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A
heroína expande
suas fronteiras
O comércio
dessa droga está cada
vez maior. E até o Brasil é mercado
Anna Paula
Buchalla

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Uma pesquisa
divulgada pela Associação Parceria contra as Drogas mostra
que a heroína entrou para o rol dos entorpecentes consumidos no
Brasil, ao lado da maconha, da cocaína, do crack, do LSD e do ecstasy.
Até pouco tempo atrás, ela nem sequer aparecia nas estatísticas.
Os registros policiais também indicam que essa porcaria anda em
alta por aqui. Só no primeiro trimestre deste ano, foram apreendidos
13 quilos em território nacional, quase a metade do que foi confiscado
em 2001 inteiro. No início de junho, um empresário paulista
foi flagrado no momento em que fazia a entrega de 10 gramas da droga a
um morador do bairro Cidade Jardim, um dos mais nobres de São Paulo.
Foi a primeira apreensão de heroína no mercado varejista
brasileiro em quase quinze anos. "Quando o tráfico miúdo
começa a ser desvendado, isso significa que a droga já conta
com uma quantidade de usuários razoável", afirma o psiquiatra
Cláudio Jerônimo da Silva, da Universidade Federal de São
Paulo, estudioso do assunto. O número de viciados é relativamente
pequeno, mas preocupa as autoridades médicas. Não existe
droga mais perigosa do que a heroína. Fabricada a partir do ópio,
causa dependência depois de poucas doses, provoca sintomas de abstinência
terríveis, e é dificílimo abandoná-la.
O consumo
de heroína no Brasil está intimamente ligado ao fato de
que ela passou a ser produzida na Colômbia. Ou seja, o acesso ficou
bem mais fácil. Os chefões do tráfico do país
vizinho resolveram entrar no negócio nos anos 90, quando o preço
da cocaína começou a despencar. Há vinte anos, 1
grama de cocaína valia 100 dólares. Hoje, sai por 4 dólares,
no máximo. Um grama de heroína, por sua vez, custa atualmente
algo em torno de 200 dólares. Esse, digamos, redirecionamento estratégico
fez com que a Colômbia se transformasse em pouco tempo num dos maiores
produtores de heroína. Cerca de 12% da droga que roda o planeta
tem origem colombiana.
A heroína
pode ser injetada, fumada ou inalada. A terceira forma é a que
está mais na moda, porque não deixa marcas e evita o risco
de contaminação pelo vírus da Aids, o HIV. Ao contrário
da cocaína, que excita os sentidos e eleva a auto-estima de qualquer
energúmeno, a heroína dá uma sensação
de torpor e empresta à realidade contornos de sonho, como se não
houvesse problemas e a pessoa pairasse acima do bem e do mal. Vários
artistas famosos, de diferentes épocas, usaram heroína e
se deram mal. Entre eles, Billie Holiday, Chet Baker, Miles Davis, Sid
Vicious e Kurt Cobain. Layne Staley, ex-cantor do grupo Alice in Chains,
morreu vítima da droga, assim como o ator John Belushi. John Frusciante,
guitarrista do Red Hot Chili Peppers, permaneceu quatro anos vagando como
mendigo pelas ruas de Los Angeles, antes de se curar do vício.
A diferença entre a quantidade necessária para causar algum
efeito e a dose fatal é muito pequena o que explica o número
mais elevado de mortes por overdose de heroína.
Em todo
o mundo, o narcotráfico movimenta 400 bilhões de dólares
anuais. A sua rede conta com uma logística de dar inveja a multinacionais
e atende 180 milhões de dependentes. Destes, quase 10 milhões
são consumidores de heroína. Com os atentados terroristas
de 11 de setembro, em Nova York e Washington, a heroína tornou-se
ainda mais atrativa para os traficantes. Isso porque, com o aumento da
fiscalização nas fronteiras americanas e européias,
ficou mais difícil contrabandear grandes carregamentos de cocaína
e outras drogas. A vantagem da heroína é que pequenas quantidades,
fáceis de transportar, proporcionam lucros altíssimos.
Os atentados
terroristas nos Estados Unidos promoveram, ainda, uma mudança significativa
no eixo de produção da heroína. O Afeganistão
dos talibãs era o principal berço da droga. Ela servia para
financiar o governo fundamentalista e a organização terrorista
Al Qaeda, que ali mantinha o seu quartel-general. Os talibãs taxavam
desde o plantio da papoula, planta da qual se extrai o ópio, matéria-prima
da heroína, até a exportação da substância
refinada. Isso lhes rendia cerca de 25 milhões de dólares
por ano. A ofensiva americana destruiu a maioria dos campos de papoula
e tirou do Afeganistão o título de campeão mundial
na produção da droga. Hoje, os grandes produtores estão
no Sudeste Asiático. São Mianmar (a antiga Birmânia),
Tailândia e Laos, que formam o "triângulo dourado". A arma
para combater a heroína nesses países (e um dia, espera-se,
será também no Afeganistão e na Colômbia) chama-se
desenvolvimento econômico. Na Tailândia, a indústria
do turismo está encolhendo as plantações de papoula,
com a construção de resorts e a inclusão de áreas
inóspitas nos roteiros dos viajantes.
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