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Edição 1 758 - 3 de julho de 2002
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A heroína expande
suas fronteiras

O comércio dessa droga está cada
vez maior. E até o Brasil é mercado

Anna Paula Buchalla

Veja também
O mapa da heroína
Os efeitos das drogas
Dos arquivos de VEJA
Reportagem de 5/6/2002: "Ecstasy para beber"
Reportagem de 25/7/2001: "Vício liberado"
Reportagem da edição especial VEJA Jovens, de 26/9/2001: "Nunca foi tão fácil"
Reportagem de 29/5/2002: "Tá a fim?
— Não, tô fora!"

Uma pesquisa divulgada pela Associação Parceria contra as Drogas mostra que a heroína entrou para o rol dos entorpecentes consumidos no Brasil, ao lado da maconha, da cocaína, do crack, do LSD e do ecstasy. Até pouco tempo atrás, ela nem sequer aparecia nas estatísticas. Os registros policiais também indicam que essa porcaria anda em alta por aqui. Só no primeiro trimestre deste ano, foram apreendidos 13 quilos em território nacional, quase a metade do que foi confiscado em 2001 inteiro. No início de junho, um empresário paulista foi flagrado no momento em que fazia a entrega de 10 gramas da droga a um morador do bairro Cidade Jardim, um dos mais nobres de São Paulo. Foi a primeira apreensão de heroína no mercado varejista brasileiro em quase quinze anos. "Quando o tráfico miúdo começa a ser desvendado, isso significa que a droga já conta com uma quantidade de usuários razoável", afirma o psiquiatra Cláudio Jerônimo da Silva, da Universidade Federal de São Paulo, estudioso do assunto. O número de viciados é relativamente pequeno, mas preocupa as autoridades médicas. Não existe droga mais perigosa do que a heroína. Fabricada a partir do ópio, causa dependência depois de poucas doses, provoca sintomas de abstinência terríveis, e é dificílimo abandoná-la.

O consumo de heroína no Brasil está intimamente ligado ao fato de que ela passou a ser produzida na Colômbia. Ou seja, o acesso ficou bem mais fácil. Os chefões do tráfico do país vizinho resolveram entrar no negócio nos anos 90, quando o preço da cocaína começou a despencar. Há vinte anos, 1 grama de cocaína valia 100 dólares. Hoje, sai por 4 dólares, no máximo. Um grama de heroína, por sua vez, custa atualmente algo em torno de 200 dólares. Esse, digamos, redirecionamento estratégico fez com que a Colômbia se transformasse em pouco tempo num dos maiores produtores de heroína. Cerca de 12% da droga que roda o planeta tem origem colombiana.

A heroína pode ser injetada, fumada ou inalada. A terceira forma é a que está mais na moda, porque não deixa marcas e evita o risco de contaminação pelo vírus da Aids, o HIV. Ao contrário da cocaína, que excita os sentidos e eleva a auto-estima de qualquer energúmeno, a heroína dá uma sensação de torpor e empresta à realidade contornos de sonho, como se não houvesse problemas e a pessoa pairasse acima do bem e do mal. Vários artistas famosos, de diferentes épocas, usaram heroína e se deram mal. Entre eles, Billie Holiday, Chet Baker, Miles Davis, Sid Vicious e Kurt Cobain. Layne Staley, ex-cantor do grupo Alice in Chains, morreu vítima da droga, assim como o ator John Belushi. John Frusciante, guitarrista do Red Hot Chili Peppers, permaneceu quatro anos vagando como mendigo pelas ruas de Los Angeles, antes de se curar do vício. A diferença entre a quantidade necessária para causar algum efeito e a dose fatal é muito pequena – o que explica o número mais elevado de mortes por overdose de heroína.

Em todo o mundo, o narcotráfico movimenta 400 bilhões de dólares anuais. A sua rede conta com uma logística de dar inveja a multinacionais e atende 180 milhões de dependentes. Destes, quase 10 milhões são consumidores de heroína. Com os atentados terroristas de 11 de setembro, em Nova York e Washington, a heroína tornou-se ainda mais atrativa para os traficantes. Isso porque, com o aumento da fiscalização nas fronteiras americanas e européias, ficou mais difícil contrabandear grandes carregamentos de cocaína e outras drogas. A vantagem da heroína é que pequenas quantidades, fáceis de transportar, proporcionam lucros altíssimos.

Os atentados terroristas nos Estados Unidos promoveram, ainda, uma mudança significativa no eixo de produção da heroína. O Afeganistão dos talibãs era o principal berço da droga. Ela servia para financiar o governo fundamentalista e a organização terrorista Al Qaeda, que ali mantinha o seu quartel-general. Os talibãs taxavam desde o plantio da papoula, planta da qual se extrai o ópio, matéria-prima da heroína, até a exportação da substância refinada. Isso lhes rendia cerca de 25 milhões de dólares por ano. A ofensiva americana destruiu a maioria dos campos de papoula e tirou do Afeganistão o título de campeão mundial na produção da droga. Hoje, os grandes produtores estão no Sudeste Asiático. São Mianmar (a antiga Birmânia), Tailândia e Laos, que formam o "triângulo dourado". A arma para combater a heroína nesses países (e um dia, espera-se, será também no Afeganistão e na Colômbia) chama-se desenvolvimento econômico. Na Tailândia, a indústria do turismo está encolhendo as plantações de papoula, com a construção de resorts e a inclusão de áreas inóspitas nos roteiros dos viajantes.

   
 
   
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