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Edição 1 758 - 3 de julho de 2002
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A coreógrafa que voa alto

Antes espinafrada pelos críticos, a
carioca Deborah Colker conquista
o mundo com seus shows de dança contemporânea

Lucila Soares

 
Marco A. Rezende
Flavio Colker

Deborah e seu novo espetáculo, 4 por 4: movimentos frenéticos entre os vasos



Veja também
Fotos do espetáculo
4 por 4
Da internet
Site oficial da Cia.
Deborah Colker

No início de junho, a carioca Deborah Colker passou a fazer parte de um seletíssimo grupo no panorama da dança mundial. Com mais onze coreógrafos e diretores, escolhidos em outros países, ela decidirá a programação do Bite, o grande evento de vanguarda que toma conta durante 22 semanas por ano do Barbican Centre, em Londres, um dos teatros mais importantes da Europa. O convite consagra o talento dessa loira espevitada de 40 anos, que usa de ironia para comentar o feito. "É curioso. Aqui ninguém me chama para nada relacionado à dança", diz Deborah, cujo novo trabalho, 4 por 4, estréia no Rio de Janeiro na próxima quinta-feira e chega a São Paulo no dia 10.

A queixa já foi mais justificada. Os primeiros espetáculos de sua companhia conquistaram um público fiel, hipnotizado pela ousadia de coreografias em que os bailarinos escalam paredes, equilibram-se sobre estruturas móveis, atiram-se no vazio. Mas não mereceram da academia nem sequer o reconhecimento na categoria dança – embora trilhassem o caminho aberto no pós-guerra por gente mais que consagrada, como a coreógrafa alemã Pina Bausch. "Isso é, no máximo, ginástica", dizia, por exemplo, Tatiana Leskova, responsável pela formação de várias gerações de bailarinas brasileiras. Hoje, a realidade é outra. Madame Tatiana dá aulas aos bailarinos da companhia de Deborah e desmancha-se em elogios. "Ela conseguiu juntar a academia e o público", diz. As restrições do pessoal da tradição foram postas de lado definitivamente no ano passado, quando Deborah arrebatou o prêmio Laurence Olivier, uma espécie de Oscar europeu das artes cênicas. Antes dela, foram agraciados coreógrafos como o checo Jirí Kylián, que catapultou o Nederlands Dans Theater ao olimpo da dança mundial, e o americano William Forsythe, diretor do legendário Balé de Frankfurt.

É uma conquista e tanto para uma companhia jovem, criada há apenas oito anos, que só encontra paralelo no panorama da dança brasileira no veteraníssimo Grupo Corpo – na estrada há quase trinta anos. Os bailarinos do grupo de Deborah têm origens variadas. Um é ex-dançarino de rua, outro um russo que fugiu do caos em que se afundou seu país depois do fim da União Soviética e chegou a trabalhar como entregador de pizza em São Paulo. Há também gente que trocou com alegria uma promissora carreira clássica pelas travessuras coreográficas da companhia de Deborah. Esse grupo, de dezessete bailarinos, tem carteira assinada, plano de saúde e um salário fixo de 2.000 reais por mês – mais que o pago, por exemplo, pelo Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Eles contam, ainda, com participação na bilheteria.

 
Fotos Flavio Colker

Encenações ousadas da coreógrafa: tinha gente que torcia o nariz, por achar que parecia ginástica

Todos enfrentam uma rotina estafante. São pelo menos sete horas de ensaios por dia, comandados com mão de ferro por Deborah, que não admite atrasos. Nem poderia. Só à custa de muita disciplina ela consegue conciliar a agenda de ensaios e espetáculos com a vida familiar. É mãe de dois filhos, Clara (18 anos) e Miguel (15), e dona de cinco cachorros. O trabalho é duro, mas o desavisado que cruzar com a trupe durante uma excursão pode achar que caiu no set de um filme do tipo Priscilla – A Rainha do Deserto, tamanha a bagunça que impera entre os bailarinos. É uma alegria que se reflete no palco. "Ela faz a dança voltar a ser diversão", registrou o crítico da revista inglesa Time Out.

A companhia já percorreu milhares de quilômetros de ônibus pelo interior do país e perdeu a conta das milhas que voou. Seus cinco espetáculos foram assistidos por um público superior a 500.000 pessoas e arrancaram elogios rasgados nos onze países em que foram encenados. Em 4 por 4, Deborah incorporou à dança o mundo das artes plásticas. Como em geral ocorre em seus trabalhos, o público é mantido com a respiração tensa em alguns números. Um dos melhores é Vasos, no qual a trupe desliza em meio a dezenas de recipientes que podem se quebrar a qualquer momento. Por essas e outras, Deborah já não se espanta com o elogio que escuta com mais freqüência: "Gostei muito do seu show". É que é show mesmo. Mas de dança.

   
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