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Edição 1 758 - 3 de julho de 2002
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Nas barbas do poder

A elite nacional mostra a
sua cara, e ela tem barbas,
barbinhas e barbonas

Silvia Rogar

As fotos que ilustram estas páginas são um choque para quem ainda acha que barba é sinônimo de contestação política, petismo renitente, saudosismo incorrigível ou, livre-nos Alá, simpatia pelo terrorismo de inspiração fundamentalista. Os personagens aqui retratados são gente conhecida nos escalões superiores da política e da economia e aparecem com freqüência nas páginas da imprensa. Vistos isoladamente, não chamam a atenção. Em conjunto, impressionam pela quantidade e pela qualidade. Hoje, há mais homens com pêlos no rosto ocupando gabinetes importantes no país do que organizando protestos de rua. Essa elite barbuda inclui o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, o presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Sérgio Besserman, o secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, só para dar alguns exemplos. Entre os ministros, são quatro: Barjas Negri, da Saúde; Celso Lafer, das Relações Exteriores; Ronaldo Sardenberg, da Ciência e Tecnologia, e Francisco Gomide, das Minas e Energia. Há duas semanas, o então advogado-geral da União, Gilmar Mendes, tomou posse no Supremo Tribunal Federal (STF) e se tornou o primeiro exemplar com barba entre os onze ministros da casa. Ao receber os cumprimentos do deputado João Almeida, do PSDB da Bahia, formou um perfeito par de vasos – ou de clones barbudos.


Alan Marques/Folha Imagem

Gilmar Mendes, novo ministro do Supremo, recebe cumprimentos do deputado Joćo Almeida: clones barbudos


Os cultores da barbicha se dividem em subgrupos – tem a turma da PUC do Rio de Janeiro, os ex-integrantes de equipes econômicas, os pilosos diplomatas do Itamaraty –, mas nenhum deles faz o estilo artista malucão, ex-hippie ou aspirante a Papai Noel. As barbas da República são desenhadas e aparadas, em geral com muito cuidado, sem deixar impressão de desleixo. Até Luís Inácio Lula da Silva, o mais notório barbudo do país, domou escrupulosamente a sua nesta campanha presidencial. Deu o que falar porque a mudança foi abrupta: da barba farta, despreocupada, com aquele inquietante resquício de fidelismo, para o estilo controlado, do tipo que não faz feio em círculos acadêmicos, embora ainda tenha gente que se arrepie de imaginá-la no Palácio do Planalto. A maioria dos figurões é barbuda há décadas e foi se adequando aos poucos à cartilha atual. Alexandre Nunes, professor de história da moda da Universidade Candido Mendes, no Rio, avalia que uma parte deles busca a imagem de maturidade e responsabilidade associada à barba. "Barba envelhece. Como há gente mais jovem chegando a cargos estratégicos, eles deixam a barba crescer para dar seriedade", opina. É justamente esse ar, digamos, maduro que tem incomodado o presidente do IBGE, Sérgio Besserman, 45 anos, barbudo de raízes radicais, desde o tempo de militância comunista na universidade. "Nos últimos cinco anos, a barba começou a ficar grisalha. Mas, agora, ninguém me deixa tirar, virou marca", diz.

 
José Paulo Lacerda/AE
Dida Sampaio/AE
Adriana Zebrauskas/
olha Imagem

Gilvam Borges, senador (PMDB-AP)

Armínio Fraga, presidente do Banco Central

João Sayad, secretário de Finanças de São Paulo

Monica Zaratini/AE
Dida Sampaio/AE
AFP

Martus Tavares, ex-ministro do Planejamento

Carlos Melles, deputado, ex-ministro do Esporte

José Maurício Bustani, diplomata

Dá a impressão de que o Brasil está com um pé em Cuba quando se compara o número de barbudos influentes por aqui ao dos Estados Unidos. Nenhum dos secretários do primeiro escalão do presidente George W. Bush tem barba. Entre os 461 senadores e deputados homens do Congresso americano, só oito usam barba – menos de 2%. Em Brasília, são cinco senadores e 55 deputados federais, ou cerca de 10% do Congresso. "O homem fica mais feio, mas com um charme natural", gaba-se o senador Gilvam Borges (PMDB-AP), 45 anos, barbudo desde os 18, legislando em causa própria. Na barbearia do Senado, que costuma freqüentar, custa apenas 8 reais dar uma aparada no pelame. Já o deputado e ex-ministro Alberto Goldman, 64 anos, prefere fazer tudo sozinho. Ele deixou a barba crescer em 1975, desafiando o então governador de São Paulo, Paulo Egydio Martins, que havia prometido deixar o Rio Tietê tão limpo que seria possível pescar em suas águas. Como isso obviamente continua no remoto campo das esperanças, Goldman se aferra ao tipo barbudão, embora o passar dos anos tenha alguma influência no tamanho. "Quanto mais branca ela está, mais curta fica", diz Goldman. Foi também uma aposta – pela emperradíssima venda do Banespa – que fez Armínio Fraga, com seu estilo aparentemente tão anticapilar, trocar a barba farta por um discreto cavanhaque há três anos.


AFP
Ana Araujo
Dilmar Cavalher/Strana

Celso Lafer, ministro das Relações Exteriores

Raul Jungman, ex-ministro do Desenvolvimento Agrário

Sérgio Besserman, presidente do IBGE


Ana Araujo
AE
Tina Coelho

Everardo Maciel, secretário da Receita Federal

Mauro Schneider, estrategista do banco ING Barings

Ronaldo Sardenberg, ministro da Ciência e Tecnologia

Poder, sabedoria, status e virilidade são características historicamente associadas ao rosto coberto de pêlos. A era moderna lançou as barbas em desuso progressivo, até que ressurgissem como marca de inconformismo ou protesto, entre as décadas de 60 e 70. Muitos dos atuais barbudos derivam o costume desse período. Em alguns casos, a barba continua a ser uma manifestação de rebeldia. No Ministério das Relações Exteriores, ela se entronizou entre os defensores da política terceiro-mundista, ainda na época da ditadura militar. Não saiu mais. Até hoje, é marcante a presença dos "barbudinhos do Itamaraty", com o atual secretário-geral, Osmar Chohfi, ou José Maurício Bustani, o diplomata brasileiro com jeitão iraniano que os americanos sabotaram até arrancar da Organização para a Proibição das Armas Químicas. Já o cavanhaque do atual chanceler, Celso Lafer, é fruto de uma grisalha coincidência: existia muito antes que ele assumisse o cargo.

Júlio Rego, consultor de moda masculina da TV Globo e autor do livro Estilo no Trabalho (que não usa barba, mas já usou), acredita que o rosto barbado pode ser mais vantajoso, por motivos estéticos ou práticos. "Vale a pena para quem tem pouco tempo livre e, além do mais, emagrece rostos muito redondos", analisa. "Uso pela comodidade mesmo e esteticamente não acho ruim", concorda o ministro Gilmar Mendes, 46 anos, há vinte com barba e que hoje capricha usando máquina para apará-la três vezes por semana.

 
Raul Junior
Ana Araujo
José Cordeiro/AE

Marcel Telles, presidente da AmBev

Osmar Fernandes Dias, senador (PDT-PR)

Luis Paulo Rosenberg, da consultoria Rosenberg Associados


Oscar Cabral
Joedson Alves/AE
Vidal Cavalcante/AE

Andrea Calabi, ex-presidente do Banco do Brasil

Alberto Goldman, deputado, ex-ministro dos Transportes

Luciano Coutinho, economista, da LCA Consultores



   
 
   
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