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Edição 1 758 - 3 de julho de 2002
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Luiz Felipe de Alencastro

A hiperpotência

"O imperialismo americano
é bom para o Brasil?"


Ilustração Ale Setti


A pergunta pode parecer extravagante, mas o tema se situa na confluência de duas tendências atuais: a afirmação da hegemonia dos Estados Unidos e a perda de autonomia da política econômica brasileira, na seqüência de um movimento que restringe a soberania das nações nos quatro cantos do mundo.

Os atentados de 11 de setembro acentuaram o unilateralismo – o abandono do recurso às instâncias internacionais – que vinha sendo seguido pelo governo do presidente Bush. Recebendo o apoio de seus aliados para proceder a seu talante, os EUA invadiram o Afeganistão. A ofensiva incluiu soldados, aviação e navios de guerra deslocados de suas bases nos EUA, Japão, Inglaterra, Alemanha, Espanha, Itália. Meio século depois da retirada das forças britânicas que começaram a ser introduzidas na região desde o século XVIII, os EUA fincam pé na Ásia Central. Contando com bases militares encravadas em quarenta países e desfrutando uma influência econômica, política e cultural sem paralelos, os Estados Unidos apresentam-se como a primeira hiperpotência mundial, conforme o termo cunhado pelos especialistas para caracterizar esse estatuto ímpar na história.

Na realidade, depois do desabamento da União Soviética, o poderio internacional dos EUA tomou tamanha dimensão que a análise comparativa perde toda a pertinência. Desde sempre, as superpotências que marcaram a história foram cingidas por outros poderes ou pela impossibilidade de exercer uma política planetária. Na Antiguidade, o poder de Roma conhecia certos limites. Além do mais, na mesma época existiam duas outras grandes potências: o Império Persa e, no extremo oriente, a China. No século XIX, quando o Império Britânico atingiu a supremacia, a França e a Rússia continuaram a representar um contrapeso geopolítico bastante considerável. Ora, o estatuto hegemônico de que se beneficia atualmente os EUA é muito superior ao da Inglaterra oitocentista e ao da Roma antiga. Como escreveu o historiador Paul Kennedy, professor da Universidade Yale, "nunca existiu tal disparidade de poder" no cenário mundial.

Para alguns analistas conservadores americanos, os atentados de 11 de setembro justificam a afirmação ostensiva do poderio dos Estados Unidos. Para eles, a emergência do hiperterrorismo, ou seja, do terrorismo mundializado, acobertado por "nações delinqüentes" ("rogue nations") e provido de armas químicas ou bacteriológicas de destruição maciça, legitima o exercício dos atributos da hiperpotência americana. Tradicionalmente incorporada ao ideário da esquerda e dos movimentos nacionalistas ativos em diversos países, a discussão sobre o imperialismo – a palavra usada é essa mesmo – dos Estados Unidos ganhou as páginas dos grandes jornais americanos e repercutiu entre os historiadores ("All roads lead to D.C.", E. Eakin, The New York Times, 31 de março de 2002).

Nesse contexto, seria interessante que nossos presidenciáveis, ariscos ao debate sobre a política externa, abordassem de chofre o assunto. Qual a margem de manobra do eleitor brasileiro às vésperas da eleição presidencial, qual o destino de nosso país no século que começa? O imperialismo americano é bom para o Brasil? No passado recente, Washington apoiou a ditadura brasileira. O fato foi reconhecido e repudiado pela atual embaixadora dos Estados Unidos. Numa declaração notável, registrada pelo jornalista Paulo Sotero (Agência Estado, 28 de março de 2002), mas pouco comentada na imprensa, Donna J. Hrinak foi bastante clara. Ao ser empossada no cargo, ainda no salão do Departamento de Estado, em Washington, ela declarou: "Em particular neste hemisfério, tenho orgulho de que os Estados Unidos hoje defendam a democracia", e completou, "nosso histórico, em relação a isso, nem sempre foi admirável, nossas ações atuais são". Tomara que sim, senhora embaixadora! Tomara que sim!

 

Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris – Sorbonne (lfa@workmail.com)


 
 
   
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