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Para consertar
o Brasil, fazê-lo crescer, reduzir a miséria e combater a
criminalidade, o próximo presidente vai precisar de uma boa equipe,
sustentação no Congresso Nacional, ajuda dos governadores
e apoio da sociedade. Não poderá operar nenhuma transformação
significativa apenas com a força de seus ministros. Já para
colocar em risco as conquistas associadas à estabilidade, ele não
precisará de auxílio externo. Basta que cometa um erro de
operação na política econômica. Essa é
a principal conclusão de uma série de entrevistas feitas
por VEJA com 39 especialistas economistas, sociólogos, cientistas
políticos, empresários, banqueiros e políticos
sobre o poder real e os desafios do próximo presidente. A propaganda
gratuita na televisão, que terá grande influência
na escolha do futuro presidente, só começa em agosto. Mas,
a partir de agora, com o fim da Copa do Mundo, a briga eleitoral estará
a toda. Recomenda-se atenção redobrada sobre o que dizem
os candidatos. Um deles ficará no mínimo por quatro anos
determinando os rumos do Brasil.
Muitos estudiosos
acreditam que, para o eleitor, essa é a competição
eleitoral mais complexa dos últimos tempos. Parecia mais fácil
escolher um candidato à sucessão de José Sarney,
pois o governo estava com baixa popularidade e havia uma certeza: o novo
presidente seria de oposição. Algo parecido pode ser dito
sobre 1994. Com o Plano Real, os votos migraram naturalmente para o responsável
pela estabilização, Fernando Henrique. Em 1998, com o crédito
obtido pelo Real, FHC reelegeu-se prometendo emprego e conquistou o eleitorado.
Ou seja, o candidato oficial contabilizou duas vitórias seguidas,
ambas no primeiro turno. Agora, a maior parte dos eleitores diz nas pesquisas
que prefere um candidato de oposição (Lula, Ciro e Garotinho
somam 65% das intenções de voto) e 21% deles falam em votar
no candidato do governo, José Serra. Por enquanto, a disputa se
dá entre Lula e Serra. E aí? Vai dar governo ou oposição?
Ninguém arrisca um palpite. Essa percepção de que
tanto governo quanto oposição podem vencer gera um desconforto
no eleitor. Para complicar a vida de quem vai votar, os postulantes ao
Palácio do Planalto repetem um discurso muito semelhante. Como
selecionar o melhor?
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| Lula,
Serra, Ciro Gomes e Garotinho: de olho nas promessas miraculosas |
Os especialistas
ouvidos por VEJA dão um conselho: os candidatos devem ser avaliados
não pela coleção de promessas que fazem, mas por
aquilo que efetivamente podem realizar. É muito comum que, tentando
atingir o coração do eleitor, os candidatos formulem promessas
irrealizáveis. Sugere-se, por exemplo, prevenção
contra aqueles que digam que vão diminuir significativamente a
miséria e a desigualdade social. O governo gasta 200 bilhões
de reais por ano em programas sociais. Isso evita que a miséria
cresça em alta velocidade, mas não impediu que, de 1994
para cá, aumentasse o contingente de pessoas vivendo abaixo da
linha de pobreza. Nesse campo não há milagre possível.
Só o crescimento econômico na casa dos 4% ou 5% anuais durante
alguns anos seguidos pode mudar o triste cenário nacional. Como
todas as carências nacionais acabam, de um jeito ou de outro, desembocando
na necessidade de crescimento, há candidatos prometendo taxas de
crescimento de 4% a 5% já em 2003. Desconfie dessa música
também. Se crescer fosse uma decisão pessoal do presidente,
Fernando Henrique Cardoso já teria dado essa ordem há muito
tempo.
Outra área
em que a lorota campeia é a que trata do combate à criminalidade.
Os candidatos adoram dizer que vão colocar os bandidos na cadeia.
Todos já anunciaram medidas para atacar o problema. Mas o governo
federal não tem policiais, nem cadeias e muito menos juízes.
Toda a estrutura de combate à criminalidade está nos Estados
e nos municípios. Eis um exemplo das dificuldades que virão
pela frente. O Rio de Janeiro está sendo afrontado por criminosos.
Em um mês, houve o assassinato brutal do jornalista Tim Lopes, a
revelação de que traficantes encomendavam um míssil
de dentro de um presídio e o atentado da semana passada contra
o prédio da prefeitura onde despacha Cesar Maia. Desde que a crise
de segurança se agravou no Rio, o governo federal, o governo estadual
e a prefeitura carioca tentam sem sucesso organizar uma força conjunta
para deter os bandidos. Não se chegou a nenhum acordo. Assim, pode-se
concluir que um novo presidente enfrentaria a mesma dificuldade e não
teria nenhum recurso imediato para resolver o desafio. Sobre essa questão,
o deputado tucano Antonio Kandir tem uma visão realista: "Os candidatos
precisam se esforçar para não agir como se estivessem num
concurso de criatividade", afirma ele.
Orlando Brito
 |
Antonio Milena
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| Collor
e Roseana Sarney: o poder bélico no Senado |
A título
de orientação, VEJA fez uma seleção dos principais
desafios do novo presidente, segundo os técnicos que ouviu. E os
agrupou em quatro módulos, representados nas duas primeiras páginas
desta reportagem por vagões. No primeiro vagão estão
listadas as tarefas que o presidente deve manejar de forma técnica,
do jeito que é feito hoje, "sem criatividade". São elas:
prosseguir na política de metas de inflação, controlada
pela taxa de juros; pagar sem discussão as dívidas interna
e externa; e sustentar o superávit nas contas públicas,
o câmbio flutuante e a Lei de Responsabilidade Fiscal. "É
preciso que o próximo presidente entenda que ele já estará
dando uma enorme colaboração ao país se for capaz
de manter as conquistas econômicas dos anos recentes", diz o ex-ministro
do Planejamento João Paulo dos Reis Velloso, um dos especialistas
ouvidos por VEJA. Em qualquer país economicamente responsável,
não se mexe em juros, inflação nem em câmbio
por um ato de vontade presidencial. Esses não são conceitos
que se discutem no campo ideológico. Admite-se qualquer debate
a respeito de como gastar o dinheiro público. O presidente da República
pode achar que o governo deve investir o dinheiro do BNDES na agricultura
familiar e nas pequenas empresas. Ou pode determinar que o banco financie
as privatizações. São dois pontos de vista defensáveis.
Porém, a primeira tarefa é honrar os compromissos assumidos
e não mexer nas regras do jogo.
Esse conjunto
de tarefas delegadas pelo eleitor ao presidente é executado no
Banco Central. Ou seja, na atual conjuntura, o presidente do BC é
mais importante que muitos ministros, embora, formalmente, responda ao
ministro da Fazenda. Seu poder de interferência no mercado é
enorme. Ele tem total autoridade sobre o sistema financeiro: decide que
bancos podem funcionar, ordena investigações sobre as instituições
e pode liquidá-las. Também é ele quem resolve se
vai ou não emprestar dinheiro aos bancos quando eles estão
no vermelho. O maior poder do presidente do BC está, no entanto,
nas armas para determinar tendências do mercado financeiro. Ele
pode emitir, comprar e vender títulos no Brasil e no exterior,
comprar e vender as reservas internacionais do país e alterar a
política de depósitos compulsórios dos bancos, o
que determina o fôlego que essas instituições têm
para especular. O presidente do BC não tem a palavra final sobre
as taxas de juros, mas detém a opinião mais relevante para
fixá-las já que preside o Comitê de Política
Monetária (Copom).
Renata Ursaia
 |
| A
polícia, tema da campanha eleitoral: desafio de combater a
criminalidade |
A gestão
do Banco Central é a única missão presidencial que
independe dos demais poderes. No passado, dizia-se que o presidente da
República precisava de dois instrumentos para governar: a caneta
para aprovar despesas e o Diário Oficial para publicar as
ordens assinadas no dia anterior. O fortalecimento da democracia tornou
a vida do presidente um pouco mais complexa e aumentou o poder do Congresso
Nacional. Legalmente, não se constrói uma escola na periferia
com dinheiro federal sem a aprovação dos parlamentares.
Algumas questões como a reforma tributária e a reforma política,
duas das transformações mais esperadas para os próximos
anos, só andam se o candidato eleito formar maioria entre deputados
e senadores. Nesse campo, o presidente tem pela frente um desafio adicional.
O Senado Federal pode reunir um foco de resistência significativo
em função dos caciques que vai eleger: Antonio Carlos Magalhães,
Fernando Collor de Mello e Roseana Sarney estão em primeiro lugar
nas pesquisas em seus Estados.
Os oito
anos de governo Fernando Henrique Cardoso mostraram que a Presidência
perdeu toda vez que tentou impor sua vontade. FHC contou com a base de
apoio parlamentar mais sólida que um presidente brasileiro já
teve. Mesmo assim, projetos importantes, como a reforma da legislação
trabalhista, a reforma tributária e a contribuição
previdenciária dos servidores inativos não vingaram. Faltou
acordo. Porém, quando o presidente contornou as disputas partidárias
e ideológicas, as reformas saíram. Os tucanos aprovaram
dezesseis emendas constitucionais que alteraram profundamente o Brasil.
Essa marca funciona como um alerta adicional aos candidatos que prometem
mudanças de um dia para o outro. Os projetos são aprovados
em discussões que envolvem os interesses de 27 Estados e mais de
quinze partidos com legendas que têm representação
no Congresso. Além disso é preciso superar a resistência
dos grupos que se formam além dos interesses partidários.
É o caso da bancada ruralista que reúne parlamentares de
quase todos os partidos e da maioria dos Estados. Mesmo com sua formidável
base de apoio, o presidente Fernando Henrique gastou em média seis
meses para aprovar cada emenda constitucional. É nesse ritmo que
as decisões são tomadas em Brasília. Desconfie do
candidato que prometer mudar essa lógica paralisante de uma vez
só. Seria ótimo que ele tivesse poder para isso. Só
que não tem.
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Programa
fundamental
O
quadro é o resumo de um levantamento feito por VEJA com 39
especialistas a quem se perguntou quais deveriam ser as prioridades
do novo governo
MANTER
O
que o novo governo deve fazer do mesmo jeito que é feito
pelo atual
Prosseguir na política de metas de inflação,
controlada pela taxa de juros
Pagar sem discussão as dívidas interna e externa
Sustentar o superávit nas contas públicas, o câmbio
flutuante e a Lei de Responsabilidade Fiscal
ATACAR
Providências
que o novo governo deve adotar sem perda de tempo
Equilibrar as contas da Previdência, que arrecada 50 bilhões
de reais por ano, mas gasta 100 bilhões
Estimular a participação do Brasil no movimento do
comércio exterior, que é hoje inferior a 1%
Reduzir a taxa de desperdício do governo nos projetos sociais,
que consomem 21% do PIB
CRIAR
Defeitos
do Brasil que precisam ser eliminados
Adotar um modelo de política tributária capaz de desonerar
a produção e reduzir a iniqüidade social
Montar um banco nacional de dados para que os três níveis
de governo parem de trabalhar de forma sobreposta
Integrar governos estaduais e prefeituras em ações
conjuntas para as regiões metropolitanas
LIDERAR
Projetos
que o presidente não tem poder para implementar, mas em torno
dos quais pode conduzir as discussões
Estruturar uma política de combate à criminalidade
em conjunto com o Congresso Nacional, os Estados e os municípios
Promover a discussão em torno de uma reforma que dê
agilidade ao Poder Judiciário
Discutir com deputados e senadores uma reforma política que
aumente a fidelidade aos partidos e acabe com as legendas de aluguel
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Cuidado
com estas promessas
Não
há saídas mágicas para os grandes problemas
brasileiros. A solução depende de investimento contínuo
e persistência. Desconfie de seu candidato se ele fizer alguma
destas promessas:
PROMESSA
Aumentar
os gastos com obras públicas
POR
QUE DESCONFIAR
O governo só tem 1% do Orçamento para gastar com investimentos
novos. Se quiser iniciar um projeto, precisa interromper outro
PROMESSA
Dar
um aumento expressivo ao salário mínimo
POR
QUE DESCONFIAR
O caixa
da Previdência, que convive com um déficit anual de
50 bilhões de reais, não suporta despesas adicionais
PROMESSA
Acabar
com a criminalidade
POR
QUE DESCONFIAR
O presidente
não tem poder direto sobre as polícias, que respondem
aos governadores
PROMESSA
Reduzir
drasticamente a taxa de juros
POR
QUE DESCONFIAR
A taxa
de juros não varia conforme a vontade do presidente, mas
segundo princípios macroeconômicos que não podem
ser manipulados por conveniência política
PROMESSA
Diminuir
significativamente a miséria e a desigualdade
POR
QUE DESCONFIAR
O governo
federal gasta 200 bilhões de reais em programas sociais.
Isso ameniza a miséria, mas ela só irá diminuir
de maneira expressiva quando o Brasil voltar a crescer
PROMESSA
Fazer
o Brasil crescer mais de 4% já no primeiro ano de governo
POR
QUE DESCONFIAR
Se fazer
o país crescer fosse uma decisão pessoal do presidente,
será que Fernando Henrique Cardoso já não teria
dado essa ordem?
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Com
reportagem de Felipe Patury,
Luís Henrique Amaral,
Ricardo Mendonça e Sandra Brasil
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