|
|
| PELA MANEIRA COMO IGNORAM
RELAÇÃO ENTRE VERBOS, PRONOMES E PREPOSIÇÕES,
TODOS OS PARTICIPANTES DA ATUAL CPI ACHAM QUE A REGÊNCIA
FOI ABOLIDA COM A PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA.
|
Já que o latim
está outra vez na moda

|
Pausa na neurose
O meu HD (hard disc) psicológico
encheu. Minha capacidade intelectual de armazenar dados frenéticos,
neuróticos, e larápios, está esgotada. "Que
fazer?", como perguntava Lenin. Bem, as pessoas, quando se sentem
entediadas, ou estressadas, jogam dominó, Pac-Man, frescobol,
ou pagam seu dízimo. Eu, acreditem, prefiro ler meus compêndios
de psicopatologia. Tem tipos extraordinários. Por exemplo:
O FRONTEIRIÇO.
Gosto do fronteiriço, chamado,
por psicanalistas e psiquiatras, de borderline. É
muito mais divertido, e surpreendente, do que qualquer um de vocês.
Vivendo numa fronteira psíquica, como se vivesse numa
fronteira física, por exemplo, em Uruguaiana, o fronteiriço
está, simultaneamente, do lado de lá e do lado de
cá da emoção, e do entendimento.
Quando está do lado de cá, o
borderline é um chato, um "normal". Anda normal,
fala normal, até diz coisa com coisa. Mas, ao pôr o
pé no lado de lá, vira pessoa muito mais divertida
do que você e eu.
Tão fascinante que alguns futucadores
profissionais dos fundos humanos, como Pinel, Nietzsche, Reich,
Lombroso (aquele que inventou o criminoso nato), e até Kandinsky
o tremendo pintor que "sentia engulhos ao ver uma linha curva"
, o examinaram e enquadraram. Aqui vão umas poucas
coisas que me ensinaram sobre
O FRONTEIRIÇO:
O fronteiriço não tem
definição estrutural. Não se ajusta à
classificação neurótica nem à psicótica.
Fica no meio do caminho. Não é totalmente "normal"
nem visivelmente "anormal". Nem "perverso" nem "aproximadamente-perverso".
Constatando, clínica e teoricamente, esse caráter
único, psicopatologistas definiram-no como estrutura sem
"pátria", ou "identidade". O uso de "linguagem" estranha,
de fala e de comportamento, sempre incoerente, confunde até
os psicossábios.
Mas já há dois sistemas classificados
o CID-10 e o DSM-4 dentro da terminologia geral "transtorno
de personalidade", que designa os "distúrbios" de conduta.
É, essas "formulações"
são complicadas. Transcrevo ipsis litteris:
"As dificuldades aumentam quando tentamos
construir sistemas ateóricos (!) que, embora descritivamente
precisos, pouco nos ajudam a entender a complexidade borderline".
Psicopatologistas, a partir de Pinel (no Brasil é uma gíria),
descobriram fenômeno bem pós-moderno o da explosão
súbita de uma personalidade, sem quadro psicótico
tradicional. Como explicar a desagregação progressiva,
mas não constante? Wilhelm Reich deu nome aos bois
"caracteres impulsivos". Sei não.
Por outro lado, o fenômeno do fronteiriço
está diretamente ligado à "crise moral", à
superstar "crise ética". O fronteiriço surge
num contexto de angústias verdadeiras ou imaginadas
por "aceitação" e na dificuldade física
da couraça caracter-muscular de agüentar o
tranco, a pressão do nosso tempo.
O ato de chamar um indivíduo de fronteiriço
esconde algo especialmente perturbador por sua sutileza. Não
quer dizer que o indivíduo passe prum lado ou pra outro durante
muito tempo. A personalidade pode oscilar de instante a instante.
Mas, uma vez ultrapassada a fronteira, mesmo que por imperceptíveis
segundos, na volta à fronteira anterior o borderline
não registra o que foi dito antes. Inicia uma fala de maneira
compreensível, linear, em tom cordato, e passa imediatamente
a uma declaração aleatória, em geral narcisista,
culpando outros, ou o meio, por suas próprias deficiências
ou limitações, sempre sem qualquer relação
com o dito anteriormente.
Segundo a Organoterapia Funcional,
todas essas questões estão unidas diretamente ao quadro
psicológico profundo do borderline. Cito: "O
encouraçamento percepto-energético encontra expressão
em três fenômenos interligados: o ausentar-se-de-si-mesmo,
a explicitação lógica de formas alheias ao
entorno e a superexcitação como defesa, ao sentir
a ausência-de-si-mesmo". Eta nóis, hein, mãe?
Bem, mas, se isso já é complicado,
eu gostaria que os cientistas me explicassem um tipo que eu conheço,
um superfronteiriço. Vive numa Foz do Iguaçu
psicológica, fronteira pra todo lado, verdadeira orgia fronteiriça.
|