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O poder da batuta

A vida (amorosa, inclusive)
dos grandes maestros, em
dois lançamentos saborosos

 
Ag. Estado


"Eu gostaria de satisfazer você como homem da mesma maneira que a satisfaço como músico."
(Carta para Ada Mainardi, amante do maestro por seis anos)

"Minha querida Elsa. Mal posso esperar para transpassá-la como um rio em chamas."
(Carta para Elsa Kurzbauer, esposa do compositor Riccardo Pick-Mangiagalli)

Trechos de As Cartas de
Arturo Toscanini



Veja também
Trechos do livro O Mito do Maestro, de Norman Lebrecht

Numa carta endereçada à amante Ada Mainardi, em 1936, o maestro italiano Arturo Toscanini (1867-1957) discorreu sobre a vida de um de seus ídolos, o compositor Giuseppe Verdi, e defendeu a idéia de que a intimidade de um músico deveria ficar protegida dos bisbilhoteiros. "Por que meter o nariz na alcova alheia? Julguemos o homem e o artista, mas paremos na soleira de seu quarto", disse ele. Enquanto viveu, Toscanini fez de tudo para que esse critério fosse usado em relação a si próprio. Recusava-se a dar entrevistas, não colaborava de maneira nenhuma com pessoas que desejavam escrever sobre ele, procurava manter à sombra tudo que tivesse a ver com sua privacidade. Esse esforço, no entanto, caiu de vez por terra, graças ao lançamento do livro The Letters of Arturo Toscanini (As Cartas de Arturo Toscanini). Editado pelo escritor americano Harvey Sachs, autor de uma biografia do maestro na década de 70, o livro reúne mais de 1.000 documentos inéditos, que lançam uma nova luz sobre essa personalidade ímpar.

As cartas escritas por Toscanini são valiosas por ressaltar suas opiniões estéticas e sua corajosa e intransigente luta política contra o fascismo. Elas proporcionam insights sobre sua personalidade, marcada sobretudo por uma raiva titânica. Registram, ainda, episódios curiosos. Exemplo: do Rio de Janeiro, onde estreou como regente aos 19 anos, ele escreve a um amigo suplicando por um empréstimo. Mas o prato mais forte são mesmo as cartas amorosas de Toscanini, que não raro beiravam a pornografia. A principal destinatária dessas cartas foi a já citada Ada Mainardi, com quem Toscanini manteve um caso por seis anos. Na mais reveladora delas, o maestro tece loas ao sexo oral – aproveitando para revelar que Verdi também era adepto dessa prática. Segundo Harvey Sachs, conhecer detalhes tão vívidos da sexualidade de Toscanini ajuda, sim, a entender melhor o seu trabalho de regente. "Sua vida amorosa sem peias é um exemplo da mesma vitalidade que tornava todo ensaio de orquestra e toda apresentação um caso de vida ou morte para ele", diz Sachs.

 
Deutsche Grammophon


"Herbert von Karajan compartilhava traços típicos de Hitler: notável capacidade de concentração, dedicação absoluta a metas de médio prazo e uma assexualidade ascética que atraía tanto mulheres quanto homens."

"Uma simbiose de inseminação intelectual e emocional definia suas relações com os músicos, poucos dos quais emergiam intocados de seus ensaios. No êxtase da realização, Leonard Bernstein beijava músicos de ambos os sexos nos lábios e usava sua atração sexual para curvá-los à sua vontade musical."

Trechos de O Mito do Maestro

Se vivesse hoje em dia, o mais provável é que Toscanini se visse obrigado a revelar, e não a esconder, suas proezas. Ao menos é o que sugere um outro excelente livro sobre o mundo da música que acaba de sair no Brasil. Escrito pelo crítico inglês Norman Lebrecht, O Mito do Maestro (tradução de Maria Luiza Borges; Civilização Brasileira; 574 páginas; 50 reais) é uma análise impiedosa do mundo da música clássica, que dá origem a esses personagens curiosos – os regentes. A tese central de Lebrecht é que "o grande maestro" se tornou, em parte, uma figura artificialmente criada, com o propósito de atrair ouvintes às salas de concertos. Uma vida sexual agitada pode ser, assim, um trunfo de marketing tão bom quanto rompantes de estrelismo ou penteados excêntricos. O Mito do Maestro está recheado de histórias picantes sobre o que regentes famosos do século XX, de Herbert von Karajan a Leonard Bernstein, faziam sob os lençóis. "Ser maestro significa ter poder. Inclusive para assediar sexualmente seus músicos", sentencia o autor.

   
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