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Brasil 7 x 7 Alemanha

As duas seleções já chegaram
catorze vezes às finais da Copa
do Mundo, mas nunca antes se
haviam encontrado no torneio

Carlos Maranhão, de Saitama


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Nesta edição
"Desastres do apito"
Os detalhes da final no site Copa 2002

Basta examinar o retrospecto de Brasil e Alemanha na história do futebol para entender por que, neste domingo, eles farão a final mais esperada de todos os tempos. Observe-se, para começar, o que aconteceu nas dezesseis Copas anteriores. Em todas elas, com exceção da primeira, a de 1930, pelo menos um dos dois terminou entre os quatro primeiros colocados. Se olharmos os Mundiais do pós-guerra, nos quais o futebol adquiriu sua feição definitiva, a força de ambos fica ainda mais nítida. Salvo em 1978, quando a seleção brasileira terminou em terceiro lugar, invicta, e os alemães caíram nas quartas-de-final, ou um ou outro chegou à final para decidir o título. Juntos, ganharam sete campeonatos. Ou seja, 44%. A Itália, potência que rivaliza com eles em conquistas, esteve antes desta em catorze Copas, como a Alemanha – o Brasil não ficou fora de nenhuma –, mas só foi a cinco finais. Em Yokohama, os canarinhos farão a sétima. A seleção alemã também.

Reuters
Ronaldo: craque brasileiro na ponta da língua dos torcedores alemães


Pelo acaso dos sorteios de grupos e cruzamentos, os dois gigantes do gramado jamais se enfrentaram numa Copa. Em 1974, quando organizaram o torneio, os alemães deveriam pegar na segunda fase o Brasil, que era então tricampeão e o detentor do título. Nunca se provou, mas ficou para sempre a desconfiança de que os donos da casa perderam para a extinta Alemanha Oriental, numa derrota esquisitíssima, para escolher os adversários. Os alemães encaram o jogo com um pragmatismo que beira a irritação. Entram em campo atrás do resultado e com o olho no regulamento. Se for preciso, assumem uma conduta antiesportiva. Em 1982, marcaram um gol logo no início do jogo contra seus meio-irmãos austríacos e os times passaram o resto da partida tocando a bola, sem atacar. O placar classificou os dois e eliminou a Argélia no saldo de gols.

 
Reuters
Oliver Kahn: virtudes herdadas de estrelas como Meier e Schumacher

O Brasil nunca fez isso. Basta evocar um de seus mais tristes momentos nos gramados, naquela mesma Copa, em que um empate com a Itália levaria a seleção de Falcão, Zico e Sócrates à semifinal e, provavelmente, à primeira decisão com a Alemanha. Sem saber segurar o marcador, que por três vezes lhe foi favorável, acabou perdendo e foi eliminada em meio a lágrimas de frustração dos jogadores e da torcida. Brasil e Alemanha são coisas opostas dentro e fora do campo. Pense em um craque que vestiu aquela camisa branca. Quase certamente, o primeiro nome que virá à lembrança é o de Franz Beckenbauer, um meio-campista incomparável, artesão da bola, ótimo marcador, criador de jogadas, líder do time e encarnação perfeita do sentido coletivo do futebol. Foi campeão mundial como atleta e como treinador. Pense em outro. Talvez surja na memória a onipresença do grande Matthaus, que participou de 25 jogos entre as Copas de 1982 e 1998, um recorde absoluto. A partir daí, as estrelas germânicas só virão à luz em conversas de especialistas, que falarão das virtudes dos goleiros Meier e Schumacher, dos artilheiros Uwe Seeler, Gerd Müller e Rummenigge, do capitão de 1954 Fritz Walter, que morreu no último dia 17 reverenciado como um herói que ajudou a devolver a auto-estima ao povo alemão depois da II Guerra. Talvez um fanático saiba discorrer sobre a saga do lateral Breitner, maoísta de carteirinha que era um infalível cobrador de pênaltis. Diz a lenda que perdeu somente dois em sua carreira. Foram defendidos pelo goleiro Valdir Peres, num amistoso disputado em maio de 1981.

AFP
O goleador Klose, da Alemanha: preparo físico, competitividade e futebol sem firulas


Faça-se a mesma pergunta em relação aos astros do Brasil a um torcedor alemão e, além dos óbvios Pelé e Garrincha, ele desfilará os nomes que repetimos de cor, desde Jairzinho e Rivelino até Ronaldo e Rivaldo. Mas pense-se agora em táticas bem armadas, em preparo físico, em força, em competitividade, em futebol feio, sem firulas, com determinação, que busca a vitória ou o empate, não o espetáculo, e pronto. Eis a Alemanha do goleador Klose, do soberbo goleirão Oliver Kahn, do técnico Rudi Völler e do habilidoso Ballack, que estará ausente da decisão por ter recebido novo cartão amarelo na semifinal de terça-feira contra a Coréia.

"Se estiverem juntos numa pista de dança, os casais brasileiros serão visivelmente mais elegantes que os alemães", disse a VEJA Franz Beckenbauer. "Essa comparação, feita por meu antigo companheiro de seleção Berti Vogts, vale para o futebol. O Brasil tem técnica, criatividade e movimentação. A Alemanha tem espírito de luta e dedicação. Essa é a grande diferença." Com as armas da tenacidade, os alemães estrearam na Copa goleando a Arábia Saudita por 8 a 0 e logo trataram de jogar para o gasto. Empataram com a Irlanda, venceram Camarões e passaram pelos três jogos eliminatórios com vitórias de 1 a 0. Quando se percebeu, estavam na final e haviam sofrido apenas um gol.

O Brasil trilhou um caminho diverso. Pegou um grupo mais fácil, em que recebeu de presente a China e a Costa Rica, mais a Turquia, que parecia uma moleza, mas não era. Os turcos cresceram nas partidas seguintes, revelaram virtudes insuspeitadas e foram à semifinal. Em sua arrancada, os tetracampeões venceram os três antes de passar à fase do mata-mata, em que eliminaram sucessivamente a Bélgica, com dificuldade, e a Inglaterra, na base da categoria misturada a momentos de superação quando se viram reduzidos a dez homens. Ao contrário do que aconteceu com a Alemanha, não foram o esquema de jogo nem a força física que impulsionaram a seleção brasileira. Foi o talento de suas três peças-chave, Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho, aos quais se somariam o goleiro Marcos, o lateral Roberto Carlos e o volante Gilberto Silva.

Na quarta-feira, ao se defrontar novamente com a Turquia, em Saitama, o Brasil alcançou sua façanha mais importante. Ganhou por 1 a 0, com um gol sofrido que Ronaldo marcou de bico aos 4 minutos da etapa final – por curiosa coincidência, o mesmo tempo de jogo em que empatara a primeira partida –, e assegurou assim sua ida à terceira final consecutiva, depois das Copas dos Estados Unidos e da França. Outra vez os gigantes se igualam. A Alemanha era a única seleção que obtivera tal proeza, nos Mundiais de 1982, 1986 e 1990.

Há um ponto de convergência nas circunstâncias que cercam suas campanhas. Apesar das glórias históricas que carregam, Brasil e Alemanha viajaram para a Ásia cercados de descrédito. "Eu e o Völler estávamos com a corda no pescoço", diz o técnico Luiz Felipe Scolari, referindo-se à trajetória das duas seleções nas eliminatórias. Seu time classificou-se com seis derrotas e o de seu colega, após ser goleado em casa pela Inglaterra por 5 a 1, arrancou a vaga na repescagem. Por causa disso, os alemães nem apareciam entre os favoritos. Eram praticamente uma zebra. Os brasileiros, nas bolsas de aposta, estavam atrás da Argentina e da França. "Quando conversamos a respeito na cerimônia do sorteio dos grupos, na Coréia, eu disse para ele que ainda nos encontraríamos na final", gaba-se Felipão, que tem acertado suas previsões. Acreditou que estaria entre os semifinalistas e jogou suas fichas na recuperação da dupla Ronaldo-Rivaldo, que se tornou, com os onze gols já marcados, a sensação da competição. "Seis vitórias em uma Copa do Mundo não é algo fácil. Vamos buscar a sétima", diz Rivaldo. "Meu pesadelo terminou. Ganhando ou perdendo, minha vitória foi voltar a jogar futebol", comemorou Ronaldo. "Toda esta Copa tem sido para mim uma superação, jogo a jogo."

Por linhas tortas, o Brasil foi se ajustando no decorrer da competição. Não tinha uma estratégia definida, e encontrou uma solução nas arrancadas de Ronaldo e nos arremates precisos de Rivaldo. Estava com a defesa esburacada, e aos poucos corrigiu as falhas mais gritantes de marcação. A cada partida, Felipão inventa um esquema. Para enfrentar pela segunda vez a Turquia sem Ronaldinho Gaúcho, treinou com Juninho Paulista e Denilson. No fim, escalou Edilson. Dos 23 convocados, faltam entrar em campo os goleiros reservas. Nesse vai-e-vem, a seleção ganhou confiança, empolgou os torcedores e deu o último passo em direção ao pódio. Numa Copa marcada por tantas surpresas, os gigantes souberam finalmente se impor. Vão decidi-la porque, na reta de chegada, mostraram que foram os melhores.

   
 
   
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