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Edição 1 758 - 3 de julho de 2002
Diogo Mainardi

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Me chame
de Uri Geller

"Nunca mais faço uma previsão sobre
futebol ou política.
Prefiro usar meus
vastos poderes para entortar talheres"

Errei. Quebrei a cara. Eu e Uri Geller, o paranormal israelense conhecido por entortar talheres. Profetizamos que a Inglaterra ganharia a Copa do Mundo. Aliás, Uri Geller foi mais longe que eu: "energizou" o troféu a fim de que fosse David Beckham a erguê-lo. O mesmo David Beckham cujo pé fraturado Uri Geller afirmou ter curado a distância apenas com a força da mente. Uri Geller é fanático por futebol. Recentemente virou sócio do time inglês Exeter City, prometendo incutir em seus jogadores "um toque de espiritualidade". Ele já deu amostras de seus poderes mágicos no campo futebolístico. Durante uma partida entre Inglaterra e Escócia, sobrevoou o estádio de helicóptero e, com a ajuda de onze cristais, alegou ter desviado com a mente um pênalti cobrado pelos escoceses. À época do prodígio, o goleiro inglês David Seaman, estarrecido, contou que a bola tomou uma trajetória de todo inatural. Mais ou menos como o chute de Ronaldinho Gaúcho que surpreendeu o pobre Seaman e eliminou os ingleses da Copa do Mundo. Onde estava Uri Geller quando a Inglaterra mais precisava dele? Ajudando a preparar o amigo Michael Jackson para sua viagem espacial?

Assim como Uri Geller e eu, muitos outros videntes quebraram a cara na Copa do Mundo. A astróloga Heloisa Cupini, especialista em horóscopo chinês, previu que o Brasil faria uma péssima campanha neste ano do cavalo, vaticínio compartilhado pela leitora de búzios Beth Strauss. O ex-jogador Michel Platini prognosticou uma final entre França e Itália. O técnico argentino Bielsa apostou na vitória da Inglaterra na partida contra o Brasil. Pelé, cujo pé-frio já se tornou legendário, indicou Portugal como favorito para conquistar o título. O jogo eletrônico Fifa 2002, em módulo automático, chegou a uma final entre Brasil e Itália, com a consagração desta última por 2 a 0. Errei. Erramos.

A dificuldade de prever o bom desempenho do Brasil deve-se ao fato de que rompemos um tabu. Na história de nosso futebol, as crises financeiras sempre foram acompanhadas por maus resultados nas Copas do Mundo. O futebol é considerado um esporte popular, democrático, em que o dinheiro tem pouco peso, mas nossos sucessos nos gramados sempre estiveram diretamente relacionados aos sucessos econômicos. Ganhamos a Copa de 1958 em plena euforia desenvolvimentista do governo JK. Em 1962, a euforia já tinha diminuído, e mesmo assim crescemos 6,6% naquele ano. A Copa de 1970 coincidiu com o milagre econômico: 10,4% de aumento do PIB. Em 1994, com o Plano Real, tivemos um crescimento de 5,9%. Essa ligação perversa entre sucesso no futebol e sucesso econômico não vale apenas para o Brasil. Dois dos mais mal classificados no famoso índice de risco país, Argentina e Nigéria, foram eliminados na primeira fase da Copa do Mundo, embora muitos adivinhos os apontassem entre os favoritos.

A mesma empresa que mede o risco país profetizou que, desta vez, ocorrerá o contrário: será a economia brasileira a se beneficiar do futebol. Isso porque o bom resultado na Copa levará inevitavelmente a uma vitória eleitoral de José Serra. Como sempre, subestimam nossa inteligência e argúcia política. Talvez tenham razão. Mas eu nunca mais faço uma previsão sobre futebol ou política. Prefiro usar meus vastos poderes mágicos para entortar talheres.

 
 
   
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