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Só faltava isso: tiros
na prefeitura

A ousadia dos bandidos cariocas não
conhece limites. Já o combate ao crime...

Marcelo Carneiro

A criminalidade no Brasil ainda está longe de atingir o nível de terror imposto a países dominados pelo narcotráfico, como a Colômbia. Mas o Rio de Janeiro parece caminhar nessa direção. Um exemplo de que essa é uma possibilidade que não deve ser excluída foi dado na madrugada de segunda-feira passada. Armados de fuzis de guerra e granadas, bandidos metralharam a sede da prefeitura da segunda maior capital do país. A fachada do edifício foi crivada de mais de 200 tiros, e boa parte das balas tinha um endereço certo – o 13º andar do prédio, onde está situado o gabinete do prefeito Cesar Maia. Os disparos contra a prefeitura são a mais escancarada tentativa de intimidação a autoridade constituída já levada a cabo por bandidos na cidade e no país. Mas não a primeira. Em maio, quatro homens em duas motos jogaram bombas e atiraram contra a portaria da Secretaria Estadual de Direitos Humanos, que fica a cerca de 800 metros do Palácio Guanabara, sede do governo.

Os dois episódios estão relacionados. Especialistas em segurança pública são unânimes em apontar a impunidade como a principal causa do descalabro. A violência tende a crescer a cada demonstração de inépcia do poder público. É uma queda-de-braço, na qual os bandidos testam até onde podem ir. O ataque à Secretaria de Direitos Humanos ainda não foi desvendado, assim como outros crimes de repercussão no Rio. Em setembro de 2000, Sidneya de Jesus, diretora de Bangu 1, a maior penitenciária de segurança máxima do país, foi morta quando chegava em casa. Seu trabalho no presídio, onde cortou privilégios dos detentos, contrariava os interesses de alguns dos principais traficantes de drogas do Estado. A polícia nunca chegou aos assassinos. Há duas semanas, uma busca realizada pelo Ministério Público em Bangu 1 mostrou que, de dentro do presídio, traficantes controlavam a venda de drogas e encomendavam até armas de guerra por telefones celulares. Na terça-feira passada, uma nova gravação revelou que, mesmo depois da busca e da apreensão de sete aparelhos, os detentos continuavam a se comunicar com seus comparsas. "Se crimes como a morte de Sidneya tivessem sido desvendados, isso não estaria acontecendo", diz a socióloga Julita Lemgruber, que já comandou o Departamento de Sistema Penitenciário do Rio.

O episódio dos disparos contra a prefeitura obrigou o governo federal a se manifestar. O presidente Fernando Henrique, que estava no Rio, foi até o local dos disparos e posou com cinco cápsulas deflagradas nas mãos. Em seguida, determinou a seus ministros da área de segurança pública o engajamento total em uma força-tarefa contra o crime, em parceria com o governo estadual. A medida veio em um momento delicadíssimo para a governadora Benedita da Silva, que tomou posse há menos de três meses e até agora não conseguiu dizer a que veio na questão mais explosiva de seu mandato. É evidente que ela herdou um campo minado. No entanto, os últimos episódios, entre eles a morte sob tortura do jornalista Tim Lopes, mostram que o Estado perdeu o controle da situação. Benedita nega, dizendo que os atos criminosos são uma reação a operações bem-sucedidas da polícia fluminense. Mas reconhece o óbvio – o Rio vem perdendo a guerra para o tráfico – e admite que precisa de ajuda. "Não tenho problemas em receber críticas. Nenhum governador resolverá sozinho a questão da segurança pública", diz Benedita.

A disposição da governadora e do presidente Fernando Henrique é bem-vinda. Mas até agora o que se viu foi muita conversa e pouca ação. Na quarta-feira passada, além do apoio à força-tarefa, o governo federal lançou um plano de segurança, com dez medidas. É a enésima vez que o Planalto anuncia um pacote desse tipo desde junho de 2000, quando, depois da morte de duas pessoas no seqüestro de um ônibus no Rio, foi lançado com toda a pompa o Plano Nacional de Segurança Pública. No último pacote não há praticamente novidade alguma. Mais uma vez, diante de um novo episódio de brutalidade, volta à baila a discussão sobre estratégias de segurança. O problema é que a situação é de guerra, e numa guerra é preciso estratégia mas também ações imediatas. Na mesma quarta-feira em que o governo brasileiro apresentou seu plano, na Colômbia as Farc, grupo guerrilheiro apoiado por narcotraficantes, convocaram uma entrevista para ameaçar de morte todos os prefeitos e juízes do país. Por aqui, os bandidos ainda não têm tanta ousadia. Mas os tiros contra a prefeitura do Rio são um sinal de alerta.

   
 
   
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