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Luiz
Felipe de Alencastro
A hiperpotência
"O
imperialismo americano
é
bom para o Brasil?"
Ilustração Ale Setti
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A pergunta pode parecer extravagante, mas o tema se situa na confluência
de duas tendências atuais: a afirmação da hegemonia
dos Estados Unidos e a perda de autonomia da política econômica
brasileira, na seqüência de um movimento que restringe a soberania
das nações nos quatro cantos do mundo.
Os atentados
de 11 de setembro acentuaram o unilateralismo o abandono do recurso
às instâncias internacionais que vinha sendo seguido
pelo governo do presidente Bush. Recebendo o apoio de seus aliados para
proceder a seu talante, os EUA invadiram o Afeganistão. A ofensiva
incluiu soldados, aviação e navios de guerra deslocados
de suas bases nos EUA, Japão, Inglaterra, Alemanha, Espanha, Itália.
Meio século depois da retirada das forças britânicas
que começaram a ser introduzidas na região desde o século
XVIII, os EUA fincam pé na Ásia Central. Contando com bases
militares encravadas em quarenta países e desfrutando uma influência
econômica, política e cultural sem paralelos, os Estados
Unidos apresentam-se como a primeira hiperpotência mundial, conforme
o termo cunhado pelos especialistas para caracterizar esse estatuto ímpar
na história.
Na realidade,
depois do desabamento da União Soviética, o poderio internacional
dos EUA tomou tamanha dimensão que a análise comparativa
perde toda a pertinência. Desde sempre, as superpotências
que marcaram a história foram cingidas por outros poderes ou pela
impossibilidade de exercer uma política planetária. Na Antiguidade,
o poder de Roma conhecia certos limites. Além do mais, na mesma
época existiam duas outras grandes potências: o Império
Persa e, no extremo oriente, a China. No século XIX, quando o Império
Britânico atingiu a supremacia, a França e a Rússia
continuaram a representar um contrapeso geopolítico bastante considerável.
Ora, o estatuto hegemônico de que se beneficia atualmente os EUA
é muito superior ao da Inglaterra oitocentista e ao da Roma antiga.
Como escreveu o historiador Paul Kennedy, professor da Universidade Yale,
"nunca existiu tal disparidade de poder" no cenário mundial.
Para alguns
analistas conservadores americanos, os atentados de 11 de setembro justificam
a afirmação ostensiva do poderio dos Estados Unidos. Para
eles, a emergência do hiperterrorismo, ou seja, do terrorismo mundializado,
acobertado por "nações delinqüentes" ("rogue nations")
e provido de armas químicas ou bacteriológicas de destruição
maciça, legitima o exercício dos atributos da hiperpotência
americana. Tradicionalmente incorporada ao ideário da esquerda
e dos movimentos nacionalistas ativos em diversos países, a discussão
sobre o imperialismo a palavra usada é essa mesmo
dos Estados Unidos ganhou as páginas dos grandes jornais americanos
e repercutiu entre os historiadores ("All roads lead to D.C.", E. Eakin,
The New York Times, 31 de março de 2002).
Nesse contexto,
seria interessante que nossos presidenciáveis, ariscos ao debate
sobre a política externa, abordassem de chofre o assunto. Qual
a margem de manobra do eleitor brasileiro às vésperas da
eleição presidencial, qual o destino de nosso país
no século que começa? O imperialismo americano é
bom para o Brasil? No passado recente, Washington apoiou a ditadura brasileira.
O fato foi reconhecido e repudiado pela atual embaixadora dos Estados
Unidos. Numa declaração notável, registrada pelo
jornalista Paulo Sotero (Agência Estado, 28 de março de 2002),
mas pouco comentada na imprensa, Donna J. Hrinak foi bastante clara. Ao
ser empossada no cargo, ainda no salão do Departamento de Estado,
em Washington, ela declarou: "Em particular neste hemisfério, tenho
orgulho de que os Estados Unidos hoje defendam a democracia", e completou,
"nosso histórico, em relação a isso, nem sempre foi
admirável, nossas ações atuais são". Tomara
que sim, senhora embaixadora! Tomara que sim!
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris Sorbonne (lfa@workmail.com)
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