Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 758 - 3 de julho de 2002
Brasil Sucessão

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
 

O que o eleitor deve cobrar do futuro presidente
O que dizem as pesquisas eleitorais
As investigações sobre a propina no PT

Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Arc
Gente
Datas

Para usar
VEJA on-line
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2002
Reportagens de capa
2000|2001|2002
Entrevistas
2000|2001|2002
Busca somente texto
96|97|98|99|00|01|02


Crie seu grupo




 



Veja também
Nesta edição
"Tudo sugere o terceiro confronto"
Notícias diárias sobre as eleições 2002

Para consertar o Brasil, fazê-lo crescer, reduzir a miséria e combater a criminalidade, o próximo presidente vai precisar de uma boa equipe, sustentação no Congresso Nacional, ajuda dos governadores e apoio da sociedade. Não poderá operar nenhuma transformação significativa apenas com a força de seus ministros. Já para colocar em risco as conquistas associadas à estabilidade, ele não precisará de auxílio externo. Basta que cometa um erro de operação na política econômica. Essa é a principal conclusão de uma série de entrevistas feitas por VEJA com 39 especialistas – economistas, sociólogos, cientistas políticos, empresários, banqueiros e políticos – sobre o poder real e os desafios do próximo presidente. A propaganda gratuita na televisão, que terá grande influência na escolha do futuro presidente, só começa em agosto. Mas, a partir de agora, com o fim da Copa do Mundo, a briga eleitoral estará a toda. Recomenda-se atenção redobrada sobre o que dizem os candidatos. Um deles ficará no mínimo por quatro anos determinando os rumos do Brasil.

Muitos estudiosos acreditam que, para o eleitor, essa é a competição eleitoral mais complexa dos últimos tempos. Parecia mais fácil escolher um candidato à sucessão de José Sarney, pois o governo estava com baixa popularidade e havia uma certeza: o novo presidente seria de oposição. Algo parecido pode ser dito sobre 1994. Com o Plano Real, os votos migraram naturalmente para o responsável pela estabilização, Fernando Henrique. Em 1998, com o crédito obtido pelo Real, FHC reelegeu-se prometendo emprego e conquistou o eleitorado. Ou seja, o candidato oficial contabilizou duas vitórias seguidas, ambas no primeiro turno. Agora, a maior parte dos eleitores diz nas pesquisas que prefere um candidato de oposição (Lula, Ciro e Garotinho somam 65% das intenções de voto) e 21% deles falam em votar no candidato do governo, José Serra. Por enquanto, a disputa se dá entre Lula e Serra. E aí? Vai dar governo ou oposição? Ninguém arrisca um palpite. Essa percepção de que tanto governo quanto oposição podem vencer gera um desconforto no eleitor. Para complicar a vida de quem vai votar, os postulantes ao Palácio do Planalto repetem um discurso muito semelhante. Como selecionar o melhor?

 
Lula, Serra, Ciro Gomes e Garotinho: de olho nas promessas miraculosas

Os especialistas ouvidos por VEJA dão um conselho: os candidatos devem ser avaliados não pela coleção de promessas que fazem, mas por aquilo que efetivamente podem realizar. É muito comum que, tentando atingir o coração do eleitor, os candidatos formulem promessas irrealizáveis. Sugere-se, por exemplo, prevenção contra aqueles que digam que vão diminuir significativamente a miséria e a desigualdade social. O governo gasta 200 bilhões de reais por ano em programas sociais. Isso evita que a miséria cresça em alta velocidade, mas não impediu que, de 1994 para cá, aumentasse o contingente de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza. Nesse campo não há milagre possível. Só o crescimento econômico na casa dos 4% ou 5% anuais durante alguns anos seguidos pode mudar o triste cenário nacional. Como todas as carências nacionais acabam, de um jeito ou de outro, desembocando na necessidade de crescimento, há candidatos prometendo taxas de crescimento de 4% a 5% já em 2003. Desconfie dessa música também. Se crescer fosse uma decisão pessoal do presidente, Fernando Henrique Cardoso já teria dado essa ordem há muito tempo.

Outra área em que a lorota campeia é a que trata do combate à criminalidade. Os candidatos adoram dizer que vão colocar os bandidos na cadeia. Todos já anunciaram medidas para atacar o problema. Mas o governo federal não tem policiais, nem cadeias e muito menos juízes. Toda a estrutura de combate à criminalidade está nos Estados e nos municípios. Eis um exemplo das dificuldades que virão pela frente. O Rio de Janeiro está sendo afrontado por criminosos. Em um mês, houve o assassinato brutal do jornalista Tim Lopes, a revelação de que traficantes encomendavam um míssil de dentro de um presídio e o atentado da semana passada contra o prédio da prefeitura onde despacha Cesar Maia. Desde que a crise de segurança se agravou no Rio, o governo federal, o governo estadual e a prefeitura carioca tentam sem sucesso organizar uma força conjunta para deter os bandidos. Não se chegou a nenhum acordo. Assim, pode-se concluir que um novo presidente enfrentaria a mesma dificuldade e não teria nenhum recurso imediato para resolver o desafio. Sobre essa questão, o deputado tucano Antonio Kandir tem uma visão realista: "Os candidatos precisam se esforçar para não agir como se estivessem num concurso de criatividade", afirma ele.

 
Orlando Brito
Antonio Milena
Collor e Roseana Sarney: o poder bélico no Senado

A título de orientação, VEJA fez uma seleção dos principais desafios do novo presidente, segundo os técnicos que ouviu. E os agrupou em quatro módulos, representados nas duas primeiras páginas desta reportagem por vagões. No primeiro vagão estão listadas as tarefas que o presidente deve manejar de forma técnica, do jeito que é feito hoje, "sem criatividade". São elas: prosseguir na política de metas de inflação, controlada pela taxa de juros; pagar sem discussão as dívidas interna e externa; e sustentar o superávit nas contas públicas, o câmbio flutuante e a Lei de Responsabilidade Fiscal. "É preciso que o próximo presidente entenda que ele já estará dando uma enorme colaboração ao país se for capaz de manter as conquistas econômicas dos anos recentes", diz o ex-ministro do Planejamento João Paulo dos Reis Velloso, um dos especialistas ouvidos por VEJA. Em qualquer país economicamente responsável, não se mexe em juros, inflação nem em câmbio por um ato de vontade presidencial. Esses não são conceitos que se discutem no campo ideológico. Admite-se qualquer debate a respeito de como gastar o dinheiro público. O presidente da República pode achar que o governo deve investir o dinheiro do BNDES na agricultura familiar e nas pequenas empresas. Ou pode determinar que o banco financie as privatizações. São dois pontos de vista defensáveis. Porém, a primeira tarefa é honrar os compromissos assumidos e não mexer nas regras do jogo.

Esse conjunto de tarefas delegadas pelo eleitor ao presidente é executado no Banco Central. Ou seja, na atual conjuntura, o presidente do BC é mais importante que muitos ministros, embora, formalmente, responda ao ministro da Fazenda. Seu poder de interferência no mercado é enorme. Ele tem total autoridade sobre o sistema financeiro: decide que bancos podem funcionar, ordena investigações sobre as instituições e pode liquidá-las. Também é ele quem resolve se vai ou não emprestar dinheiro aos bancos quando eles estão no vermelho. O maior poder do presidente do BC está, no entanto, nas armas para determinar tendências do mercado financeiro. Ele pode emitir, comprar e vender títulos no Brasil e no exterior, comprar e vender as reservas internacionais do país e alterar a política de depósitos compulsórios dos bancos, o que determina o fôlego que essas instituições têm para especular. O presidente do BC não tem a palavra final sobre as taxas de juros, mas detém a opinião mais relevante para fixá-las já que preside o Comitê de Política Monetária (Copom).

 
Renata Ursaia
A polícia, tema da campanha eleitoral: desafio de combater a criminalidade

A gestão do Banco Central é a única missão presidencial que independe dos demais poderes. No passado, dizia-se que o presidente da República precisava de dois instrumentos para governar: a caneta para aprovar despesas e o Diário Oficial para publicar as ordens assinadas no dia anterior. O fortalecimento da democracia tornou a vida do presidente um pouco mais complexa e aumentou o poder do Congresso Nacional. Legalmente, não se constrói uma escola na periferia com dinheiro federal sem a aprovação dos parlamentares. Algumas questões como a reforma tributária e a reforma política, duas das transformações mais esperadas para os próximos anos, só andam se o candidato eleito formar maioria entre deputados e senadores. Nesse campo, o presidente tem pela frente um desafio adicional. O Senado Federal pode reunir um foco de resistência significativo em função dos caciques que vai eleger: Antonio Carlos Magalhães, Fernando Collor de Mello e Roseana Sarney estão em primeiro lugar nas pesquisas em seus Estados.

Os oito anos de governo Fernando Henrique Cardoso mostraram que a Presidência perdeu toda vez que tentou impor sua vontade. FHC contou com a base de apoio parlamentar mais sólida que um presidente brasileiro já teve. Mesmo assim, projetos importantes, como a reforma da legislação trabalhista, a reforma tributária e a contribuição previdenciária dos servidores inativos não vingaram. Faltou acordo. Porém, quando o presidente contornou as disputas partidárias e ideológicas, as reformas saíram. Os tucanos aprovaram dezesseis emendas constitucionais que alteraram profundamente o Brasil. Essa marca funciona como um alerta adicional aos candidatos que prometem mudanças de um dia para o outro. Os projetos são aprovados em discussões que envolvem os interesses de 27 Estados e mais de quinze partidos com legendas que têm representação no Congresso. Além disso é preciso superar a resistência dos grupos que se formam além dos interesses partidários. É o caso da bancada ruralista que reúne parlamentares de quase todos os partidos e da maioria dos Estados. Mesmo com sua formidável base de apoio, o presidente Fernando Henrique gastou em média seis meses para aprovar cada emenda constitucional. É nesse ritmo que as decisões são tomadas em Brasília. Desconfie do candidato que prometer mudar essa lógica paralisante de uma vez só. Seria ótimo que ele tivesse poder para isso. Só que não tem.

 

Programa fundamental

O quadro é o resumo de um levantamento feito por VEJA com 39 especialistas a quem se perguntou quais deveriam ser as prioridades do novo governo

MANTER

O que o novo governo deve fazer do mesmo jeito que é feito pelo atual

Prosseguir na política de metas de inflação, controlada pela taxa de juros
Pagar sem discussão as dívidas interna e externa
Sustentar o superávit nas contas públicas, o câmbio flutuante e a Lei de Responsabilidade Fiscal

 

ATACAR

Providências que o novo governo deve adotar sem perda de tempo

Equilibrar as contas da Previdência, que arrecada 50 bilhões de reais por ano, mas gasta 100 bilhões
Estimular a participação do Brasil no movimento do comércio exterior, que é hoje inferior a 1%
Reduzir a taxa de desperdício do governo nos projetos sociais, que consomem 21% do PIB

 

CRIAR

Defeitos do Brasil que precisam ser eliminados

Adotar um modelo de política tributária capaz de desonerar a produção e reduzir a iniqüidade social
Montar um banco nacional de dados para que os três níveis de governo parem de trabalhar de forma sobreposta
Integrar governos estaduais e prefeituras em ações conjuntas para as regiões metropolitanas

 

LIDERAR

Projetos que o presidente não tem poder para implementar, mas em torno dos quais pode conduzir as discussões

Estruturar uma política de combate à criminalidade em conjunto com o Congresso Nacional, os Estados e os municípios
Promover a discussão em torno de uma reforma que dê agilidade ao Poder Judiciário
Discutir com deputados e senadores uma reforma política que aumente a fidelidade aos partidos e acabe com as legendas de aluguel

 

Cuidado com estas promessas

Não há saídas mágicas para os grandes problemas brasileiros. A solução depende de investimento contínuo e persistência. Desconfie de seu candidato se ele fizer alguma destas promessas:

PROMESSA
Aumentar os gastos com obras públicas

POR QUE DESCONFIAR
O governo só tem 1% do Orçamento para gastar com investimentos novos. Se quiser iniciar um projeto, precisa interromper outro

 

PROMESSA
Dar um aumento expressivo ao salário mínimo

POR QUE DESCONFIAR
O caixa da Previdência, que convive com um déficit anual de 50 bilhões de reais, não suporta despesas adicionais

 

PROMESSA
Acabar com a criminalidade

POR QUE DESCONFIAR
O presidente não tem poder direto sobre as polícias, que respondem aos governadores

 

PROMESSA
Reduzir drasticamente a taxa de juros

POR QUE DESCONFIAR
A taxa de juros não varia conforme a vontade do presidente, mas segundo princípios macroeconômicos que não podem ser manipulados por conveniência política

 

PROMESSA
Diminuir significativamente a miséria e a desigualdade

POR QUE DESCONFIAR
O governo federal gasta 200 bilhões de reais em programas sociais. Isso ameniza a miséria, mas ela só irá diminuir de maneira expressiva quando o Brasil voltar a crescer

 

PROMESSA
Fazer o Brasil crescer mais de 4% já no primeiro ano de governo

POR QUE DESCONFIAR
Se fazer o país crescer fosse uma decisão pessoal do presidente, será que Fernando Henrique Cardoso já não teria dado essa ordem?

 

Com reportagem de Felipe Patury,
Luís Henrique Amaral,
Ricardo Mendonça e Sandra Brasil


 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS