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Mutações
radicais
Algo não soa bem naquele álbum
clássico? Basta gravar por cima,
dizem os produtores

Sérgio Martins
Fernando Pimentel
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| Elis
Regina: Como Nossos Pais ganhou baterista diferente do da versão
original |
Poucos
bateristas, na história do rock, foram mais limitados do que Ringo
Starr. Suponhamos, então, que um produtor audacioso resolvesse
melhorar os discos dos Beatles, remixando os originais e contratando um
virtuose das baquetas para refazer o batuque de Ringo. Não é
difícil imaginar o que se seguiria: uma encarniçada disputa
jurídica em torno dos milionários royalties de execução
dos Beatles. Isso porque, quando as músicas modificadas tocassem
no rádio, Ringo não teria direito a ganhar nada. Haveria
também uma interminável discussão sobre a conveniência
de mexer dessa maneira em gravações clássicas. Pois
bem. Guardadas as proporções, remixagens desse tipo começam
agora a ser feitas, inclusive no Brasil. A gravadora Universal, por exemplo,
estuda usar esse recurso em discos de Elis Regina. Nos Estados Unidos,
o roqueiro Ozzy Osbourne relançou recentemente seus dois primeiros
trabalhos-solo, eliminando as participações de músicos
que tocavam com ele naquela época.
Em meados do ano passado, a gravadora Universal decidiu dar uma recauchutada
no catálogo de Elis Regina. As músicas passariam por um
processo de remasterização e remixagem que as tornaria compatíveis
com aparelhos de DVD Audio, muito mais sensíveis e potentes do
que o velho estéreo. Como primeiro passo nesse processo, a companhia
idealizou uma coletânea com catorze faixas célebres de Elis.
Como Nossos Pais foi eleita para experiências. A certa altura,
o engenheiro responsável achou que o som de bateria da gravação
não estava muito bom. Chamou Maguinho, o baterista da dupla sertaneja
Chitãozinho & Xororó, e pediu que ele consertasse o
trabalho feito em 1976 por Nenê. Quando descobriu o que estava acontecendo,
César Camargo Mariano, ex-marido de Elis Regina e produtor de boa
parte da discografia da cantora, subiu nas tamancas e vetou a ousadia.
"Foi apenas uma demo", desconversa Max Pierre, diretor artístico
da companhia. Por via das dúvidas, os herdeiros de Elis Regina
resolveram ficar de olho no projeto de reedição de seus
discos. João Marcello Bôscoli, produtor musical e filho da
cantora, foi destacado para a tarefa.
Nos Estados Unidos, alterações como essas vêm provocando
imbróglios jurídicos. Em 1995, o produtor Alan Douglas,
que detinha o espólio do guitarrista Jimi Hendrix, achou que estava
na hora de modernizar o som do músico. Substituiu o baterista das
gravações originais por um profissional de estúdio.
A intervenção de Douglas ajudou a família do músico
a recuperar na Justiça os direitos sobre a obra de Hendrix. A história
de Ozzy Osbourne é mais recente. O roqueiro inglês estava
sendo processado pelos baixistas e pelos bateristas que tocaram nos dois
primeiros álbuns-solo do artista. Para castigá-los, decidiu
simplesmente apagar suas participações em Blizzard of
Ozz e Diary of a Madman, relançados há pouco,
e substituí-los por músicos de seu grupo atual. Esse gesto
levou a uma nova ação legal, ainda em andamento, a respeito
dos royalties de execução das músicas e de vendagem
dos discos. Nesse caso, claro, ninguém está ligando muito
para as questões artísticas.
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