Edição 1916 . 3 de agosto de 2005

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Auto-retrato
Marcelo Teixeira

Al Ferreira/Futura Press


Há semanas o Santos Futebol Clube trava uma guerra com o Real Madrid para impedir que o time espanhol leve embora seu principal jogador, Robinho. Mesmo diante de um depósito de 30 milhões de dólares, o presidente do clube, Marcelo Teixeira, recusa-se a entregar o craque. Aos 41 anos, em seu terceiro mandato, Teixeira assumiu uma bandeira difícil de carregar. Na semana passada, ele concedeu à repórter Roberta Abreu Lima a seguinte entrevista.

O SENHOR DECIDIU SER O SOLITÁRIO DEFENSOR DA ATUAÇÃO DE GRANDES ATLETAS BRASILEIROS NO BRASIL?
Acredito que não sou o único. Há outros dirigentes defendendo a permanência de grandes jogadores no país.

POR QUE O SANTOS CORRE O RISCO DE PERDER SUA MAIOR ESTRELA?
Acho que a prioridade dele e dos outros que querem se transferir para o exterior é econômica. Muitos estão bem em seu clube e se sujeitam a ir para países mais desenvolvidos – e até a ficar na reserva – por questões financeiras. A economia brasileira, infelizmente, é incomparável à de muitos países.

ATÉ ONDE O SANTOS VAI RESISTIR?
O interesse do Santos é ficar com Robinho. Ele se tornou uma figura importante para o futebol brasileiro. Estamos amparados pela lei, nas condições dos contratos. Cumprimos nossa obrigação e queremos que o Robinho cumpra a dele.

O CLUBE QUER SER UM EXEMPLO PARA O FUTEBOL BRASILEIRO?
Acabará sendo, com certeza. Essa história será um fator determinante em futuras negociações. O caso Robinho é um marco, um divisor de águas. Os clubes estrangeiros terão mais cuidado em suas futuras propostas e também na divulgação delas. O Real Madrid achou que já podia ir anunciando que Robinho ia para lá. Isso não pode ser assim.

MAS OS 30 MILHÕES DE DÓLARES NÃO SÃO UM BOM DINHEIRO PARA O CLUBE?
É claro que o dinheiro é bom, mas a verdade é que os times todos vêm perdendo seus grandes talentos muito cedo. Os clubes estão passando por uma situação delicada devido à mudança na legislação esportiva. Ela proporcionou coisas positivas, como maior transparência, mas também trouxe fatores negativos. O fim da lei do passe, que permite a livre transferência de um jogador quando termina seu contrato, criou desvantagens até para o atleta. Esperava-se que a nova lei desse independência a eles, mas muitos acabaram ficando desempregados. Diversos clubes do interior, que formavam bons atletas e os vendiam, estão fechando porque não têm mais acesso a essa fonte de recursos.

TORNOU-SE DESVANTAJOSO INVESTIR NA FORMAÇÃO DE UM JOGADOR?
Nós, sonhadores, investimos, né? Vamos continuar fazendo isso, investindo até na formação escolar, dando acompanhamento de nutricionistas, de psicólogos. Mas, por causa da legislação, acabamos perdendo o atleta muito cedo – e também todo esse investimento. Por isso, há circunstâncias que temos de aproveitar para conseguir uma boa negociação. O Santos poderia e queria ter mantido atletas como Diego e Alex, com bons salários, mas a legislação esportiva atrapalhou. Nesse aspecto, a legislação beneficiou muito os empresários.

OS EMPRESÁRIOS PREJUDICAM A RELAÇÃO DO JOGADOR COM O CLUBE?
A relação pode ser boa, mas eles precisam reconhecer o trabalho do clube brasileiro, que investiu no jogador. O atleta não pode dar as costas ao clube em busca unicamente de seus interesses. Isso tem acontecido com freqüência e muitas vezes eles são influenciados pelos empresários. Quando o atleta está despontando, o empresário consegue tornar-se dono de seu destino. Muitos deles são extremamente jovens, adolescentes ainda, e nem sabem o que seria melhor para seu futuro.

ROBINHO ESTA TRAINDO O TIME QUE LHE DEU AS CONDIÇÕES PARA TORNAR-SE ESTRELA?
Não sei se o Real Madrid foi mal orientado e acabou achando que o Santos aceitaria facilmente um valor menor do que a multa contratual, mas nós não estamos priorizando o lado financeiro. A imagem e o nome de Robinho são importantes para o Brasil. Ele também está se beneficiando da exploração de sua imagem aqui. Há muitos projetos que envolvem o nome de Robinho. Isso está no seu contrato assinado com o Santos há menos de um ano e que ele se comprometeu a cumprir. Se seu empresário o orienta a desobedecer às cláusulas, acho que não é a pessoa ideal para defender seus interesses.

 
 
 
 
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