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Tudo sugere
o terceiro confronto
Apesar
do salto de Ciro, o
eleitorado tende a se dividir
entre PT e PSDB de novo

Maurício
Lima
Lula Marques/Folha Imagem
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| Ciro
Gomes, em alta: ele ganhou mais de 300 000 votos por dia no último
mês |

Veja também |
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Desde que
se criou o instituto do segundo turno, em 1989, qualquer eleição
no Brasil provoca sempre uma curiosidade: haverá polarização
entre dois candidatos no primeiro turno ou apenas no segundo? Em 1989,
três candidatos tinham chances reais de chegar ao segundo turno.
Nas eleições seguintes, de 1994 e 1998, Fernando Henrique
encerrou a disputa já na primeira rodada. Desta vez, há
sinais de que o pleito será polarizado entre o petista Luís
Inácio Lula da Silva e o tucano José Serra. Em pesquisa
do Instituto Vox Populi, divulgada na semana passada, Lula aparece com
38%. Caiu 2 pontos, mas continua com uma liderança folgada. Serra
vem em segundo lugar, com 21%. Subiu 1 ponto e parece consolidar-se como
alternativa ao petista. A certeza de um terceiro embate consecutivo entre
candidatos do PT e do PSDB, que se enfrentaram em 1994 e 1998, só
não está cristalizada por causa de um dado novo apontado
pelas pesquisas da semana passada. Saindo de uma longa letargia, Ciro
Gomes, do PPS, deu seu primeiro salto desde que a disputa ganhou força.
Subiu 7 pontos, chegou a 16% das intenções de voto e tirou
o terceiro lugar de Anthony Garotinho, do PSB.
A subida
de Ciro Gomes, que capturou mais de 300.000
votos por dia, representa uma ameaça ainda tímida à
polarização. Ciro está se beneficiando das aparições
no programa de televisão da tróica de partidos que o apóia,
repetindo o mesmo desempenho positivo de todos os outros candidatos quando
fizeram suas estréias na TV. O programa de Ciro Gomes não
tem a qualidade técnica dos comerciais de Lula e Serra, mas contou
com uma presença que fez diferença: a atriz Patrícia
Pillar, namorada do candidato. Com sua estampa simpática, bonita
e familiar ao grande público, a atriz apareceu no vídeo
falando em nome de Ciro. Foi uma forma de contornar um impedimento do
candidato de aparecer nos programas dos partidos aliados, PDT e PTB, antes
do início oficial do horário eleitoral gratuito, que começa
em agosto. Se conquistar 200.000 votos por
dia até a eleição, Ciro tirará o passaporte
para disputar o segundo turno com Lula, mas as projeções
estatísticas indicam que o adversário mais provável
do petista é mesmo José Serra.
Beto Barata/AE
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| Garotinho,
em baixa: mal nas pesquisas e sem o cobiçado apoio dos evangélicos
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Os estatísticos
prevêem que a identificação do tucano como candidato
do governo poderá lhe render mais 5 a 10 pontos porcentuais
o que alçaria Serra a um patamar entre 25% e 30% da preferência
do eleitorado. Isso porque, de cada dez pessoas que aprovam o governo
de Fernando Henrique, três dizem hoje que pretendem votar em Lula.
Como, em tese, esse voto não faz sentido, estima-se que parte desses
eleitores pode migrar para a candidatura do PSDB quando ficar mais claro
para os menos informados que o candidato de FHC é Serra. Lula não
tem a mesma perspectiva. De cada vinte eleitores que reprovam o governo,
apenas um diz que votará em Serra a grande maioria já
está com o petista. Mesmo que consiga atrair esses votos, Lula
crescerá pouco, entre 2 e 4 pontos porcentuais. Mas nem precisa
disso. Atualmente, suas chances de estar no segundo turno são de
quase 100%, devido a seu alto índice de votação espontânea
27%, o mais robusto de todos. "O cruzamento desses dados leva à
conclusão de que dificilmente Serra e Lula não se encontrarão
no segundo turno", interpreta a socióloga Fátima Pacheco
Jordão.
Além
das pesquisas, há outros fatores que reforçam as chances
da polarização PT-PSDB. Serra e Lula detêm o maior
naco de tempo no horário eleitoral, embora o tucano tenha a fatia
do leão quase um terço do tempo total. Ambos também
contam com estruturas partidárias fortes e organizadas, ao contrário
de Ciro e Garotinho. A principal razão para o favoritismo do tucano
e do petista, no entanto, está nas alianças partidárias
de cada um. O PSDB conseguiu oficializar uma potente coligação
com o PMDB e, ao contrário das previsões anteriores, que
diziam que Ciro teria o apoio de dezesseis diretórios do PFL, é
Serra quem abocanhou a maior fatia da legenda. Já tem tapete vermelho
em quinze diretórios do PFL e pode aumentar esse número
ainda mais. No PPB, outro partido que decidiu não fazer coalizão
formal, a aceitação a Serra já se estendeu a dezenove
diretórios estaduais e tem chances de chegar a 23. "Falaram muito,
mas estamos quase com a mesma aliança que elegeu Fernando Henrique",
diz Jutahy Júnior, líder do PSDB na Câmara dos Deputados.
Contabilizado
o saldo final das composições partidárias, Lula também
se saiu bem. Além do acordo oficial com o PL, formalizado na semana
passada com uma aprovação expressiva dentro do partido,
o PT tentará atrair setores importantes de outras legendas, ainda
que sem aliança formal. No momento, o maior alvo do bote petista
é o PSB de Anthony Garotinho. Evangélico, do tipo que gosta
de fazer campanha em cultos de Bíblia na mão, Garotinho
esperava contar com o apoio da bancada evangélica do PL, que controla
quase 400 rádios em todo o país. Com o casamento PT-PL,
Garotinho ficou só. E ainda amarga uma trajetória descendente
nas pesquisas, que o derrubou para o quarto lugar. Hoje, os três
senadores do PSB querem apoiar Lula, a maioria dos dezessete deputados
também, assim como 60% dos diretórios regionais do partido.
Até o prazo final para a inscrição das chapas, em
5 de julho, o PT torce pela desistência de Garotinho, embora isso
seja improvável. Na semana passada, num sinal de que pretende manter
sua candidatura, Garotinho finalmente conseguiu, depois de várias
tentativas frustradas, emplacar um candidato a vice. É o deputado
José Almeida, do PSB do Maranhão.
Na convenção
que formalizou a tão desejada aliança com o PL, Lula aproveitou
para divulgar a "Carta ao Povo Brasileiro" que bem poderia chamar-se
"Carta ao Mercado Financeiro", tão óbvio era seu destinatário.
Em pouco mais de três páginas, o petista comprometeu-se a
pagar corretamente as dívidas interna e externa, sem rompimento
de nenhum contrato, garantiu que manterá as metas de superávit
primário nos níveis atuais e que continuará com a
política de controle sobre a inflação. A intenção
de Lula foi evitar que a fogueira do mercado venha a incinerar sua própria
candidatura e seu discurso foi um sinal de realismo e amadurecimento,
tanto do candidato quanto do próprio PT. Lula declarou aquilo que
deveria ser óbvio em qualquer país no século XXI.
Afirmou, preto no branco, que, mesmo sob o comando de um partido à
esquerda, o Brasil não vai abandonar sua plataforma de estabilidade
econômica. O fato é que o mercado exigia essa definição.
O PT adiou, mas acabou cedendo diante da convulsão que nas últimas
semanas vem elevando o dólar e o risco Brasil. O discurso do petista
arrancou elogios do presidente Fernando Henrique e do ministro da Fazenda,
Pedro Malan. Até do FMI veio uma mensagem de aprovação.
O porta-voz da entidade, Thomas Dawson, leu uma carta em que o Fundo,
sem citar o nome de Lula, festeja as manifestações de apoio
à política econômica pela classe política.
O único
setor em que o discurso de Lula não teve o menor efeito foi no
próprio mercado financeiro. Na semana passada, sem nenhuma conexão
com o que Lula disse ou deixou de dizer, o dólar subiu e o mercado
continuou em polvorosa. Entre os analistas financeiros, a explicação
para esse fato é a má imagem que o petista tem no mercado.
Ali, os maiores argumentos contra Lula são o plebiscito contra
o pagamento da dívida externa há dois anos, de que o PT
foi um dos organizadores, e a oposição da bancada petista
à Lei de Responsabilidade Fiscal. São atitudes que acabam
se sobrepondo a discursos. "O discurso de Lula ainda não dissipou
as ambigüidades do partido", diz o ex-ministro Mailson da Nóbrega.
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