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A
voz do eleitor
O cientista político dono
do Vox Populi diz que
o
candidato ideal não está
na disputa e que o
Real ainda rende votos
Ronaldo França
Nélio Rodrigues/1° Plano
 |
"Não
digo que as pessoas acabem aceitando votar em quem rouba ou é
incapaz, mas sempre vai
haver a dificuldade de achar o ideal"
|
De
um edifício no centro de Belo Horizonte, o cientista político
Marcos Coimbra, 51 anos, desfruta uma vista privilegiada do cenário
eleitoral brasileiro. É a sede do Instituto Vox Populi, que preside
desde 1984. Dali, já acompanhou todas as eleições
no país no período após a redemocratização.
Sua experiência vai além. Inclui eleições em
outros países, como Bolívia, Equador, Peru e Moçambique.
Mas não é comum vê-lo viajar para tão longe.
Sua rotina à frente de um dos maiores institutos de pesquisa brasileiros
admite poucas concessões. Entre elas, natação e partidas
de tênis no clube próximo de sua casa, um bairro afastado
do centro da cidade. Com mais de vinte pesquisas eleitorais realizadas
somente neste ano, tem de cabeça a medida do pensamento dos eleitores.
"A maioria das pessoas trocaria a estabilização por mais
empregos." Na semana passada, concedeu a VEJA a seguinte entrevista.
Veja Qual é o presidente que o brasileiro quer?
Coimbra
As características que se deseja são as mesmas em qualquer
lugar do mundo. Todas as pesquisas são unânimes em mostrar
que isoladamente o atributo mais valorizado é a honestidade, porque
se pressupõe que, se o presidente não for honesto, não
haverá preocupação com "os outros". A honestidade,
um atributo de caráter, é vista como uma garantia da probidade
do governante. Em segundo lugar vem um conjunto de características
que dizem respeito à biografia e à experiência do
candidato. São questões mais objetivas. Capacidade técnica,
treino, formação, estudo...
Veja Mas são justamente essas as críticas que
se fazem a Lula, o candidato mais bem colocado nas pesquisas.
Coimbra
Nem
todas as pessoas avaliam do mesmo modo essas características. Existem
muitas maneiras de perceber essa qualidade. No caso de Lula, muita gente
acha que ele não tem esses atributos, mas uma parcela do eleitorado
que não é pequena acredita que, por ter sido
líder sindical, dirigente sindical e deputado, ele tem condições
de ser presidente. E, além de tudo, há um conjunto de atributos
que são de personalidade: empenho, determinação,
firmeza... O eleitor sabe que o candidato ideal não está
concorrendo nesta eleição, assim como não esteve
na última e não estará nas que vêm pela frente.
A eleição é uma escolha real, no momento presente,
entre pessoas reais, com seus defeitos e suas qualidades. E o eleitor
tem de admitir ceder em alguma coisa para ganhar de outro lado. Não
digo que as pessoas acabem aceitando votar em gente que rouba ou que é
incapaz, mas sempre vai haver a dificuldade de encontrar o ideal.
Veja E como se tem processado essa escolha na cabeça
do eleitor?
Coimbra
A
maioria pensa o futuro com base no presente. O que conta é sua
percepção do atual governo e do presidente em exercício,
as insatisfações. Em 1989, havia uma queixa de que o presidente
José Sarney era um político tradicional, palaciano, que
usava jaquetão. Uma das coisas que seduziram uma parcela do eleitorado
na candidatura de Collor foi justamente o fato de ele ter uma imagem de
não-Sarney. Ele não era de palácio, era dinâmico,
não era um político tradicional. Roseana Sarney, num determinado
momento, atraía muito porque era uma espécie de anti-FHC.
Era uma mulher que tinha preocupação social, calorosa. O
Garotinho projetou essa imagem, de uma administração voltada
para programas sociais. A própria candidatura de José Serra
foi assimilada assim, por causa dos projetos desenvolvidos por ele no
Ministério da Saúde. Quase todos os candidatos são
vistos como alguém que vai fazer uma administração
diferente da atual.
Veja Fernando Henrique Cardoso tem hoje a melhor avaliação
do segundo mandato. No entanto, o senhor diz que a população
ainda assim quer mudanças. Não é de certa forma contraditório?
Coimbra
Não
há reações únicas a tantas coisas diferentes.
Ao mesmo tempo que as pessoas se queixam do desemprego e do que imaginam
que é o desinteresse do governo por esse tema, elas também
gostam e prezam a estabilidade. Mesmo no auge do desgaste deste governo,
que foi durante o apagão, a porcentagem de pessoas que queriam
que o próximo presidente reformulasse todas as políticas
e todas as prioridades do próximo governo era de 45%, para arredondar.
De lá para cá, esse índice vem caindo sistematicamente
e hoje não chega a 30%. Os outros mais de 70% querem transformação,
mas não em tudo. As pessoas também têm medo de uma
mudança que não sabem onde vai dar.
Veja O Real já perdeu seus efeitos eleitorais ou ainda
está na campanha?
Coimbra
Claro que está. O quadro em que o eleitor se encontra é
diferente do que era, por exemplo, em 1994, no pré-Real. As queixas
contra a corrupção estavam lá, o desejo de uma política
social mais afirmativa também, mas havia a impressão de
que existia uma hiperinflação. A estabilidade tem seu valor
reconhecido. Hoje, em plena crise de confiança dos investidores
internos e externos, muita gente critica os fundamentos da política
econômica. Agora, para convencer o eleitorado brasileiro de que
essa parte está errada, será preciso ultrapassar a couraça
que é o sucesso do Real para as pessoas.
Veja Qual a imagem do presidente Fernando Henrique para a
população?
Coimbra
Depois de oito anos de governo, formou-se uma imagem, que eu pessoalmente
não acho justa, de que o Fernando Henrique é um presidente
insensível às questões relativas aos mais pobres,
obcecado pelo controle da economia, sem nenhuma preocupação
com uma política mais voltada para as necessidades básicas
das pessoas. Um homem com a melhor formação possível,
mas distante do sentimento popular. É percebido como viajado, culto,
mas também como um homem vaidoso, no que isso significa de negativo.
Tem a imagem de muita competência política e técnica,
mas de utilização dessa capacidade para finalidades nem
sempre tão nobres, como no caso de sua reeleição,
da perpetuação de seu grupo no poder. Ou seja, FHC carrega
a imagem de que, em sua lista de prioridades, o povo não vem necessariamente
em primeiro lugar. É visto como alguém que representa muito
bem o país no exterior, mas também como alguém que
se ausenta muito.
Veja E o que a população espera do próximo
governo? Mudaram os anseios do eleitorado?
Coimbra
Não é muito diferente do que se mostrava em 1998. Já
naquela época era grande a preocupação com o desemprego.
Havia estabilização da economia, mas o emprego e a renda
não aumentavam como queria o cidadão comum. O que passava
pela cabeça dos brasileiros era que finalmente havia sido possível
derrotar a inflação, um objetivo quase inalcançável.
Se era assim, por que não se usava essa capacidade para melhorar
as condições de vida das pessoas? Fernando Henrique venceu
aquela eleição porque se apresentou como alguém que
sabia ganhar da inflação e como alternativa para eliminar
o desemprego naquele momento. E isso continua na agenda neste pleito.
Algumas outras questões na área social permanecem muito
graves para os eleitores, tanto quanto eram em 1998. Dizem respeito principalmente
à questão da saúde, à melhoria no ensino fundamental
para a população mais pobre, ao acesso das famílias
de baixa renda à habitação. Isso é o que está
em alta para o eleitorado hoje.
Veja E o que está em baixa?
Coimbra
Alguns temas perderam apoio ao longo dos anos 90. Privatização,
abertura comercial, atração de investimentos estrangeiros
perderam muito de sua vitalidade como proposta e como conceito. Já
não foram temas importantes na eleição de 1998, e
hoje menos ainda. Digamos assim: uma agenda neoliberal não está
na cabeça do eleitor.
Veja Não ganha um voto sequer quem pregar a importância
da responsabilidade fiscal em praça pública?
Coimbra
Em princípio, não. O que a população deseja
é uma agenda que não se limite à obsessão
em torno da estabilização. Ao longo desses anos, fizeram-se
várias pesquisas de opinião em que se perguntou o que era
mais desejável: baixíssima inflação com pouco
emprego ou um pouco mais de inflação com queda da taxa de
desemprego. Sempre foi esmagadora a maioria de pessoas favoráveis
a alguma concessão no terreno da estabilidade para ter mais emprego,
para alcançar melhores salários.
Veja Oficialmente, a campanha eleitoral começa no
dia 6, mas não passa uma semana sem que pelo menos uma pesquisa
seja divulgada. De que modo isso muda o panorama das eleições?
Coimbra
Levantamento de intenção de voto é um elemento da
democracia de massa moderna, quer se goste ou não. Em todos os
países democráticos do mundo existem pesquisas de opinião.
Em qualquer país minimamente desenvolvido elas são divulgadas
regularmente pela imprensa. No mundo inteiro existe uma discussão
sobre o excesso de levantamentos. A última eleição
presidencial nos Estados Unidos foi extremamente marcada pelo "pesquisismo".
Houve um levantamento na grande imprensa escrita americana, com os vinte
principais jornais. Chegou-se à conclusão de que quase 70%
das reportagens sobre a eleição tiveram as análises
de intenção de voto como tema ou subsídio. Isso também
está acontecendo no Brasil, o que acho extremamente empobrecedor.
Virou corrida de cavalos. Nós nunca tínhamos feito tantas
pesquisas numa fase de pré-campanha como fizemos nesta.
Veja Há bem pouco tempo, um levantamento mostrou que
37% da população identificava José Serra, então
ministro da Saúde, como médico. O nível de conhecimento
do brasileiro sobre política é muito diferente do que tem
o americano médio ou o francês?
Coimbra
Acho que é muito semelhante. Nas pesquisas que fazemos, um terço
do eleitorado se diz interessado por assuntos políticos. Mas, quando
se cruzam essas respostas com as daqueles que conversaram sobre política
nas semanas anteriores, chega-se a apenas 15% da população.
Ou seja, 85% dos brasileiros simplesmente não discutiram política.
Mas acho que esse não é o ponto fundamental. Temos uma diferença
importante em relação a outros países no fato de
que, na maioria deles, essas pessoas com baixíssima informação
ou interesse por assuntos relativos a política não são
obrigadas a votar. No Brasil, são. A própria Justiça
Eleitoral chama os votos brancos e nulos de voto alienado. É visto
como se fosse uma coisa ruim. Isso é um equívoco, porque
a ausência de voto nominal nessa parcela da população
muitas vezes é mais um reflexo do respeito que ela tem pelo voto
do que um sinal de desrespeito.
Veja Esses 15% de eleitores que têm interesse e conversam
sobre política são a chamada elite brasileira?
Coimbra
É um erro muito comum acreditar que os formadores de opinião
estão apenas no topo da pirâmide. O formador de opinião
existe em todas as faixas de renda. É mais jovem que velho. Tipicamente,
estamos falando de uma moça ou um rapaz que já está
no ensino médio, numa família de classe trabalhadora, lê
jornal, se interessa mais sobre isso e transmite a informação.
Por analogia, você tem fenômenos semelhantes na sociedade
como um todo. Até pouco tempo atrás, havia mais homens nessa
situação. Isso mudou. A proporção de indecisão
entre as mulheres era três vezes maior do que entre os homens, mas
está ficando cada vez mais parecida.
Veja Historicamente, todos os levantamentos feitos sobre
a imagem de instituições no Brasil demonstram que a crença
da população nos políticos é muito pequena.
Como anda a imagem deles hoje?
Coimbra
A população vê os políticos com grande desconfiança
e, em geral, com sentimentos muito negativos: baixa estima, baixo respeito.
Se você listar dez tipos de pessoa e perguntar em qual ela acredita
menos, os políticos vão em primeiro lugar. Ao longo dos
anos pós-redemocratização do Brasil, isso se alternou.
O início do governo Sarney foi um momento de muita valorização
dos políticos. Afinal de contas, eles eram os grandes responsáveis
pela transição do autoritarismo para a democracia. Mas depois
daquele começo do governo Sarney o desgaste recomeçou. Com
o impeachment de Collor, mais uma vez houve o reencontro do país
com seus políticos. Nestes últimos anos, apesar de nunca
se ter feito uma crítica direta ao presidente e ao grupo em torno
dele, formou-se a idéia de que a corrupção está
crescendo. Hoje, 60% a 70% dos entrevistados respondem sim à pergunta
sobre se a corrupção no Brasil está aumentando. Isso
envolve tudo. Desde o dirigente de futebol que é deputado, o prefeito
picareta, o governador suspeito, o parlamentar que fez um negócio,
os juízes como Lalau, os que vendem sentença.
Veja Atribui-se o nervosismo no mercado à dianteira
de Lula nas pesquisas. Seria um receio dos investidores de que, com a
vitória do PT, a situação econômica piore e
os contratos sejam quebrados? Já dá para dizer se Lula vencerá
ou não as eleições?
Coimbra
Essa reação foi curiosa. É um paradoxo. O conjunto
de informações sobre a economia não mudou do último
mês para cá, período em que houve essa abrupta queda
da posição do Brasil nas análises de risco de investimento.
Portanto, não seria a justificativa para uma mudança de
percepção de risco. É de imaginar então que
o mercado supõe que o risco de uma mudança política
aumentou, que as chances de Lula são maiores hoje que há
algumas semanas. E nada autoriza essa suposição. As perspectivas
da candidatura Lula não mudaram. Elas são tão boas
hoje quanto eram antes. E é importante também dizer que
a candidatura Serra nunca esteve, durante toda a pré-campanha,
em situação tão boa como agora. As últimas
pesquisas mostram a tendência de ele se isolar no segundo lugar.
Isso já é uma mudança importante em relação
ao cenário que havia até pouco tempo atrás.
Veja E quem ganhará essa eleição?
Coimbra
Não
sei.
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