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Nas
barbas do poder
A
elite nacional mostra a
sua cara, e ela tem barbas,
barbinhas e barbonas
Silvia
Rogar
As fotos
que ilustram estas páginas são um choque para quem ainda
acha que barba é sinônimo de contestação política,
petismo renitente, saudosismo incorrigível ou, livre-nos Alá,
simpatia pelo terrorismo de inspiração fundamentalista.
Os personagens aqui retratados são gente conhecida nos escalões
superiores da política e da economia e aparecem com freqüência
nas páginas da imprensa. Vistos isoladamente, não chamam
a atenção. Em conjunto, impressionam pela quantidade e pela
qualidade. Hoje, há mais homens com pêlos no rosto ocupando
gabinetes importantes no país do que organizando protestos de rua.
Essa elite barbuda inclui o presidente do Banco Central, Armínio
Fraga, o presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), Sérgio Besserman, o secretário da Receita Federal,
Everardo Maciel, só para dar alguns exemplos. Entre os ministros,
são quatro: Barjas Negri, da Saúde; Celso Lafer, das Relações
Exteriores; Ronaldo Sardenberg, da Ciência e Tecnologia, e Francisco
Gomide, das Minas e Energia. Há duas semanas, o então advogado-geral
da União, Gilmar Mendes, tomou posse no Supremo Tribunal Federal
(STF) e se tornou o primeiro exemplar com barba entre os onze ministros
da casa. Ao receber os cumprimentos do deputado João Almeida, do
PSDB da Bahia, formou um perfeito par de vasos ou de clones barbudos.
Alan Marques/Folha Imagem

Gilmar
Mendes, novo ministro do Supremo, recebe cumprimentos do deputado
Joćo Almeida: clones barbudos |
Os cultores da barbicha se dividem em subgrupos tem a turma da
PUC do Rio de Janeiro, os ex-integrantes de equipes econômicas,
os pilosos diplomatas do Itamaraty , mas nenhum deles faz o estilo
artista malucão, ex-hippie ou aspirante a Papai Noel. As barbas
da República são desenhadas e aparadas, em geral com muito
cuidado, sem deixar impressão de desleixo. Até Luís
Inácio Lula da Silva, o mais notório barbudo do país,
domou escrupulosamente a sua nesta campanha presidencial. Deu o que falar
porque a mudança foi abrupta: da barba farta, despreocupada, com
aquele inquietante resquício de fidelismo, para o estilo controlado,
do tipo que não faz feio em círculos acadêmicos, embora
ainda tenha gente que se arrepie de imaginá-la no Palácio
do Planalto. A maioria dos figurões é barbuda há
décadas e foi se adequando aos poucos à cartilha atual.
Alexandre Nunes, professor de história da moda da Universidade
Candido Mendes, no Rio, avalia que uma parte deles busca a imagem de maturidade
e responsabilidade associada à barba. "Barba envelhece. Como há
gente mais jovem chegando a cargos estratégicos, eles deixam a
barba crescer para dar seriedade", opina. É justamente esse ar,
digamos, maduro que tem incomodado o presidente do IBGE, Sérgio
Besserman, 45 anos, barbudo de raízes radicais, desde o tempo de
militância comunista na universidade. "Nos últimos cinco
anos, a barba começou a ficar grisalha. Mas, agora, ninguém
me deixa tirar, virou marca", diz.
José Paulo Lacerda/AE
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Dida Sampaio/AE
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Adriana Zebrauskas/
olha Imagem
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Gilvam
Borges, senador (PMDB-AP)
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Armínio
Fraga, presidente do Banco Central
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João
Sayad, secretário de Finanças de São Paulo |
Monica Zaratini/AE
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Dida Sampaio/AE
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AFP
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Martus
Tavares, ex-ministro do Planejamento
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Carlos
Melles, deputado, ex-ministro do Esporte
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José
Maurício Bustani, diplomata
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Dá
a impressão de que o Brasil está com um pé em Cuba
quando se compara o número de barbudos influentes por aqui ao dos
Estados Unidos. Nenhum dos secretários do primeiro escalão
do presidente George W. Bush tem barba. Entre os 461 senadores e deputados
homens do Congresso americano, só oito usam barba menos
de 2%. Em Brasília, são cinco senadores e 55 deputados federais,
ou cerca de 10% do Congresso. "O homem fica mais feio, mas com um charme
natural", gaba-se o senador Gilvam Borges (PMDB-AP), 45 anos, barbudo
desde os 18, legislando em causa própria. Na barbearia do Senado,
que costuma freqüentar, custa apenas 8 reais dar uma aparada no pelame.
Já o deputado e ex-ministro Alberto Goldman, 64 anos, prefere fazer
tudo sozinho. Ele deixou a barba crescer em 1975, desafiando o então
governador de São Paulo, Paulo Egydio Martins, que havia prometido
deixar o Rio Tietê tão limpo que seria possível pescar
em suas águas. Como isso obviamente continua no remoto campo das
esperanças, Goldman se aferra ao tipo barbudão, embora o
passar dos anos tenha alguma influência no tamanho. "Quanto mais
branca ela está, mais curta fica", diz Goldman. Foi também
uma aposta pela emperradíssima venda do Banespa que
fez Armínio Fraga, com seu estilo aparentemente tão anticapilar,
trocar a barba farta por um discreto cavanhaque há três anos.
AFP
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Ana Araujo
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Dilmar Cavalher/Strana
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Celso
Lafer, ministro das Relações
Exteriores
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Raul
Jungman, ex-ministro do Desenvolvimento Agrário
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Sérgio
Besserman, presidente do IBGE
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Ana Araujo
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AE
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Tina Coelho
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Everardo
Maciel, secretário da Receita Federal
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Mauro
Schneider, estrategista do banco ING Barings
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Ronaldo Sardenberg, ministro da Ciência e Tecnologia
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Poder, sabedoria,
status e virilidade são características historicamente associadas
ao rosto coberto de pêlos. A era moderna lançou as barbas
em desuso progressivo, até que ressurgissem como marca de inconformismo
ou protesto, entre as décadas de 60 e 70. Muitos dos atuais barbudos
derivam o costume desse período. Em alguns casos, a barba continua
a ser uma manifestação de rebeldia. No Ministério
das Relações Exteriores, ela se entronizou entre os defensores
da política terceiro-mundista, ainda na época da ditadura
militar. Não saiu mais. Até hoje, é marcante a presença
dos "barbudinhos do Itamaraty", com o atual secretário-geral, Osmar
Chohfi, ou José Maurício Bustani, o diplomata brasileiro
com jeitão iraniano que os americanos sabotaram até arrancar
da Organização para a Proibição das Armas
Químicas. Já o cavanhaque do atual chanceler, Celso Lafer,
é fruto de uma grisalha coincidência: existia muito antes
que ele assumisse o cargo.
Júlio
Rego, consultor de moda masculina da TV Globo e autor do livro Estilo
no Trabalho (que não usa barba, mas já usou), acredita
que o rosto barbado pode ser mais vantajoso, por motivos estéticos
ou práticos. "Vale a pena para quem tem pouco tempo livre e, além
do mais, emagrece rostos muito redondos", analisa. "Uso pela comodidade
mesmo e esteticamente não acho ruim", concorda o ministro Gilmar
Mendes, 46 anos, há vinte com barba e que hoje capricha usando
máquina para apará-la três vezes por semana.
Raul Junior
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Ana Araujo
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José Cordeiro/AE
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Marcel
Telles, presidente da AmBev
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Osmar
Fernandes Dias, senador (PDT-PR)
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Luis
Paulo Rosenberg, da consultoria Rosenberg Associados
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Oscar Cabral
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Joedson Alves/AE
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Vidal Cavalcante/AE
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Andrea
Calabi, ex-presidente do Banco do Brasil
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Alberto
Goldman, deputado, ex-ministro dos Transportes
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Luciano
Coutinho, economista, da LCA Consultores
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