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Me
chame
de Uri Geller
"Nunca
mais faço uma previsão sobre
futebol ou política. Prefiro
usar meus
vastos poderes para entortar talheres"
Errei. Quebrei a cara. Eu e Uri Geller, o paranormal israelense conhecido
por entortar talheres. Profetizamos que a Inglaterra ganharia a Copa do
Mundo. Aliás, Uri Geller foi mais longe que eu: "energizou" o troféu
a fim de que fosse David Beckham a erguê-lo. O mesmo David Beckham
cujo pé fraturado Uri Geller afirmou ter curado a distância
apenas com a força da mente. Uri Geller é fanático
por futebol. Recentemente virou sócio do time inglês Exeter
City, prometendo incutir em seus jogadores "um toque de espiritualidade".
Ele já deu amostras de seus poderes mágicos no campo futebolístico.
Durante uma partida entre Inglaterra e Escócia, sobrevoou o estádio
de helicóptero e, com a ajuda de onze cristais, alegou ter desviado
com a mente um pênalti cobrado pelos escoceses. À época
do prodígio, o goleiro inglês David Seaman, estarrecido,
contou que a bola tomou uma trajetória de todo inatural. Mais ou
menos como o chute de Ronaldinho Gaúcho que surpreendeu o pobre
Seaman e eliminou os ingleses da Copa do Mundo. Onde estava Uri Geller
quando a Inglaterra mais precisava dele? Ajudando a preparar o amigo Michael
Jackson para sua viagem espacial?
Assim como Uri Geller e eu, muitos outros videntes quebraram a cara na
Copa do Mundo. A astróloga Heloisa Cupini, especialista em horóscopo
chinês, previu que o Brasil faria uma péssima campanha neste
ano do cavalo, vaticínio compartilhado pela leitora de búzios
Beth Strauss. O ex-jogador Michel Platini prognosticou uma final entre
França e Itália. O técnico argentino Bielsa apostou
na vitória da Inglaterra na partida contra o Brasil. Pelé,
cujo pé-frio já se tornou legendário, indicou Portugal
como favorito para conquistar o título. O jogo eletrônico
Fifa 2002, em módulo automático, chegou a uma final entre
Brasil e Itália, com a consagração desta última
por 2 a 0. Errei. Erramos.
A dificuldade de prever o bom desempenho do Brasil deve-se ao fato de
que rompemos um tabu. Na história de nosso futebol, as crises financeiras
sempre foram acompanhadas por maus resultados nas Copas do Mundo. O futebol
é considerado um esporte popular, democrático, em que o
dinheiro tem pouco peso, mas nossos sucessos nos gramados sempre estiveram
diretamente relacionados aos sucessos econômicos. Ganhamos a Copa
de 1958 em plena euforia desenvolvimentista do governo JK. Em 1962, a
euforia já tinha diminuído, e mesmo assim crescemos 6,6%
naquele ano. A Copa de 1970 coincidiu com o milagre econômico: 10,4%
de aumento do PIB. Em 1994, com o Plano Real, tivemos um crescimento de
5,9%. Essa ligação perversa entre sucesso no futebol e sucesso
econômico não vale apenas para o Brasil. Dois dos mais mal
classificados no famoso índice de risco país, Argentina
e Nigéria, foram eliminados na primeira fase da Copa do Mundo,
embora muitos adivinhos os apontassem entre os favoritos.
A mesma empresa que mede o risco país profetizou que, desta vez,
ocorrerá o contrário: será a economia brasileira
a se beneficiar do futebol. Isso porque o bom resultado na Copa levará
inevitavelmente a uma vitória eleitoral de José Serra. Como
sempre, subestimam nossa inteligência e argúcia política.
Talvez tenham razão. Mas eu nunca mais faço uma previsão
sobre futebol ou política. Prefiro usar meus vastos poderes mágicos
para entortar talheres.
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