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Roberto Pompeu de Toledo

O juiz e o goleiro

Ao findar-se a temporada
futebolística, umas linhas
sobre o assombro suscitado
por dois tipos raros

Quando é que alguém se descobre goleiro na vida? Em que encruzilhada se dá essa revelação suprema, essa epifania, de o garoto olhar para dentro de si, enfim conduzido a uma conclusão, ao cabo de longa e penosa auto-investigação, e, iluminado de certezas, confessar a si mesmo: "Nasci para goleiro"? Eis um marco que dali em diante, na vida, dificilmente será suplantado por outro mais importante. É o momento em que o garoto se descobriu diferente. É uma hora da verdade comparável à do adolescente que, numa família de comerciantes, se descobre poeta. Ou à do menino que, na contramão dos colegas, descobre que não gosta de meninas.

Há duas figuras intrigantes num jogo de futebol. Uma é a do goleiro, outra a do juiz. Para começar pelo goleiro, admita-se que nem sempre, talvez nunca, ocorra a situação descrita no parágrafo acima. Não é de um só rasgo, e muito menos de repente, que o garoto se ilumina da certeza de que nasceu para goleiro. Não lhe acomete golpe parecido com a conversão de São Paulo, operada subitamente, numa curva do caminho de Damasco. Isso só acontece com santos, daí para cima. Daí para baixo, as coisas ocorrem no ritmo moroso e prosaico a que se dá o nome de processo. Descobre-se que se é goleiro, assim como se descobre quase tudo na vida, ao fim de uma série de eventos, sensações e percepções que se encadeiam e se acumulam. Em regra, um garoto não vai para o gol por escolha. É para lá mandado pelos outros, porque não é bom na linha. Daí por diante, de duas uma: ou desiste do futebol, se ficar claro que, mesmo no gol, é ruim, ou pode não só se conformar com a situação mas tomar gosto. Aos poucos aprende, treina, se aperfeiçoa e, a folhas tantas, ei-lo goleiro de verdade.

Nem por isso, nem pelo fato de não se dar por revelação divina ou inspiração das musas, a vocação de goleiro é menos espantosa. O goleiro continua sendo um diferente. Enquanto os outros vão com o pé, ele vai com a mão. Enquanto os outros correm, fica parado. Ele é o "do contra" que está lá para impor-se pela negativa. Enquanto os outros tentam fazer, seu ofício é não deixar fazer. Cabe-lhe evitar o gozo, a apoteose, o momento orgástico e libertador que é o gol.

Já se falou muito na solidão do goleiro – não custa falar mais um pouco. Se, numa transmissão de televisão, a câmera se fixasse apenas nele, o tempo todo, o resultado seria o retrato mais cabal e patético da solidão humana. Enquanto os outros, com a liberdade de gado solto no pasto, espraiam-se à vontade pelo gramado, onde se procuram uns aos outros, o adversário para marcar, o companheiro para ajudar, o goleiro, qual vaca no estábulo, permanece preso nos paus. As expressões dos jogadores de linha, captadas pela TV, são ditadas por seus músculos. Elas revelam o esforço, a dor, o cansaço, o alívio. Já a expressão do goleiro, quando a bola está longe, o que ocorre na maior parte do tempo, é ditada por sua alma. Ele está só com sua vocação, só com seu mistério.

Pelo menos, o goleiro ainda pode sair de campo como herói. Isso é impossível para o juiz, nosso outro personagem. Aqui, o caso é ainda mais inextrincável. Como pode alguém querer ser juiz? Como pode gostar de ser juiz? O melhor anúncio de televisão dos últimos tempos mostrava um garotinho mirrado, negro, vestido de preto, apito na boca. Era o Ronaldinho Gaúcho, que, no anúncio, dizia que quando menino queria ser juiz. Certo dia, por acaso, ele chuta uma lata de refrigerante e, graças a esse momento fortuito, proporcionado pelo refrigerante, descobre que é bom mesmo jogando bola, não apitando. Importa-nos o momento entre todos desconcertante em que o menino, de seus 10 ou 12 anos, diz: "Quero ser juiz". Se um dia ocorreu de um menino realmente sentir pulsar dentro de si, arrebatador e irresistível, o apelo da função judicante, no futebol, se um dia surgiu claro em sua mente que, de todos os papéis possíveis, num campo de futebol, o do juiz é o mais desejável, admirável e encantador, eis-nos diante de um fato assombroso.

Os comentaristas de futebol costumam dizer que bom juiz é aquele que não aparece em campo. Pode haver insulto maior a um profissional? O comentarista gostaria de ouvir que bom comentarista é aquele ao qual não se presta atenção? O juiz é isso: um rebotalho que o máximo a que pode aspirar é o insulto de que esteve perfeito ao fazer-se um nada. Um desprezado, um coitado, um molambo que, quando cai nas graças da platéia, é porque atingiu o supremo estágio da virtude, entre os de sua espécie, que é confundir-se com a grama. Compreende-se, sendo assim, que ao juiz, para resgate de sua dignidade, só reste um recurso: roubar. É o momento em que se supera e se redime. Só ficam na memória, marcantes, os juízes ladrões. O momento da ladroagem é aquele em que o juiz põe para fora o sufocado impulso de interferir, de participar, de reclamar para si uma nesga do espetáculo e um registro na história. Nesse instante, o ser humano que grita dentro dele impõe seus direitos.

   
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