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Edição 1 758 - 3 de julho de 2002
Entrevista: Marcos Coimbra

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A voz do eleitor

O cientista político dono
do Vox Populi diz que
o
candidato ideal não está
na disputa e que o
Real ainda rende votos

Ronaldo França

 
Nélio Rodrigues/1° Plano

"Não digo que as pessoas acabem aceitando votar em quem rouba ou é incapaz, mas sempre vai haver a dificuldade de achar o ideal"

De um edifício no centro de Belo Horizonte, o cientista político Marcos Coimbra, 51 anos, desfruta uma vista privilegiada do cenário eleitoral brasileiro. É a sede do Instituto Vox Populi, que preside desde 1984. Dali, já acompanhou todas as eleições no país no período após a redemocratização. Sua experiência vai além. Inclui eleições em outros países, como Bolívia, Equador, Peru e Moçambique. Mas não é comum vê-lo viajar para tão longe. Sua rotina à frente de um dos maiores institutos de pesquisa brasileiros admite poucas concessões. Entre elas, natação e partidas de tênis no clube próximo de sua casa, um bairro afastado do centro da cidade. Com mais de vinte pesquisas eleitorais realizadas somente neste ano, tem de cabeça a medida do pensamento dos eleitores. "A maioria das pessoas trocaria a estabilização por mais empregos." Na semana passada, concedeu a VEJA a seguinte entrevista.

Veja – Qual é o presidente que o brasileiro quer?
Coimbra – As características que se deseja são as mesmas em qualquer lugar do mundo. Todas as pesquisas são unânimes em mostrar que isoladamente o atributo mais valorizado é a honestidade, porque se pressupõe que, se o presidente não for honesto, não haverá preocupação com "os outros". A honestidade, um atributo de caráter, é vista como uma garantia da probidade do governante. Em segundo lugar vem um conjunto de características que dizem respeito à biografia e à experiência do candidato. São questões mais objetivas. Capacidade técnica, treino, formação, estudo...

Veja – Mas são justamente essas as críticas que se fazem a Lula, o candidato mais bem colocado nas pesquisas.
Coimbra – Nem todas as pessoas avaliam do mesmo modo essas características. Existem muitas maneiras de perceber essa qualidade. No caso de Lula, muita gente acha que ele não tem esses atributos, mas uma parcela do eleitorado – que não é pequena – acredita que, por ter sido líder sindical, dirigente sindical e deputado, ele tem condições de ser presidente. E, além de tudo, há um conjunto de atributos que são de personalidade: empenho, determinação, firmeza... O eleitor sabe que o candidato ideal não está concorrendo nesta eleição, assim como não esteve na última e não estará nas que vêm pela frente. A eleição é uma escolha real, no momento presente, entre pessoas reais, com seus defeitos e suas qualidades. E o eleitor tem de admitir ceder em alguma coisa para ganhar de outro lado. Não digo que as pessoas acabem aceitando votar em gente que rouba ou que é incapaz, mas sempre vai haver a dificuldade de encontrar o ideal.

Veja – E como se tem processado essa escolha na cabeça do eleitor?
Coimbra – A maioria pensa o futuro com base no presente. O que conta é sua percepção do atual governo e do presidente em exercício, as insatisfações. Em 1989, havia uma queixa de que o presidente José Sarney era um político tradicional, palaciano, que usava jaquetão. Uma das coisas que seduziram uma parcela do eleitorado na candidatura de Collor foi justamente o fato de ele ter uma imagem de não-Sarney. Ele não era de palácio, era dinâmico, não era um político tradicional. Roseana Sarney, num determinado momento, atraía muito porque era uma espécie de anti-FHC. Era uma mulher que tinha preocupação social, calorosa. O Garotinho projetou essa imagem, de uma administração voltada para programas sociais. A própria candidatura de José Serra foi assimilada assim, por causa dos projetos desenvolvidos por ele no Ministério da Saúde. Quase todos os candidatos são vistos como alguém que vai fazer uma administração diferente da atual.

Veja – Fernando Henrique Cardoso tem hoje a melhor avaliação do segundo mandato. No entanto, o senhor diz que a população ainda assim quer mudanças. Não é de certa forma contraditório?
Coimbra – Não há reações únicas a tantas coisas diferentes. Ao mesmo tempo que as pessoas se queixam do desemprego e do que imaginam que é o desinteresse do governo por esse tema, elas também gostam e prezam a estabilidade. Mesmo no auge do desgaste deste governo, que foi durante o apagão, a porcentagem de pessoas que queriam que o próximo presidente reformulasse todas as políticas e todas as prioridades do próximo governo era de 45%, para arredondar. De lá para cá, esse índice vem caindo sistematicamente e hoje não chega a 30%. Os outros mais de 70% querem transformação, mas não em tudo. As pessoas também têm medo de uma mudança que não sabem onde vai dar.

Veja – O Real já perdeu seus efeitos eleitorais ou ainda está na campanha?
Coimbra – Claro que está. O quadro em que o eleitor se encontra é diferente do que era, por exemplo, em 1994, no pré-Real. As queixas contra a corrupção estavam lá, o desejo de uma política social mais afirmativa também, mas havia a impressão de que existia uma hiperinflação. A estabilidade tem seu valor reconhecido. Hoje, em plena crise de confiança dos investidores internos e externos, muita gente critica os fundamentos da política econômica. Agora, para convencer o eleitorado brasileiro de que essa parte está errada, será preciso ultrapassar a couraça que é o sucesso do Real para as pessoas.

Veja – Qual a imagem do presidente Fernando Henrique para a população?
Coimbra – Depois de oito anos de governo, formou-se uma imagem, que eu pessoalmente não acho justa, de que o Fernando Henrique é um presidente insensível às questões relativas aos mais pobres, obcecado pelo controle da economia, sem nenhuma preocupação com uma política mais voltada para as necessidades básicas das pessoas. Um homem com a melhor formação possível, mas distante do sentimento popular. É percebido como viajado, culto, mas também como um homem vaidoso, no que isso significa de negativo. Tem a imagem de muita competência política e técnica, mas de utilização dessa capacidade para finalidades nem sempre tão nobres, como no caso de sua reeleição, da perpetuação de seu grupo no poder. Ou seja, FHC carrega a imagem de que, em sua lista de prioridades, o povo não vem necessariamente em primeiro lugar. É visto como alguém que representa muito bem o país no exterior, mas também como alguém que se ausenta muito.

Veja – E o que a população espera do próximo governo? Mudaram os anseios do eleitorado?
Coimbra – Não é muito diferente do que se mostrava em 1998. Já naquela época era grande a preocupação com o desemprego. Havia estabilização da economia, mas o emprego e a renda não aumentavam como queria o cidadão comum. O que passava pela cabeça dos brasileiros era que finalmente havia sido possível derrotar a inflação, um objetivo quase inalcançável. Se era assim, por que não se usava essa capacidade para melhorar as condições de vida das pessoas? Fernando Henrique venceu aquela eleição porque se apresentou como alguém que sabia ganhar da inflação e como alternativa para eliminar o desemprego naquele momento. E isso continua na agenda neste pleito. Algumas outras questões na área social permanecem muito graves para os eleitores, tanto quanto eram em 1998. Dizem respeito principalmente à questão da saúde, à melhoria no ensino fundamental para a população mais pobre, ao acesso das famílias de baixa renda à habitação. Isso é o que está em alta para o eleitorado hoje.

Veja – E o que está em baixa?
Coimbra – Alguns temas perderam apoio ao longo dos anos 90. Privatização, abertura comercial, atração de investimentos estrangeiros perderam muito de sua vitalidade como proposta e como conceito. Já não foram temas importantes na eleição de 1998, e hoje menos ainda. Digamos assim: uma agenda neoliberal não está na cabeça do eleitor.

Veja – Não ganha um voto sequer quem pregar a importância da responsabilidade fiscal em praça pública?
Coimbra – Em princípio, não. O que a população deseja é uma agenda que não se limite à obsessão em torno da estabilização. Ao longo desses anos, fizeram-se várias pesquisas de opinião em que se perguntou o que era mais desejável: baixíssima inflação com pouco emprego ou um pouco mais de inflação com queda da taxa de desemprego. Sempre foi esmagadora a maioria de pessoas favoráveis a alguma concessão no terreno da estabilidade para ter mais emprego, para alcançar melhores salários.

Veja – Oficialmente, a campanha eleitoral começa no dia 6, mas não passa uma semana sem que pelo menos uma pesquisa seja divulgada. De que modo isso muda o panorama das eleições?
Coimbra – Levantamento de intenção de voto é um elemento da democracia de massa moderna, quer se goste ou não. Em todos os países democráticos do mundo existem pesquisas de opinião. Em qualquer país minimamente desenvolvido elas são divulgadas regularmente pela imprensa. No mundo inteiro existe uma discussão sobre o excesso de levantamentos. A última eleição presidencial nos Estados Unidos foi extremamente marcada pelo "pesquisismo". Houve um levantamento na grande imprensa escrita americana, com os vinte principais jornais. Chegou-se à conclusão de que quase 70% das reportagens sobre a eleição tiveram as análises de intenção de voto como tema ou subsídio. Isso também está acontecendo no Brasil, o que acho extremamente empobrecedor. Virou corrida de cavalos. Nós nunca tínhamos feito tantas pesquisas numa fase de pré-campanha como fizemos nesta.

Veja – Há bem pouco tempo, um levantamento mostrou que 37% da população identificava José Serra, então ministro da Saúde, como médico. O nível de conhecimento do brasileiro sobre política é muito diferente do que tem o americano médio ou o francês?
Coimbra – Acho que é muito semelhante. Nas pesquisas que fazemos, um terço do eleitorado se diz interessado por assuntos políticos. Mas, quando se cruzam essas respostas com as daqueles que conversaram sobre política nas semanas anteriores, chega-se a apenas 15% da população. Ou seja, 85% dos brasileiros simplesmente não discutiram política. Mas acho que esse não é o ponto fundamental. Temos uma diferença importante em relação a outros países no fato de que, na maioria deles, essas pessoas com baixíssima informação ou interesse por assuntos relativos a política não são obrigadas a votar. No Brasil, são. A própria Justiça Eleitoral chama os votos brancos e nulos de voto alienado. É visto como se fosse uma coisa ruim. Isso é um equívoco, porque a ausência de voto nominal nessa parcela da população muitas vezes é mais um reflexo do respeito que ela tem pelo voto do que um sinal de desrespeito.

Veja – Esses 15% de eleitores que têm interesse e conversam sobre política são a chamada elite brasileira?
Coimbra – É um erro muito comum acreditar que os formadores de opinião estão apenas no topo da pirâmide. O formador de opinião existe em todas as faixas de renda. É mais jovem que velho. Tipicamente, estamos falando de uma moça ou um rapaz que já está no ensino médio, numa família de classe trabalhadora, lê jornal, se interessa mais sobre isso e transmite a informação. Por analogia, você tem fenômenos semelhantes na sociedade como um todo. Até pouco tempo atrás, havia mais homens nessa situação. Isso mudou. A proporção de indecisão entre as mulheres era três vezes maior do que entre os homens, mas está ficando cada vez mais parecida.

Veja – Historicamente, todos os levantamentos feitos sobre a imagem de instituições no Brasil demonstram que a crença da população nos políticos é muito pequena. Como anda a imagem deles hoje?
Coimbra – A população vê os políticos com grande desconfiança e, em geral, com sentimentos muito negativos: baixa estima, baixo respeito. Se você listar dez tipos de pessoa e perguntar em qual ela acredita menos, os políticos vão em primeiro lugar. Ao longo dos anos pós-redemocratização do Brasil, isso se alternou. O início do governo Sarney foi um momento de muita valorização dos políticos. Afinal de contas, eles eram os grandes responsáveis pela transição do autoritarismo para a democracia. Mas depois daquele começo do governo Sarney o desgaste recomeçou. Com o impeachment de Collor, mais uma vez houve o reencontro do país com seus políticos. Nestes últimos anos, apesar de nunca se ter feito uma crítica direta ao presidente e ao grupo em torno dele, formou-se a idéia de que a corrupção está crescendo. Hoje, 60% a 70% dos entrevistados respondem sim à pergunta sobre se a corrupção no Brasil está aumentando. Isso envolve tudo. Desde o dirigente de futebol que é deputado, o prefeito picareta, o governador suspeito, o parlamentar que fez um negócio, os juízes como Lalau, os que vendem sentença.

Veja – Atribui-se o nervosismo no mercado à dianteira de Lula nas pesquisas. Seria um receio dos investidores de que, com a vitória do PT, a situação econômica piore e os contratos sejam quebrados? Já dá para dizer se Lula vencerá ou não as eleições?
Coimbra – Essa reação foi curiosa. É um paradoxo. O conjunto de informações sobre a economia não mudou do último mês para cá, período em que houve essa abrupta queda da posição do Brasil nas análises de risco de investimento. Portanto, não seria a justificativa para uma mudança de percepção de risco. É de imaginar então que o mercado supõe que o risco de uma mudança política aumentou, que as chances de Lula são maiores hoje que há algumas semanas. E nada autoriza essa suposição. As perspectivas da candidatura Lula não mudaram. Elas são tão boas hoje quanto eram antes. E é importante também dizer que a candidatura Serra nunca esteve, durante toda a pré-campanha, em situação tão boa como agora. As últimas pesquisas mostram a tendência de ele se isolar no segundo lugar. Isso já é uma mudança importante em relação ao cenário que havia até pouco tempo atrás.

Veja – E quem ganhará essa eleição?
Coimbra – Não sei.

 
 
   
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