Edição 1916 . 3 de agosto de 2005

Índice
Claudio de Moura Castro
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Auto-retrato
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 
PELA MANEIRA COMO IGNORAM RELAÇÃO ENTRE VERBOS, PRONOMES E PREPOSIÇÕES, TODOS OS PARTICIPANTES DA ATUAL CPI ACHAM QUE A REGÊNCIA FOI ABOLIDA COM A PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA.
Já que o latim está outra vez na moda

Pausa na neurose

O meu HD (hard disc) psicológico encheu. Minha capacidade intelectual de armazenar dados frenéticos, neuróticos, e larápios, está esgotada. "Que fazer?", como perguntava Lenin. Bem, as pessoas, quando se sentem entediadas, ou estressadas, jogam dominó, Pac-Man, frescobol, ou pagam seu dízimo. Eu, acreditem, prefiro ler meus compêndios de psicopatologia. Tem tipos extraordinários. Por exemplo:

O FRONTEIRIÇO.

Gosto do fronteiriço, chamado, por psicanalistas e psiquiatras, de borderline. É muito mais divertido, e surpreendente, do que qualquer um de vocês. Vivendo numa fronteira psíquica, como se vivesse numa fronteira física, por exemplo, em Uruguaiana, o fronteiriço está, simultaneamente, do lado de lá e do lado de cá da emoção, e do entendimento.

Quando está do lado de cá, o borderline é um chato, um "normal". Anda normal, fala normal, até diz coisa com coisa. Mas, ao pôr o pé no lado de lá, vira pessoa muito mais divertida do que você e eu.

Tão fascinante que alguns futucadores profissionais dos fundos humanos, como Pinel, Nietzsche, Reich, Lombroso (aquele que inventou o criminoso nato), e até Kandinsky – o tremendo pintor que "sentia engulhos ao ver uma linha curva" –, o examinaram e enquadraram. Aqui vão umas poucas coisas que me ensinaram sobre

O FRONTEIRIÇO:

O fronteiriço não tem definição estrutural. Não se ajusta à classificação neurótica nem à psicótica. Fica no meio do caminho. Não é totalmente "normal" nem visivelmente "anormal". Nem "perverso" nem "aproximadamente-perverso". Constatando, clínica e teoricamente, esse caráter único, psicopatologistas definiram-no como estrutura sem "pátria", ou "identidade". O uso de "linguagem" estranha, de fala e de comportamento, sempre incoerente, confunde até os psicossábios.

Mas já há dois sistemas classificados – o CID-10 e o DSM-4 – dentro da terminologia geral "transtorno de personalidade", que designa os "distúrbios" de conduta.

É, essas "formulações" são complicadas. Transcrevo ipsis litteris:

"As dificuldades aumentam quando tentamos construir sistemas ateóricos (!) que, embora descritivamente precisos, pouco nos ajudam a entender a complexidade borderline". Psicopatologistas, a partir de Pinel (no Brasil é uma gíria), descobriram fenômeno bem pós-moderno – o da explosão súbita de uma personalidade, sem quadro psicótico tradicional. Como explicar a desagregação progressiva, mas não constante? Wilhelm Reich deu nome aos bois – "caracteres impulsivos". Sei não.

Por outro lado, o fenômeno do fronteiriço está diretamente ligado à "crise moral", à superstar "crise ética". O fronteiriço surge num contexto de angústias – verdadeiras ou imaginadas – por "aceitação" e na dificuldade física da couraça caracter-muscular de agüentar o tranco, a pressão do nosso tempo.

O ato de chamar um indivíduo de fronteiriço esconde algo especialmente perturbador por sua sutileza. Não quer dizer que o indivíduo passe prum lado ou pra outro durante muito tempo. A personalidade pode oscilar de instante a instante. Mas, uma vez ultrapassada a fronteira, mesmo que por imperceptíveis segundos, na volta à fronteira anterior o borderline não registra o que foi dito antes. Inicia uma fala de maneira compreensível, linear, em tom cordato, e passa imediatamente a uma declaração aleatória, em geral narcisista, culpando outros, ou o meio, por suas próprias deficiências ou limitações, sempre sem qualquer relação com o dito anteriormente.

Segundo a Organoterapia Funcional, todas essas questões estão unidas diretamente ao quadro psicológico profundo do borderline. Cito: "O encouraçamento percepto-energético encontra expressão em três fenômenos interligados: o ausentar-se-de-si-mesmo, a explicitação lógica de formas alheias ao entorno e a superexcitação como defesa, ao sentir a ausência-de-si-mesmo". Eta nóis, hein, mãe?

Bem, mas, se isso já é complicado, eu gostaria que os cientistas me explicassem um tipo que eu conheço, um superfronteiriço. Vive numa Foz do Iguaçu psicológica, fronteira pra todo lado, verdadeira orgia fronteiriça.

 

 
 
 
 
topovoltar