Edição 1916 . 3 de agosto de 2005

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Entrevista: Carmen bin Laden
Em casa com Osama

A cunhada de Osama bin Laden
conta como conviveu por quinze
anos com a família do terrorista
e rompeu o casamento para criar
as filhas em liberdade


Rosana Zakabi

Os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 viraram de cabeça para baixo a vida de Carmen bin Laden. Até hoje as pessoas se assustam com seu sobrenome, e há hotéis e restaurantes que recusam seus pedidos de reserva. Carmen é suíça e carrega o sobrenome do terrorista mais procurado do mundo porque foi casada durante quinze anos com Yeslam, um de seus 53 irmãos (de 22 mães). Eles se conheceram na Suíça, onde Yeslam passava férias. Casaram-se e foram morar na Arábia Saudita, onde tiveram três filhas, Wafah, Najia e Noor. Para explicar ao mundo que, apesar do nome, ela nada tem a ver com terrorismo, Carmen lançou há pouco o livro Inside the Kingdom (Por Dentro do Império), no qual conta detalhes sobre o período em que viveu com a família de Osama bin Laden, tentando se adaptar à submissão total imposta às mulheres pelas leis sauditas – e às vezes se rebelando contra elas. "Na Arábia Saudita, as esposas são como animais de estimação de seus maridos", relata. Carmen, que atualmente mora em Genebra, deu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – A senhora acredita que seu cunhado Osama bin Laden está por trás dos recentes atentados terroristas em Londres, que mataram mais de cinqüenta pessoas?
Carmen – Ele seria bem capaz de cometer atrocidades como essas. Osama é um fanático e prega com ferocidade idéias extremistas. Ele também tem à disposição uma ampla quantidade de recursos. Mas, obviamente, não sei se ele está envolvido com os atentados de Londres.

Veja – A senhora teve a mesma suspeita nos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos?
Carmen – Quando o primeiro avião colidiu com o World Trade Center, logo pensei em Osama e em seu fanatismo arrogante. Ele é o maior exemplo de tudo o que mais me aterroriza na Arábia Saudita. É extremamente dogmático, inflexível e impiedoso.

Veja – O que mudou em sua vida depois dos atentados nos Estados Unidos?
Carmen – Logo após os ataques, comecei a receber telefonemas com ameaças. Perdemos muitos amigos e não conseguíamos nem reservar mesa em restaurantes. Tínhamos pavor até de sair de casa. Eu e minhas filhas nos tornamos prisioneiras dos atentados, e isso será um fardo para o resto de nossas vidas. Preocupo-me sobretudo com a integridade das minhas filhas. Enfim, temos tomado algumas medidas de segurança e procuramos seguir as nossas rotinas.

Veja – Como Osama bin Laden é visto pelos sauditas?
Carmen – Quando vivi naquele país, percebi que muita gente admirava seu fervor religioso. Osama era visto como um exemplo de militância islâmica. Acredito que até hoje muita gente, inclusive parentes, concorde com suas opiniões extremistas.

Veja – Como era o relacionamento entre Osama e o restante da família Bin Laden?
Carmen – Os Bin Laden sempre tiveram enorme orgulho de Osama. Depois que ele foi para o Afeganistão para lutar contra a invasão soviética, no fim da década de 70, tornou-se um herói e um modelo a ser seguido. Conhecendo a sociedade saudita, não duvido que a família ainda o sustente financeiramente. Essa atitude seria coerente com a cultura da Arábia Saudita. Além disso, não tenho dúvida, a família ainda o admira muito e a ligação entre os irmãos é bastante forte.

Veja – Qual era o seu relacionamento com Osama?
Carmen – Eu não o via com muita freqüência porque ele morava longe da família, apesar de se dar muito bem com ela. Ele era muito reservado, mas tinha presença. Sua devoção religiosa era tão intensa que chegava a intimidar os próprios parentes. Quando ele entrava na sala, podia-se perceber a forte impressão que causava.

Veja – Os parentes tinham medo de Osama?
Carmen – Sim, ninguém ousava contrariá-lo. Uma vez, num dia de muito calor, um dos filhos de Osama, que tinha poucos meses de vida, começou a chorar insistentemente. O bebê estava com sede. A mãe insistia em lhe dar água numa colher, mas o bebê não tomava. Então, ofereci a mamadeira da minha filha, que tinha a mesma idade. A mãe não aceitou, porque Osama não permitia o uso de mamadeira. Insisti para meu marido falar com o irmão, mas ele disse: "Não adianta. Osama é assim".

Veja – O que ele tem contra as mamadeiras?
Carmen – Ele achava que o bico de borracha da mamadeira, em forma de mamilo, ofendia o Islã. Tenho certeza de que não era sua intenção deixar o filho morrer de sede. Mas, para ele, o sofrimento do bebê era menos importante do que os preceitos do Corão. O mais surpreendente é que a família simplesmente aceitava em silêncio as decisões de Osama.

Veja – A senhora conversava com Osama?
Carmen – De forma nenhuma. Ele não chegava perto de mim. Um dia, foi visitar meu marido e abri a porta para ele. Sorri e o convidei para entrar. Mas ele virou o rosto bruscamente. Só depois entendi o gesto. Meu rosto estava descoberto e ele não podia me ver daquela forma.

Veja – Como foi seu casamento com Yeslam?
Carmen – O dia do meu casamento foi um dos mais bizarros que passei na Arábia Saudita. Yeslam, um cunhado e eu fomos até o cartório e, enquanto os dois entravam no prédio, fiquei esperando no carro vestida com uma burca. Pouco depois, eles voltaram trazendo um livro para eu assinar. Assinei, eles levaram o livro para dentro e, pronto, estávamos casados. A festa de casamento durou dois dias, mas não vi meu marido durante as comemorações. As mulheres ficavam numa festa e os homens, em outra.

Veja – Como era a rotina doméstica?
Carmen – Eu ficava confinada dentro de casa. Assim como as outras mulheres, não tinha nenhum tipo de atividade. Na verdade, isso não fazia muita diferença, porque não havia lugares para ir. Hotéis, clubes, teatros e restaurantes são privativos dos homens. Sair sozinha é algo impensável. Uma vez, atravessei a rua para ir à casa de uma cunhada. Quando ela me viu, repreendeu-me: "Amanhã todos os Bin Laden estarão comentando que viram Carmen na rua!".

Veja – Como era a casa em que vocês moravam?
Carmen – Fomos viver numa casa vizinha a várias outras que abrigavam os demais membros da família Bin Laden. Eu esperava encontrar uma residência exótica e luxuosa, como vemos nos filmes, mas deparei com uma casa cafona e antiquada, repleta de candelabros. A iluminação era tão forte que parecia uma loja de lâmpadas. Tudo dentro da casa era verde: tapete, papel de parede, sofás. Havia flores de plástico espalhadas por todo canto. Nosso quarto tinha paredes de mármore marrom-escuro, sem janelas. Parecia uma tumba.

Veja – Como eram as refeições?
Carmen – Na hora de comer, os empregados estendiam uma toalha no chão e nos servíamos com queijo, mel, salada de pepino, pão, iogurte e pasta de feijão. Aos poucos, comecei a mudar os hábitos da casa e reformar a decoração, mas era muito difícil. Meu marido não tinha tempo para questões domésticas. Eu tinha de fazer tudo sozinha, com as próprias mãos.

Veja – Os empregados não a ajudavam?
Carmen – Meus empregados simplesmente não podiam receber ordens minhas, diretamente. Uma vez, insisti para um funcionário limpar o terraço de casa e ele não me deu ouvidos. Cheguei a levantar a voz, mas não adiantou nada. Então, resolvi mostrar a ele, por conta própria, como se limpava o chão. Tirei os tênis e levantei a barra da calça para facilitar o serviço. Meu marido chegou naquele momento, e levei a maior bronca porque estava mostrando os tornozelos. Em outra ocasião, o motorista de Yeslam quase pôs fogo no carro porque deixou o motor ligado. Falei para desligá-lo. Ele me respondeu: "Não recebo ordens de mulher".

Veja – Não havia nenhum tipo de diálogo com os empregados?
Carmen – Certa vez, minha sogra e uma cunhada me olharam com cara de assombro porque agradeci à empregada delas, que havia me servido uma xícara de chá. A Arábia Saudita foi um dos últimos países a abolir a escravidão, em 1962. Cheguei ao país doze anos depois, e parecia que nada havia mudado com a abolição. Os empregados não eram considerados humanos, eram tratados como objetos que precisavam funcionar direito.

Veja – Como eram as mulheres da família?
Carmen – Elas eram como animais de estimação dos maridos. Eram mantidas trancadas em casa e só saíam com eles em ocasiões especiais. Passavam o dia esperando sua volta e, quando eles chegavam, iam a seu encontro, alegres, para agradá-los. Eles, em troca, davam tapinhas na cabeça delas, ou traziam algum presente.

Veja – A senhora tinha uma boa relação com elas?
Carmen – Na medida do possível, sim, mas de maneira bastante superficial. As mulheres sauditas nunca mostram sua verdadeira face para uma estrangeira, a não ser que ela se torne exatamente como elas, o que não foi o meu caso. Eu tentava encorajá-las a raciocinar, ter opinião própria, recusar qualquer forma de submissão, mas meus esforços foram em vão. Elas simplesmente não queriam mudar.

Veja – Vocês costumavam receber visitas?
Carmen – Quando Yeslam assumiu a chefia dos negócios da família, os irmãos começaram a nos visitar com maior freqüência. Geralmente chegavam no fim da tarde, para tomar chá no terraço ou jantar. Vinham para falar de negócios. Muitas vezes, Yeslam me deixava participar da reunião, contanto que eu ficasse em silêncio. Meus cunhados mais religiosos, entre eles Osama, quase nunca iam à nossa casa, pois sabiam que eu ficava a maior parte do tempo com o rosto descoberto. Quando eles nos visitavam, eu tinha de ir para o meu quarto e só saía quando iam embora.

Veja – O que a senhora fazia para passar o tempo?
Carmen – Eu lia vorazmente, para manter a sanidade mental. Sempre que ia a Genebra comprava uma pilha de livros e revistas. Certa vez, li um artigo sobre a amputação do clitóris em meninas e, horrorizada, comentei sobre o assunto com minha sogra. Ela simplesmente sorriu e falou: "Não é tão ruim assim. É apenas um corte pequeno e a garota é muito nova, nem machuca". Fiquei pensando: será que ela foi mutilada? Ou uma de minhas cunhadas? Isso ficou sem resposta.

Veja – Por que a senhora decidiu escrever um livro sobre sua vida entre os Bin Laden?
Carmen – Resolvi escrever o livro por causa de minhas filhas. Minha intenção é relatar com detalhes como foi a experiência de viver na Arábia Saudita, entre os Bin Laden, e explicar por que abandonei o pai delas. Também queria mostrar ao mundo que, apesar de carregar Bin Laden no sobrenome, não penso da mesma maneira que eles.

Veja – Por que a senhora se separou de seu marido?
Carmen – Porque ficou cada vez mais claro que eu não podia criar minhas filhas sob as condições impostas por ele. No início do casamento, Yeslam era mais tolerante. Mesmo quando nos mudamos para a Arábia Saudita, ele me dava uma certa liberdade. Conseguíamos levar uma vida quase normal dentro de casa. Eu usava camiseta e tênis, comíamos churrasco de carne bovina e tomávamos cerveja. Comprávamos a bebida no mercado negro, pois o álcool é proibido na Arábia Saudita. Estávamos a salvo porque a polícia religiosa não ousava inspecionar a casa dos príncipes ou a dos Bin Laden. Mas, com o passar dos anos, Yeslam mudou e foi se tornando cada vez mais saudita. Quando as garotas começaram a crescer, ele passou a criticar a forma como elas se vestiam e agiam. Percebi que nossas diferenças eram irreconciliáveis. Eu não podia permitir que minhas filhas crescessem numa cultura que iria submetê-las a uma lavagem cerebral.

Veja – O que mais a assustava na Arábia Saudita?
Carmen – O que eu mais temia era ficar dependente de algum dos meus cunhados. Na cultura saudita, quando o marido morre, a esposa se torna dependente do parente masculino mais próximo. É ele que passa a determinar a educação das crianças, as decisões em família, as viagens. Se acontecesse algo com Yeslam, cunhados como Osama poderiam ter controle total sobre a minha vida e a das minhas filhas.

Veja – Como era a vida de suas filhas?
Carmen – Eu fazia de tudo para que elas se sentissem livres, mesmo vivendo sob a cultura saudita. Comprei-lhes bicicletas e patins, tocava música e as incentivava a dançar e a cantar. Mas isso começou a causar problemas na escola, pois elas não sabiam o que podiam fazer em público ou não. A gota d'água foi quando abri o caderno de uma das meninas e estava escrito: "Eu odeio judeus. Eu amo palestinos". Reclamei na escola, mas não adiantou nada.

Veja – Como a senhora conseguiu deixar a Arábia Saudita?
Carmen – Meu marido e eu costumávamos passar o período de férias escolares das meninas em nossa casa na Suíça. No verão de 1985, consegui matricular minhas filhas num colégio suíço e prolongamos nossa estada no país. E fomos ficando. Yeslam começou a se distanciar cada vez mais de nossa família e, após o nascimento de minha terceira filha, nos separamos. Ganhei a custódia das crianças e conseguimos permanecer na Suíça. Mas, depois disso, elas foram totalmente rejeitadas pelos Bin Laden.

Veja – A senhora pensa em visitar a Arábia Saudita algum dia?
Carmen – Seria difícil. Não tenho a mínima vontade de voltar para a Arábia Saudita, principalmente depois dessa onda de atentados terroristas.

 
 
 
 
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