados no partido vão caindo
um por um, todos abalados pelas provas de corrupção. No sentido horário: Silvio
Pereira (acima, à esq.), que caiu por ter recebido um jipe de um
empresário; Marcelo Sereno, afastado da Casa Civil e da direção do partido; Genoíno,
enrolado com os dólares da cueca; e Delúbio, também homem de Lula | Bruno
Stuckert/Folha Imagem
 | Dida
Sampaio/AE
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Delúbio não é o único personagem da crise que o ex-ministro
José Dirceu e sua turma tentam aproximar perigosamente do presidente Lula.
Eles andam espalhando por Brasília que o presidente esteve reunido com
o publicitário Marcos Valério em pelo menos duas situações:
num encontro formal na Granja do Torto e num despretensioso cafezinho no gabinete
palaciano. Ambos teriam sido encerrados com o presidente agradecendo a Valério
pela ajuda que vinha dando ao PT. "Lula conversa com Deus e com todo o mundo.
É impossível fazer a averiguação prévia de
todo mundo que entra lá. Vocês deveriam verificar", insinuou na semana
passada um dos mais próximos assessores de Dirceu, ao ser indagado sobre
as tais visitas. A Presidência da República informou oficialmente
que Lula nunca se encontrou com Marcos Valério, seja no Palácio
do Planalto, na Granja do Torto ou no Palácio da Alvorada. Embora negada
peremptoriamente, a história é explosiva, se comprovada, e prospera
como rastilho de pólvora, como desejam os amigos do ex-ministro.
Dirceu também fustiga Lula por outro lado. Comenta que o presidente tinha
ciúmes de sua capacidade administrativa. Todas as vezes que apareciam notícias
de que ele deixaria o governo, contou o ex-ministro a um amigo, havia uma fieira
de pedidos a seu favor. Isso irritava o presidente, que se sentia menor do que
seu ministro da Casa Civil. A situação, de acordo com relatos de
Dirceu, chegou a tal ponto que o presidente passou a não convidá-lo
para eventos e encontros importantes. O ex-ministro se considerava o sucessor
natural de Lula. Antes da campanha de 2002, a quarta do PT, queria ser o candidato
do partido, mas, como Lula não abriu mão, ele o apoiou e ajudou
a construir sua vitória. Esperava, como sinal de gratidão, que Lula
fizesse dele candidato à sua sucessão, em 2006 ou 2010. Em lugar
disso, na sua opinião, foi traído. O ex-ministro diz que, por culpa
de Lula, saiu do governo de maneira humilhante. Afirma que decidiu deixar o cargo
logo depois das primeiras acusações do deputado Roberto Jefferson
de que ele seria o chefe do mensalão. A disposição, porém,
durou pouco. Dirceu diz que foi convidado para um jantar com o presidente na Granja
do Torto. Na ocasião, comunicou a Lula que pretendia deixar o governo para
não criar constrangimentos, e que também precisava de tempo para
se defender. Lula teria pedido para que ele ficasse. O então ministro saiu
do Torto se sentindo prestigiado e decidido a enfrentar a crise ainda como homem
poderoso. Dois dias depois do jantar e horas após o famoso discurso de
Jefferson em que ele aconselha Dirceu a deixar o governo, foi chamado ao gabinete
do presidente. "Acho melhor você sair", disse Lula, de maneira brusca. Devido
ao comportamento errático do presidente, segundo Dirceu, ele e o governo
se transformaram em reféns de Roberto Jefferson. Ao narrar esse episódio
aos seus assessores, Dirceu se referiu a Lula com os mesmos termos que um torcedor
de futebol costuma dedicar ao juiz que marcou um pênalti injusto contra
seu time. Dirceu não tem dúvidas
de que ele é uma espécie de troféu para a oposição
e que pode ser vítima de uma conspiração de ex-aliados. Ele
sabe que tem gente no governo que gostaria de ver sua cabeça numa bandeja.
E tem mesmo. O Palácio do Planalto não duvida de que o escândalo
do mensalão resultará em baixas de todos os lados e negocia com
a oposição uma saída que atenda aos interesses políticos
dos dois lados. Em alguns gabinetes palacianos, correu na semana passada uma lista
com os nomes dos parlamentares que deverão perder o mandato. O governo
até nomeou um interlocutor para discutir com a oposição a
fila da guilhotina. José Dirceu é o primeiro nome da lista oficial.
O algoz petista é o secretário-geral do PT e ex-ministro do Trabalho,
Ricardo Berzoini. Em conversas recentes com líderes da oposição,
entre eles os pefelistas Jorge Bornhausen e José Agripino e os tucanos
Tasso Jereissati e Arthur Virgílio, Berzoini ofereceu a cassação
dos petistas Dirceu, João Paulo Cunha, Paulo Rocha e José Mentor,
além da de outros líderes aliados, como Valdemar Costa Neto e Sandro
Mabel, do PL, José Janene, do PP, José Borba, do PMDB, e Roberto
Jefferson. Em troca, quer a preservação de Lula e a entrega de alguns
oposicionistas, como o presidente do PSDB, Eduardo Azeredo, que usou o valerioduto
em sua campanha ao governo de Minas Gerais, em 1998, e o pefelista Roberto Brant,
que se beneficiou do esquema em 2002. A oposição topou. Dida
Sampaio/AE
 | J.
F. Diorio/AE
 | NAS
MÃOS DE AMIGOS E INIMIGOS Na semana
de seu depoimento, Dirceu acompanha os passos de Berzoini (acima, à
esq.), que negocia sua cabeça com a oposição, usa Mentor
(acima, à dir.) para mandar suas ameaças e se preocupa com
o futuro do cambaleante João Paulo | Celso
Junior/AE
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Ao
tomar conhecimento da tal lista, Dirceu contra-atacou com mais uma ameaça.
Recluso em seu apartamento e preparando a defesa que apresentará nesta
terça-feira ao Conselho de Ética da Câmara, o ex-ministro
recebeu uma comitiva de três deputados petistas, não por acaso todos
pilhados sacando dinheiro das contas de Marcos Valério no Banco Rural
Paulo Rocha (470 000 reais), José Mentor (120 000 reais) e Professor Luizinho
(20 000 reais). Dirceu também conversou com o ex-presidente da Câmara
deputado João Paulo Cunha (50 000 reais), que pensou em renunciar ao ser
descoberto, mas mudou de idéia diante da nova estratégia do ex-ministro.
O recado embutido nesses encontros: eles estão unidos, o que significa
dizer que, se preciso, vão emparedar o governo. A turma de Dirceu considera
equivocada a manobra para proteger o presidente, atribuída ao ministro
Márcio Thomaz Bastos. Por trás dela, haveria, inclusive, reflexos
de uma rixa antiga entre Dirceu e o ministro da Justiça, a quem sempre
criticou por não ter o mínimo controle sobre a Polícia Federal.
A divergência entre os dois chegou ao ápice com a prisão do
publicitário Duda Mendonça no ano passado. Dirceu soube do fato
e telefonou para o ministro Márcio Thomaz para perguntar se era verdade.
O ministro foi verificar e disse que a notícia não procedia. Dirceu,
que estava num jantar, viu pela televisão o amigo Duda sair preso de uma
rinha de galo. "É muita incompetência", esbravejou.
O problema de Dirceu é que, embora repita que nada sabia sobre o esquema
ilícito de arrecadação, ninguém acredita. Renilda
disse, sem ser perguntada, que ouviu de Marcos Valério, que por sua vez
teria ouvido de Delúbio Soares, a informação de que o ex-ministro
sabia do caixa dois e até se encontrou com representantes dos bancos envolvidos
no escândalo. Após a denúncia, Dirceu primeiro se calou e
depois afirmou que não se lembrava do encontro. Só após o
Banco Rural ter emitido uma nota confirmando a reunião é que sua
memória, sempre muito boa, funcionou. Mas o tema da reunião nada
teria a ver com empréstimos ou pagamentos de campanhas. A versão
oficial, anunciada pelo Rural e confirmada por Dirceu, é que os banqueiros
estariam interessados em comprar o Banco Mercantil de Pernambuco, que está
em processo de liquidação. Nada mais. Na reunião, Dirceu
teria falado muito sobre economia e, só no finalzinho, um pouco sobre o
que interessava, e ainda assim para dizer que trataria do assunto após
as eleições municipais. Por que o ministro-chefe da Casa Civil trataria
de um tema financeiro completamente fora das atribuições de seu
cargo? Talvez pelos milhares de razões que levaram seu "secretário
particular", Roberto Marques, a constar da lista de pessoas autorizadas a sacar
dinheiro de uma conta de Marcos Valério no Banco Rural, como se verá
nas páginas seguintes.
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