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Desastres
do apito
As teorias conspiratórias falam
em complô para favorecer a
Coréia e o Brasil, mas
os árbitros
erram como nunca porque são
ruins e foram mal escalados
Carlos Maranhão, de Saitama
AFP
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| O
árbitro egípcio anula um gol legítimo da Espanha contra a Coréia:
incompetęncia |

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O
árbitro incompetente ou, vá lá na linguagem
do torcedor, o árbitro ladrão , o bandeirinha cego
e as pobres mães de suas senhorias são parte tão
integrante do futebol como a bola, as redes e o cronômetro. Nesta
Copa do Mundo, porém, algumas coisas extrapolaram. Erros do apito
provocaram a justificada ira de equipes prejudicadas e interferiram em
resultados. Contribuíram tanto para a eliminação
da Itália e da Espanha quanto para que a Coréia chegasse
às semifinais. Ajudaram também o Brasil a vencer a Turquia
na estréia e a Bélgica nas oitavas-de-final. No rol das
falhas calamitosas, aparece o gol da Argentina contra a Suécia.
Enquanto Ortega se preparava para cobrar o pênalti, o atacante Crespo
invadiu a área, acabou apanhando o rebote, depois da defesa do
goleiro, e empatou o jogo. "Nem em pelada se permite um negócio
desses", diz o ex-árbitro Arnaldo Cezar Coelho, que dirigiu a final
da Copa de 1982. "Eu ainda estou estarrecido."
Diante da seqüência de pixotadas, o presidente da Fifa, Joseph
Blatter, veio a público para dizer que considera "um desastre"
a atuação dos bandeirinhas e afirmou que não entende
os critérios da comissão de arbitragem para escalar juízes
e auxiliares. De quem mais, porém, é a responsabilidade?
Em sua campanha pela reeleição, Blatter resolveu distribuir
agrados, que incluíram recrutar árbitros do Terceiro Mundo
dos gramados. Vários deles vieram de países que têm
um futebol primário, mas dispõem de votos, caso da Índia,
Mali, Uganda, El Salvador e Vanuatu, uma ilha da Oceania, entre outras
peculiaridades. Pior que isso, muitos foram escalados para jogos importantes.
Um jamaicano apitou Brasil e Bélgica, com um bandeirinha das Ilhas
Maldivas. No jogo em que a Espanha teve um dos gols escandalosamente anulado
e terminou perdendo nos pênaltis para a Coréia, o trio de
arbitragem foi recrutado no Egito, em Uganda e em Trinidad e Tobago.
"No
futebol, como na vida, existe uma hierarquia, e por isso os árbitros
das grandes potências, como Brasil, Itália, Alemanha, Inglaterra
e Argentina, só podem ser melhores que os de Benin", diz o treinador
Carlos Alberto Parreira, que trabalha na Copa como observador técnico
da Fifa. "É inadmissível que tenham escalado um juiz dos
Emirados Árabes para dirigir o jogo de abertura. Nos Emirados,
onde trabalhei, o futebol é amador e os jogadores, quando fazem
falta, se beijam para pedir desculpas. Como pode existir um bom árbitro
num país como esse? Com a idéia de democratizar, a Fifa
escolheu juízes de países sem nenhuma tradição,
e o resultado foi o que nós vimos." A Fifa teria recebido cerca
de 400.000 mensagens de protesto enviadas por torcedores, segundo o jornal
International Herald Tribune. A RAI, rede estatal italiana de televisão,
anunciou sua disposição de processar a Fifa por perda de
lucros. "Mesmo se marcássemos três, quatro ou cinco gols
seríamos derrotados", afirmou o presidente da federação
espanhola de futebol, Angel Villar, que anunciou sua demissão do
comitê de arbitragens da Fifa, do qual faz parte o brasileiro Ricardo
Teixeira. "Aconteceram um ou dois erros graves nesta competição,
mas os árbitros são seres humanos, que cometem falhas",
disse Keith Cooper, diretor de comunicações da Fifa.
"As
barbaridades foram de dois tipos", analisa Arnaldo Cezar Coelho. "O gol
anulado da Bélgica contra o Brasil e a expulsão de Totti,
no jogo da Itália com a Coréia, são fruto de erros
de interpretação, ou seja, a marcação dependia
de um julgamento feito na hora", aponta. "Mas no pênalti que deu
a vitória brasileira diante da Turquia, na verdade uma falta cometida
fora da área, e no gol anulado da Espanha, com a alegação
de que a bola saíra antes do cruzamento, o que não aconteceu,
os erros foram causados pela ruindade dos árbitros e bandeirinhas."
Diante de tudo isso, como é natural num esporte movido pela paixão,
logo surgiram teorias conspiratórias. Seriam manobras orquestradas
nos bastidores para beneficiar a Coréia, um dos países anfitriões,
e o Brasil, que apoiou fortemente Blatter em suas duas eleições.
Esses boatos sobre arranjos são recorrentes no futebol e já
serviram para explicar, em Copas anteriores, a conquista da Inglaterra
em 1966 (em um dos gols da decisão a bola realmente não
entrou), a eliminação do Brasil em 1978 (graças a
uma goleada da Argentina em cima do Peru) ou a derrota brasileira em 1998
(textos delirantes ainda circulam pela internet afirmando que a Nike teria
forçado a escalação de Ronaldo). Nesses e em outros
casos, mesmo quando o juiz pisou na bola, o goleiro tomou frangos e o
craque não fez nada em campo, jamais surgiram provas ou mesmo indícios
de dolo.
"Houve
erros, não desonestidade", diz Parreira. "A Itália foi derrotada
pela Coréia porque desperdiçou duas chances concretas de
marcar. Se houve complô, por que ninguém ajudou o Japão?
Em qualquer competição, o time da casa sempre tem certo
favorecimento. Na dúvida, juiz nenhum decide a favor do visitante",
acrescenta. "Faça-me um favor", escreveu o colunista Simon Barnes,
do jornal inglês The Times. "A Coréia foi beneficiada,
mas isso não é conspiração. Vieri perdeu um
gol feito para a Itália, e isso também não é
conspiração. É incompetência. Se você
escala maus juízes, você terá más arbitragens."
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