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Entrevista: Carmen
bin Laden
Em casa com Osama
A cunhada de Osama bin Laden
conta como conviveu por quinze
anos com a família do terrorista
e rompeu o casamento para criar
as filhas em liberdade

Rosana Zakabi
Os ataques terroristas de 11 de setembro de
2001 viraram de cabeça para baixo a vida de Carmen bin Laden.
Até hoje as pessoas se assustam com seu sobrenome, e há
hotéis e restaurantes que recusam seus pedidos de reserva.
Carmen é suíça e carrega o sobrenome do terrorista
mais procurado do mundo porque foi casada durante quinze anos com
Yeslam, um de seus 53 irmãos (de 22 mães). Eles se
conheceram na Suíça, onde Yeslam passava férias.
Casaram-se e foram morar na Arábia Saudita, onde tiveram
três filhas, Wafah, Najia e Noor. Para explicar ao mundo que,
apesar do nome, ela nada tem a ver com terrorismo, Carmen lançou
há pouco o livro Inside the Kingdom (Por Dentro do
Império), no qual conta detalhes sobre o período em
que viveu com a família de Osama bin Laden, tentando se adaptar
à submissão total imposta às mulheres pelas
leis sauditas e às vezes se rebelando contra elas.
"Na Arábia Saudita, as esposas são como animais de
estimação de seus maridos", relata. Carmen, que atualmente
mora em Genebra, deu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja A senhora
acredita que seu cunhado Osama bin Laden está por trás
dos recentes atentados terroristas em Londres, que mataram mais
de cinqüenta pessoas?
Carmen Ele seria bem capaz de cometer atrocidades
como essas. Osama é um fanático e prega com ferocidade
idéias extremistas. Ele também tem à disposição
uma ampla quantidade de recursos. Mas, obviamente, não sei
se ele está envolvido com os atentados de Londres.
Veja A senhora
teve a mesma suspeita nos atentados de 11 de setembro de 2001 nos
Estados Unidos?
Carmen Quando o primeiro avião colidiu
com o World Trade Center, logo pensei em Osama e em seu fanatismo
arrogante. Ele é o maior exemplo de tudo o que mais me aterroriza
na Arábia Saudita. É extremamente dogmático,
inflexível e impiedoso.
Veja O que mudou
em sua vida depois dos atentados nos Estados Unidos?
Carmen Logo após os ataques, comecei a receber
telefonemas com ameaças. Perdemos muitos amigos e não
conseguíamos nem reservar mesa em restaurantes. Tínhamos
pavor até de sair de casa. Eu e minhas filhas nos tornamos
prisioneiras dos atentados, e isso será um fardo para o resto
de nossas vidas. Preocupo-me sobretudo com a integridade das minhas
filhas. Enfim, temos tomado algumas medidas de segurança
e procuramos seguir as nossas rotinas.
Veja Como Osama
bin Laden é visto pelos sauditas?
Carmen Quando vivi naquele país, percebi que
muita gente admirava seu fervor religioso. Osama era visto como
um exemplo de militância islâmica. Acredito que até
hoje muita gente, inclusive parentes, concorde com suas opiniões
extremistas.
Veja Como era
o relacionamento entre Osama e o restante da família Bin
Laden?
Carmen Os Bin Laden sempre tiveram enorme orgulho
de Osama. Depois que ele foi para o Afeganistão para lutar
contra a invasão soviética, no fim da década
de 70, tornou-se um herói e um modelo a ser seguido. Conhecendo
a sociedade saudita, não duvido que a família ainda
o sustente financeiramente. Essa atitude seria coerente com a cultura
da Arábia Saudita. Além disso, não tenho dúvida,
a família ainda o admira muito e a ligação
entre os irmãos é bastante forte.
Veja Qual era
o seu relacionamento com Osama?
Carmen Eu não o via com muita freqüência
porque ele morava longe da família, apesar de se dar muito
bem com ela. Ele era muito reservado, mas tinha presença.
Sua devoção religiosa era tão intensa que chegava
a intimidar os próprios parentes. Quando ele entrava na sala,
podia-se perceber a forte impressão que causava.
Veja Os parentes
tinham medo de Osama?
Carmen Sim, ninguém ousava contrariá-lo.
Uma vez, num dia de muito calor, um dos filhos de Osama, que tinha
poucos meses de vida, começou a chorar insistentemente. O
bebê estava com sede. A mãe insistia em lhe dar água
numa colher, mas o bebê não tomava. Então, ofereci
a mamadeira da minha filha, que tinha a mesma idade. A mãe
não aceitou, porque Osama não permitia o uso de mamadeira.
Insisti para meu marido falar com o irmão, mas ele disse:
"Não adianta. Osama é assim".
Veja O que ele
tem contra as mamadeiras?
Carmen Ele achava que o bico de borracha da mamadeira,
em forma de mamilo, ofendia o Islã. Tenho certeza de que
não era sua intenção deixar o filho morrer
de sede. Mas, para ele, o sofrimento do bebê era menos importante
do que os preceitos do Corão. O mais surpreendente
é que a família simplesmente aceitava em silêncio
as decisões de Osama.
Veja A senhora
conversava com Osama?
Carmen De forma nenhuma. Ele não chegava perto
de mim. Um dia, foi visitar meu marido e abri a porta para ele.
Sorri e o convidei para entrar. Mas ele virou o rosto bruscamente.
Só depois entendi o gesto. Meu rosto estava descoberto e
ele não podia me ver daquela forma.
Veja Como foi
seu casamento com Yeslam?
Carmen O dia do meu casamento foi um dos mais bizarros
que passei na Arábia Saudita. Yeslam, um cunhado e eu fomos
até o cartório e, enquanto os dois entravam no prédio,
fiquei esperando no carro vestida com uma burca. Pouco depois, eles
voltaram trazendo um livro para eu assinar. Assinei, eles levaram
o livro para dentro e, pronto, estávamos casados. A festa
de casamento durou dois dias, mas não vi meu marido durante
as comemorações. As mulheres ficavam numa festa e
os homens, em outra.
Veja Como era
a rotina doméstica?
Carmen Eu ficava confinada dentro de casa. Assim como
as outras mulheres, não tinha nenhum tipo de atividade. Na
verdade, isso não fazia muita diferença, porque não
havia lugares para ir. Hotéis, clubes, teatros e restaurantes
são privativos dos homens. Sair sozinha é algo impensável.
Uma vez, atravessei a rua para ir à casa de uma cunhada.
Quando ela me viu, repreendeu-me: "Amanhã todos os Bin Laden
estarão comentando que viram Carmen na rua!".
Veja Como era
a casa em que vocês moravam?
Carmen Fomos viver numa casa vizinha a várias
outras que abrigavam os demais membros da família Bin Laden.
Eu esperava encontrar uma residência exótica e luxuosa,
como vemos nos filmes, mas deparei com uma casa cafona e antiquada,
repleta de candelabros. A iluminação era tão
forte que parecia uma loja de lâmpadas. Tudo dentro da casa
era verde: tapete, papel de parede, sofás. Havia flores de
plástico espalhadas por todo canto. Nosso quarto tinha paredes
de mármore marrom-escuro, sem janelas. Parecia uma tumba.
Veja Como eram
as refeições?
Carmen Na hora de comer, os empregados estendiam uma
toalha no chão e nos servíamos com queijo, mel, salada
de pepino, pão, iogurte e pasta de feijão. Aos poucos,
comecei a mudar os hábitos da casa e reformar a decoração,
mas era muito difícil. Meu marido não tinha tempo
para questões domésticas. Eu tinha de fazer tudo sozinha,
com as próprias mãos.
Veja Os empregados
não a ajudavam?
Carmen Meus empregados simplesmente não podiam
receber ordens minhas, diretamente. Uma vez, insisti para um funcionário
limpar o terraço de casa e ele não me deu ouvidos.
Cheguei a levantar a voz, mas não adiantou nada. Então,
resolvi mostrar a ele, por conta própria, como se limpava
o chão. Tirei os tênis e levantei a barra da calça
para facilitar o serviço. Meu marido chegou naquele momento,
e levei a maior bronca porque estava mostrando os tornozelos. Em
outra ocasião, o motorista de Yeslam quase pôs fogo
no carro porque deixou o motor ligado. Falei para desligá-lo.
Ele me respondeu: "Não recebo ordens de mulher".
Veja Não
havia nenhum tipo de diálogo com os empregados?
Carmen Certa vez, minha sogra e uma cunhada me olharam
com cara de assombro porque agradeci à empregada delas, que
havia me servido uma xícara de chá. A Arábia
Saudita foi um dos últimos países a abolir a escravidão,
em 1962. Cheguei ao país doze anos depois, e parecia que
nada havia mudado com a abolição. Os empregados não
eram considerados humanos, eram tratados como objetos que precisavam
funcionar direito.
Veja Como eram
as mulheres da família?
Carmen Elas eram como animais de estimação
dos maridos. Eram mantidas trancadas em casa e só saíam
com eles em ocasiões especiais. Passavam o dia esperando
sua volta e, quando eles chegavam, iam a seu encontro, alegres,
para agradá-los. Eles, em troca, davam tapinhas na cabeça
delas, ou traziam algum presente.
Veja A senhora
tinha uma boa relação com elas?
Carmen Na medida do possível, sim, mas de maneira
bastante superficial. As mulheres sauditas nunca mostram sua verdadeira
face para uma estrangeira, a não ser que ela se torne exatamente
como elas, o que não foi o meu caso. Eu tentava encorajá-las
a raciocinar, ter opinião própria, recusar qualquer
forma de submissão, mas meus esforços foram em vão.
Elas simplesmente não queriam mudar.
Veja Vocês
costumavam receber visitas?
Carmen Quando Yeslam assumiu a chefia dos negócios
da família, os irmãos começaram a nos visitar
com maior freqüência. Geralmente chegavam no fim da tarde,
para tomar chá no terraço ou jantar. Vinham para falar
de negócios. Muitas vezes, Yeslam me deixava participar da
reunião, contanto que eu ficasse em silêncio. Meus
cunhados mais religiosos, entre eles Osama, quase nunca iam à
nossa casa, pois sabiam que eu ficava a maior parte do tempo com
o rosto descoberto. Quando eles nos visitavam, eu tinha de ir para
o meu quarto e só saía quando iam embora.
Veja O que a
senhora fazia para passar o tempo?
Carmen Eu lia vorazmente, para manter a sanidade mental.
Sempre que ia a Genebra comprava uma pilha de livros e revistas.
Certa vez, li um artigo sobre a amputação do clitóris
em meninas e, horrorizada, comentei sobre o assunto com minha sogra.
Ela simplesmente sorriu e falou: "Não é tão
ruim assim. É apenas um corte pequeno e a garota é
muito nova, nem machuca". Fiquei pensando: será que ela foi
mutilada? Ou uma de minhas cunhadas? Isso ficou sem resposta.
Veja Por que
a senhora decidiu escrever um livro sobre sua vida entre os Bin
Laden?
Carmen Resolvi escrever o livro por causa de minhas
filhas. Minha intenção é relatar com detalhes
como foi a experiência de viver na Arábia Saudita,
entre os Bin Laden, e explicar por que abandonei o pai delas. Também
queria mostrar ao mundo que, apesar de carregar Bin Laden no sobrenome,
não penso da mesma maneira que eles.
Veja Por que
a senhora se separou de seu marido?
Carmen Porque ficou cada vez mais claro que eu não
podia criar minhas filhas sob as condições impostas
por ele. No início do casamento, Yeslam era mais tolerante.
Mesmo quando nos mudamos para a Arábia Saudita, ele me dava
uma certa liberdade. Conseguíamos levar uma vida quase normal
dentro de casa. Eu usava camiseta e tênis, comíamos
churrasco de carne bovina e tomávamos cerveja. Comprávamos
a bebida no mercado negro, pois o álcool é proibido
na Arábia Saudita. Estávamos a salvo porque a polícia
religiosa não ousava inspecionar a casa dos príncipes
ou a dos Bin Laden. Mas, com o passar dos anos, Yeslam mudou e foi
se tornando cada vez mais saudita. Quando as garotas começaram
a crescer, ele passou a criticar a forma como elas se vestiam e
agiam. Percebi que nossas diferenças eram irreconciliáveis.
Eu não podia permitir que minhas filhas crescessem numa cultura
que iria submetê-las a uma lavagem cerebral.
Veja O que mais
a assustava na Arábia Saudita?
Carmen O que eu mais temia era ficar dependente de
algum dos meus cunhados. Na cultura saudita, quando o marido morre,
a esposa se torna dependente do parente masculino mais próximo.
É ele que passa a determinar a educação das
crianças, as decisões em família, as viagens.
Se acontecesse algo com Yeslam, cunhados como Osama poderiam ter
controle total sobre a minha vida e a das minhas filhas.
Veja Como era
a vida de suas filhas?
Carmen Eu fazia de tudo para que elas se sentissem
livres, mesmo vivendo sob a cultura saudita. Comprei-lhes bicicletas
e patins, tocava música e as incentivava a dançar
e a cantar. Mas isso começou a causar problemas na escola,
pois elas não sabiam o que podiam fazer em público
ou não. A gota d'água foi quando abri o caderno de
uma das meninas e estava escrito: "Eu odeio judeus. Eu amo palestinos".
Reclamei na escola, mas não adiantou nada.
Veja Como a
senhora conseguiu deixar a Arábia Saudita?
Carmen Meu marido e eu costumávamos passar
o período de férias escolares das meninas em nossa
casa na Suíça. No verão de 1985, consegui matricular
minhas filhas num colégio suíço e prolongamos
nossa estada no país. E fomos ficando. Yeslam começou
a se distanciar cada vez mais de nossa família e, após
o nascimento de minha terceira filha, nos separamos. Ganhei a custódia
das crianças e conseguimos permanecer na Suíça.
Mas, depois disso, elas foram totalmente rejeitadas pelos Bin Laden.
Veja A senhora
pensa em visitar a Arábia Saudita algum dia?
Carmen Seria difícil. Não tenho a mínima
vontade de voltar para a Arábia Saudita, principalmente depois
dessa onda de atentados terroristas.
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