
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Brasil 7 x 7 Alemanha
As duas
seleções já chegaram
catorze vezes às finais da Copa
do
Mundo, mas nunca antes se
haviam encontrado no torneio

Carlos Maranhão,
de Saitama

Veja também |
|
|
|
Basta examinar
o retrospecto de Brasil e Alemanha na história do futebol para
entender por que, neste domingo, eles farão a final mais esperada
de todos os tempos. Observe-se, para começar, o que aconteceu nas
dezesseis Copas anteriores. Em todas elas, com exceção da
primeira, a de 1930, pelo menos um dos dois terminou entre os quatro primeiros
colocados. Se olharmos os Mundiais do pós-guerra, nos quais o futebol
adquiriu sua feição definitiva, a força de ambos
fica ainda mais nítida. Salvo em 1978, quando a seleção
brasileira terminou em terceiro lugar, invicta, e os alemães caíram
nas quartas-de-final, ou um ou outro chegou à final para decidir
o título. Juntos, ganharam sete campeonatos. Ou seja, 44%. A Itália,
potência que rivaliza com eles em conquistas, esteve antes desta
em catorze Copas, como a Alemanha o Brasil não ficou fora
de nenhuma , mas só foi a cinco finais. Em Yokohama, os canarinhos
farão a sétima. A seleção alemã também.
Reuters
 |
| Ronaldo:
craque brasileiro na ponta da língua dos torcedores alemães
|
Pelo acaso dos sorteios de grupos e cruzamentos, os dois gigantes do gramado
jamais se enfrentaram numa Copa. Em 1974, quando organizaram o torneio,
os alemães deveriam pegar na segunda fase o Brasil, que era então
tricampeão e o detentor do título. Nunca se provou, mas
ficou para sempre a desconfiança de que os donos da casa perderam
para a extinta Alemanha Oriental, numa derrota esquisitíssima,
para escolher os adversários. Os alemães encaram o jogo
com um pragmatismo que beira a irritação. Entram em campo
atrás do resultado e com o olho no regulamento. Se for preciso,
assumem uma conduta antiesportiva. Em 1982, marcaram um gol logo no início
do jogo contra seus meio-irmãos austríacos e os times passaram
o resto da partida tocando a bola, sem atacar. O placar classificou os
dois e eliminou a Argélia no saldo de gols.
Reuters
 |
| Oliver
Kahn: virtudes herdadas de estrelas como Meier e Schumacher |
O Brasil
nunca fez isso. Basta evocar um de seus mais tristes momentos nos gramados,
naquela mesma Copa, em que um empate com a Itália levaria a seleção
de Falcão, Zico e Sócrates à semifinal e, provavelmente,
à primeira decisão com a Alemanha. Sem saber segurar o marcador,
que por três vezes lhe foi favorável, acabou perdendo e foi
eliminada em meio a lágrimas de frustração dos jogadores
e da torcida. Brasil e Alemanha são coisas opostas dentro e fora
do campo. Pense em um craque que vestiu aquela camisa branca. Quase certamente,
o primeiro nome que virá à lembrança é o de
Franz Beckenbauer, um meio-campista incomparável, artesão
da bola, ótimo marcador, criador de jogadas, líder do time
e encarnação perfeita do sentido coletivo do futebol. Foi
campeão mundial como atleta e como treinador. Pense em outro. Talvez
surja na memória a onipresença do grande Matthaus, que participou
de 25 jogos entre as Copas de 1982 e 1998, um recorde absoluto. A partir
daí, as estrelas germânicas só virão à
luz em conversas de especialistas, que falarão das virtudes dos
goleiros Meier e Schumacher, dos artilheiros Uwe Seeler, Gerd Müller
e Rummenigge, do capitão de 1954 Fritz Walter, que morreu no último
dia 17 reverenciado como um herói que ajudou a devolver a auto-estima
ao povo alemão depois da II Guerra. Talvez um fanático saiba
discorrer sobre a saga do lateral Breitner, maoísta de carteirinha
que era um infalível cobrador de pênaltis. Diz a lenda que
perdeu somente dois em sua carreira. Foram defendidos pelo goleiro Valdir
Peres, num amistoso disputado em maio de 1981.
AFP
 |
| O
goleador Klose, da Alemanha: preparo físico, competitividade
e futebol sem firulas |
Faça-se a mesma pergunta em relação aos astros do
Brasil a um torcedor alemão e, além dos óbvios Pelé
e Garrincha, ele desfilará os nomes que repetimos de cor, desde
Jairzinho e Rivelino até Ronaldo e Rivaldo. Mas pense-se agora
em táticas bem armadas, em preparo físico, em força,
em competitividade, em futebol feio, sem firulas, com determinação,
que busca a vitória ou o empate, não o espetáculo,
e pronto. Eis a Alemanha do goleador Klose, do soberbo goleirão
Oliver Kahn, do técnico Rudi Völler e do habilidoso Ballack,
que estará ausente da decisão por ter recebido novo cartão
amarelo na semifinal de terça-feira contra a Coréia.
"Se estiverem
juntos numa pista de dança, os casais brasileiros serão
visivelmente mais elegantes que os alemães", disse a VEJA Franz
Beckenbauer. "Essa comparação, feita por meu antigo companheiro
de seleção Berti Vogts, vale para o futebol. O Brasil tem
técnica, criatividade e movimentação. A Alemanha
tem espírito de luta e dedicação. Essa é a
grande diferença." Com as armas da tenacidade, os alemães
estrearam na Copa goleando a Arábia Saudita por 8 a 0 e logo trataram
de jogar para o gasto. Empataram com a Irlanda, venceram Camarões
e passaram pelos três jogos eliminatórios com vitórias
de 1 a 0. Quando se percebeu, estavam na final e haviam sofrido apenas
um gol.
O Brasil
trilhou um caminho diverso. Pegou um grupo mais fácil, em que recebeu
de presente a China e a Costa Rica, mais a Turquia, que parecia uma moleza,
mas não era. Os turcos cresceram nas partidas seguintes, revelaram
virtudes insuspeitadas e foram à semifinal. Em sua arrancada, os
tetracampeões venceram os três antes de passar à fase
do mata-mata, em que eliminaram sucessivamente a Bélgica, com dificuldade,
e a Inglaterra, na base da categoria misturada a momentos de superação
quando se viram reduzidos a dez homens. Ao contrário do que aconteceu
com a Alemanha, não foram o esquema de jogo nem a força
física que impulsionaram a seleção brasileira. Foi
o talento de suas três peças-chave, Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho,
aos quais se somariam o goleiro Marcos, o lateral Roberto Carlos e o volante
Gilberto Silva.
Na quarta-feira,
ao se defrontar novamente com a Turquia, em Saitama, o Brasil alcançou
sua façanha mais importante. Ganhou por 1 a 0, com um gol sofrido
que Ronaldo marcou de bico aos 4 minutos da etapa final por curiosa
coincidência, o mesmo tempo de jogo em que empatara a primeira partida
, e assegurou assim sua ida à terceira final consecutiva,
depois das Copas dos Estados Unidos e da França. Outra vez os gigantes
se igualam. A Alemanha era a única seleção que obtivera
tal proeza, nos Mundiais de 1982, 1986 e 1990.
Há
um ponto de convergência nas circunstâncias que cercam suas
campanhas. Apesar das glórias históricas que carregam, Brasil
e Alemanha viajaram para a Ásia cercados de descrédito.
"Eu e o Völler estávamos com a corda no pescoço", diz
o técnico Luiz Felipe Scolari, referindo-se à trajetória
das duas seleções nas eliminatórias. Seu time classificou-se
com seis derrotas e o de seu colega, após ser goleado em casa pela
Inglaterra por 5 a 1, arrancou a vaga na repescagem. Por causa disso,
os alemães nem apareciam entre os favoritos. Eram praticamente
uma zebra. Os brasileiros, nas bolsas de aposta, estavam atrás
da Argentina e da França. "Quando conversamos a respeito na cerimônia
do sorteio dos grupos, na Coréia, eu disse para ele que ainda nos
encontraríamos na final", gaba-se Felipão, que tem acertado
suas previsões. Acreditou que estaria entre os semifinalistas e
jogou suas fichas na recuperação da dupla Ronaldo-Rivaldo,
que se tornou, com os onze gols já marcados, a sensação
da competição. "Seis vitórias em uma Copa do Mundo
não é algo fácil. Vamos buscar a sétima",
diz Rivaldo. "Meu pesadelo terminou. Ganhando ou perdendo, minha vitória
foi voltar a jogar futebol", comemorou Ronaldo. "Toda esta Copa tem sido
para mim uma superação, jogo a jogo."
Por linhas
tortas, o Brasil foi se ajustando no decorrer da competição.
Não tinha uma estratégia definida, e encontrou uma solução
nas arrancadas de Ronaldo e nos arremates precisos de Rivaldo. Estava
com a defesa esburacada, e aos poucos corrigiu as falhas mais gritantes
de marcação. A cada partida, Felipão inventa um esquema.
Para enfrentar pela segunda vez a Turquia sem Ronaldinho Gaúcho,
treinou com Juninho Paulista e Denilson. No fim, escalou Edilson. Dos
23 convocados, faltam entrar em campo os goleiros reservas. Nesse vai-e-vem,
a seleção ganhou confiança, empolgou os torcedores
e deu o último passo em direção ao pódio.
Numa Copa marcada por tantas surpresas, os gigantes souberam finalmente
se impor. Vão decidi-la porque, na reta de chegada, mostraram que
foram os melhores.
|
|
 |
|
 |

|
 |