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Edição 1 758 - 3 de julho de 2002
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Mutações radicais

Algo não soa bem naquele álbum
clássico? Basta gravar por cima,
dizem os produtores

Sérgio Martins

 
Fernando Pimentel
Elis Regina: Como Nossos Pais ganhou baterista diferente do da versão original

Poucos bateristas, na história do rock, foram mais limitados do que Ringo Starr. Suponhamos, então, que um produtor audacioso resolvesse melhorar os discos dos Beatles, remixando os originais e contratando um virtuose das baquetas para refazer o batuque de Ringo. Não é difícil imaginar o que se seguiria: uma encarniçada disputa jurídica em torno dos milionários royalties de execução dos Beatles. Isso porque, quando as músicas modificadas tocassem no rádio, Ringo não teria direito a ganhar nada. Haveria também uma interminável discussão sobre a conveniência de mexer dessa maneira em gravações clássicas. Pois bem. Guardadas as proporções, remixagens desse tipo começam agora a ser feitas, inclusive no Brasil. A gravadora Universal, por exemplo, estuda usar esse recurso em discos de Elis Regina. Nos Estados Unidos, o roqueiro Ozzy Osbourne relançou recentemente seus dois primeiros trabalhos-solo, eliminando as participações de músicos que tocavam com ele naquela época.

Em meados do ano passado, a gravadora Universal decidiu dar uma recauchutada no catálogo de Elis Regina. As músicas passariam por um processo de remasterização e remixagem que as tornaria compatíveis com aparelhos de DVD Audio, muito mais sensíveis e potentes do que o velho estéreo. Como primeiro passo nesse processo, a companhia idealizou uma coletânea com catorze faixas célebres de Elis. Como Nossos Pais foi eleita para experiências. A certa altura, o engenheiro responsável achou que o som de bateria da gravação não estava muito bom. Chamou Maguinho, o baterista da dupla sertaneja Chitãozinho & Xororó, e pediu que ele consertasse o trabalho feito em 1976 por Nenê. Quando descobriu o que estava acontecendo, César Camargo Mariano, ex-marido de Elis Regina e produtor de boa parte da discografia da cantora, subiu nas tamancas e vetou a ousadia. "Foi apenas uma demo", desconversa Max Pierre, diretor artístico da companhia. Por via das dúvidas, os herdeiros de Elis Regina resolveram ficar de olho no projeto de reedição de seus discos. João Marcello Bôscoli, produtor musical e filho da cantora, foi destacado para a tarefa.

Nos Estados Unidos, alterações como essas vêm provocando imbróglios jurídicos. Em 1995, o produtor Alan Douglas, que detinha o espólio do guitarrista Jimi Hendrix, achou que estava na hora de modernizar o som do músico. Substituiu o baterista das gravações originais por um profissional de estúdio. A intervenção de Douglas ajudou a família do músico a recuperar na Justiça os direitos sobre a obra de Hendrix. A história de Ozzy Osbourne é mais recente. O roqueiro inglês estava sendo processado pelos baixistas e pelos bateristas que tocaram nos dois primeiros álbuns-solo do artista. Para castigá-los, decidiu simplesmente apagar suas participações em Blizzard of Ozz e Diary of a Madman, relançados há pouco, e substituí-los por músicos de seu grupo atual. Esse gesto levou a uma nova ação legal, ainda em andamento, a respeito dos royalties de execução das músicas e de vendagem dos discos. Nesse caso, claro, ninguém está ligando muito para as questões artísticas.

   
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