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Desastres do apito

As teorias conspiratórias falam
em complô para favorecer a
Coréia e o Brasil, mas
os árbitros
erram como nunca porque são
ruins e foram mal escalados

Carlos Maranhão, de Saitama

 
AFP
O árbitro egípcio anula um gol legítimo da Espanha contra a Coréia: incompetęncia


Veja também
Nesta edição
"Brasil 7 x 7 Alemanha"
Os detalhes da final no site Copa 2002

O árbitro incompetente – ou, vá lá na linguagem do torcedor, o árbitro ladrão –, o bandeirinha cego e as pobres mães de suas senhorias são parte tão integrante do futebol como a bola, as redes e o cronômetro. Nesta Copa do Mundo, porém, algumas coisas extrapolaram. Erros do apito provocaram a justificada ira de equipes prejudicadas e interferiram em resultados. Contribuíram tanto para a eliminação da Itália e da Espanha quanto para que a Coréia chegasse às semifinais. Ajudaram também o Brasil a vencer a Turquia na estréia e a Bélgica nas oitavas-de-final. No rol das falhas calamitosas, aparece o gol da Argentina contra a Suécia. Enquanto Ortega se preparava para cobrar o pênalti, o atacante Crespo invadiu a área, acabou apanhando o rebote, depois da defesa do goleiro, e empatou o jogo. "Nem em pelada se permite um negócio desses", diz o ex-árbitro Arnaldo Cezar Coelho, que dirigiu a final da Copa de 1982. "Eu ainda estou estarrecido."

Diante da seqüência de pixotadas, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, veio a público para dizer que considera "um desastre" a atuação dos bandeirinhas e afirmou que não entende os critérios da comissão de arbitragem para escalar juízes e auxiliares. De quem mais, porém, é a responsabilidade? Em sua campanha pela reeleição, Blatter resolveu distribuir agrados, que incluíram recrutar árbitros do Terceiro Mundo dos gramados. Vários deles vieram de países que têm um futebol primário, mas dispõem de votos, caso da Índia, Mali, Uganda, El Salvador e Vanuatu, uma ilha da Oceania, entre outras peculiaridades. Pior que isso, muitos foram escalados para jogos importantes. Um jamaicano apitou Brasil e Bélgica, com um bandeirinha das Ilhas Maldivas. No jogo em que a Espanha teve um dos gols escandalosamente anulado e terminou perdendo nos pênaltis para a Coréia, o trio de arbitragem foi recrutado no Egito, em Uganda e em Trinidad e Tobago.

"No futebol, como na vida, existe uma hierarquia, e por isso os árbitros das grandes potências, como Brasil, Itália, Alemanha, Inglaterra e Argentina, só podem ser melhores que os de Benin", diz o treinador Carlos Alberto Parreira, que trabalha na Copa como observador técnico da Fifa. "É inadmissível que tenham escalado um juiz dos Emirados Árabes para dirigir o jogo de abertura. Nos Emirados, onde trabalhei, o futebol é amador e os jogadores, quando fazem falta, se beijam para pedir desculpas. Como pode existir um bom árbitro num país como esse? Com a idéia de democratizar, a Fifa escolheu juízes de países sem nenhuma tradição, e o resultado foi o que nós vimos." A Fifa teria recebido cerca de 400.000 mensagens de protesto enviadas por torcedores, segundo o jornal International Herald Tribune. A RAI, rede estatal italiana de televisão, anunciou sua disposição de processar a Fifa por perda de lucros. "Mesmo se marcássemos três, quatro ou cinco gols seríamos derrotados", afirmou o presidente da federação espanhola de futebol, Angel Villar, que anunciou sua demissão do comitê de arbitragens da Fifa, do qual faz parte o brasileiro Ricardo Teixeira. "Aconteceram um ou dois erros graves nesta competição, mas os árbitros são seres humanos, que cometem falhas", disse Keith Cooper, diretor de comunicações da Fifa.

"As barbaridades foram de dois tipos", analisa Arnaldo Cezar Coelho. "O gol anulado da Bélgica contra o Brasil e a expulsão de Totti, no jogo da Itália com a Coréia, são fruto de erros de interpretação, ou seja, a marcação dependia de um julgamento feito na hora", aponta. "Mas no pênalti que deu a vitória brasileira diante da Turquia, na verdade uma falta cometida fora da área, e no gol anulado da Espanha, com a alegação de que a bola saíra antes do cruzamento, o que não aconteceu, os erros foram causados pela ruindade dos árbitros e bandeirinhas." Diante de tudo isso, como é natural num esporte movido pela paixão, logo surgiram teorias conspiratórias. Seriam manobras orquestradas nos bastidores para beneficiar a Coréia, um dos países anfitriões, e o Brasil, que apoiou fortemente Blatter em suas duas eleições. Esses boatos sobre arranjos são recorrentes no futebol e já serviram para explicar, em Copas anteriores, a conquista da Inglaterra em 1966 (em um dos gols da decisão a bola realmente não entrou), a eliminação do Brasil em 1978 (graças a uma goleada da Argentina em cima do Peru) ou a derrota brasileira em 1998 (textos delirantes ainda circulam pela internet afirmando que a Nike teria forçado a escalação de Ronaldo). Nesses e em outros casos, mesmo quando o juiz pisou na bola, o goleiro tomou frangos e o craque não fez nada em campo, jamais surgiram provas ou mesmo indícios de dolo.

"Houve erros, não desonestidade", diz Parreira. "A Itália foi derrotada pela Coréia porque desperdiçou duas chances concretas de marcar. Se houve complô, por que ninguém ajudou o Japão? Em qualquer competição, o time da casa sempre tem certo favorecimento. Na dúvida, juiz nenhum decide a favor do visitante", acrescenta. "Faça-me um favor", escreveu o colunista Simon Barnes, do jornal inglês The Times. "A Coréia foi beneficiada, mas isso não é conspiração. Vieri perdeu um gol feito para a Itália, e isso também não é conspiração. É incompetência. Se você escala maus juízes, você terá más arbitragens."

   
 
   
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