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Auto-retrato
Marcelo Teixeira
Al Ferreira/Futura Press
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Há semanas o Santos Futebol Clube trava uma guerra com o
Real Madrid para impedir que o time espanhol leve embora seu principal
jogador, Robinho. Mesmo diante de um depósito de 30 milhões
de dólares, o presidente do clube, Marcelo Teixeira, recusa-se
a entregar o craque. Aos 41 anos, em seu terceiro mandato, Teixeira
assumiu uma bandeira difícil de carregar. Na semana passada,
ele concedeu à repórter Roberta Abreu Lima a seguinte
entrevista.
O SENHOR DECIDIU SER O SOLITÁRIO
DEFENSOR DA ATUAÇÃO DE GRANDES ATLETAS BRASILEIROS
NO BRASIL?
Acredito que não sou o único. Há outros
dirigentes defendendo a permanência de grandes jogadores no
país.
POR QUE O SANTOS CORRE O RISCO DE PERDER
SUA MAIOR ESTRELA?
Acho que a prioridade dele e dos outros que querem se transferir
para o exterior é econômica. Muitos estão bem
em seu clube e se sujeitam a ir para países mais desenvolvidos
e até a ficar na reserva por questões
financeiras. A economia brasileira, infelizmente, é incomparável
à de muitos países.
ATÉ ONDE O SANTOS VAI RESISTIR?
O interesse do Santos é ficar com Robinho. Ele se tornou
uma figura importante para o futebol brasileiro. Estamos amparados
pela lei, nas condições dos contratos. Cumprimos nossa
obrigação e queremos que o Robinho cumpra a dele.
O CLUBE QUER SER UM EXEMPLO PARA O FUTEBOL
BRASILEIRO?
Acabará sendo, com certeza. Essa história será
um fator determinante em futuras negociações. O caso
Robinho é um marco, um divisor de águas. Os clubes
estrangeiros terão mais cuidado em suas futuras propostas
e também na divulgação delas. O Real Madrid
achou que já podia ir anunciando que Robinho ia para lá.
Isso não pode ser assim.
MAS OS 30 MILHÕES DE DÓLARES
NÃO SÃO UM BOM DINHEIRO PARA O CLUBE?
É claro que o dinheiro é bom, mas a verdade é
que os times todos vêm perdendo seus grandes talentos muito
cedo. Os clubes estão passando por uma situação
delicada devido à mudança na legislação
esportiva. Ela proporcionou coisas positivas, como maior transparência,
mas também trouxe fatores negativos. O fim da lei do passe,
que permite a livre transferência de um jogador quando termina
seu contrato, criou desvantagens até para o atleta. Esperava-se
que a nova lei desse independência a eles, mas muitos acabaram
ficando desempregados. Diversos clubes do interior, que formavam
bons atletas e os vendiam, estão fechando porque não
têm mais acesso a essa fonte de recursos.
TORNOU-SE DESVANTAJOSO INVESTIR NA FORMAÇÃO
DE UM JOGADOR?
Nós, sonhadores, investimos, né? Vamos continuar
fazendo isso, investindo até na formação escolar,
dando acompanhamento de nutricionistas, de psicólogos. Mas,
por causa da legislação, acabamos perdendo o atleta
muito cedo e também todo esse investimento. Por isso,
há circunstâncias que temos de aproveitar para conseguir
uma boa negociação. O Santos poderia e queria ter
mantido atletas como Diego e Alex, com bons salários, mas
a legislação esportiva atrapalhou. Nesse aspecto,
a legislação beneficiou muito os empresários.
OS EMPRESÁRIOS PREJUDICAM A RELAÇÃO
DO JOGADOR COM O CLUBE?
A relação pode ser boa, mas eles precisam reconhecer
o trabalho do clube brasileiro, que investiu no jogador. O atleta
não pode dar as costas ao clube em busca unicamente de seus
interesses. Isso tem acontecido com freqüência e muitas
vezes eles são influenciados pelos empresários. Quando
o atleta está despontando, o empresário consegue tornar-se
dono de seu destino. Muitos deles são extremamente jovens,
adolescentes ainda, e nem sabem o que seria melhor para seu futuro.
ROBINHO ESTA TRAINDO O TIME QUE LHE DEU
AS CONDIÇÕES PARA TORNAR-SE ESTRELA?
Não sei se o Real Madrid foi mal orientado e acabou
achando que o Santos aceitaria facilmente um valor menor do que
a multa contratual, mas nós não estamos priorizando
o lado financeiro. A imagem e o nome de Robinho são importantes
para o Brasil. Ele também está se beneficiando da
exploração de sua imagem aqui. Há muitos projetos
que envolvem o nome de Robinho. Isso está no seu contrato
assinado com o Santos há menos de um ano e que ele se comprometeu
a cumprir. Se seu empresário o orienta a desobedecer às
cláusulas, acho que não é a pessoa ideal para
defender seus interesses.
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