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Edição 1 758 - 3 de julho de 2002
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Gustavo Franco

Oito anos do
Plano Real

"Gostando ou não de mercados financeiros
e
sua complexa psicologia, o novo presidente
vai ter de
se acostumar a lidar com eles"


Ilustração Ale Setti


Segunda feira 1º de julho faz oito anos das primeiras emissões do real, a moeda brasileira criada em 27 de fevereiro de 1994 com o nome de URV (Unidade Real de Valor). Nada mau para a moeda que o presidente do PT e seu séquito de barbudinhos zangados de linguagem parnasiana até recentemente insistiam ser um embuste com objetivos eleitorais. Nada mau para uma moeda à qual o porta-bandeira honorário do Parque Jurássico, o deputado Delfim Netto, deu quatro meses de vida e até hoje diz que fracassou.

Rigorosamente falando, o Plano Real estava concluído ao final de 1996, quando a inflação brasileira, na margem, atingiu "níveis internacionais". Em cerca de dois anos, portanto, a inflação foi reduzida de 50% mensais para zero sem congelamento nem controle de preços, sem prefixações, truques, mágicas, confiscos e interferências em contratos e, principalmente, sem recessão.

Pelo menos dois elementos foram cruciais para esse extraordinário resultado. De um lado, a consciência de que reformas deviam ser feitas, ao longo de vários anos, a fim de construir os chamados "fundamentos macroeconômicos" para que a estabilização se tornasse uma conquista permanente. Como o "mercado" e também o eleitorado acreditaram que as reformas andariam, e se encantaram com o projeto, os efeitos delas foram "antecipados", numa espécie de círculo virtuoso.

De outro lado, os mercados internacionais de capitais se encontravam em um estado de grande abundância, o que nos permitiu conduzir uma política cambial sem a qual a estabilização não teria sido alcançada com tanta facilidade. Pouca gente se lembra de que o Real começou sua existência num regime de flutuação cambial exatamente como o de hoje. Em tempos de abundância, todavia, a flutuação não deu muito certo e nos levou às bandas cambiais, que nos serviram muito bem até a violenta mudança meteorológica ocorrida em meados de 1998.

Em fins de 1997, a crise da Ásia começava a indicar uma mudança para pior na conjuntura internacional, que, todavia, apenas se tornaria clara e dramática com a crise da Rússia, em meados de 1998. Essas difíceis e inesperadas circunstâncias demandaram uma elevação do ritmo e da urgência das reformas, de seus resultados no plano fiscal, e também uma mudança no regime cambial. O acordo com o FMI nos deu o apoio necessário para essas transformações, mas, a despeito dos melhores resultados na área fiscal nos anos subseqüentes, o ímpeto reformador restou consideravelmente diminuído. O governo perdeu um tanto de sua convicção e, dividido, jogou na defesa durante todo o segundo mandato.

Mas o grande teste vem agora, quando a eleição presidencial nos apresenta quatro candidatos, todos de oposição. É, portanto, genuína a perspectiva de mudança, e o mercado tem uma igualmente genuína dúvida sobre a direção. É verdade que já há algum tempo a oposição começa a dar sinais de que quer desligar-se da postura peçonhenta que sempre adotou com relação ao Real. Mais recentemente, e em resposta ao justificado nervosismo do mercado financeiro, é bastante evidente a transmutação dos barbudinhos em bons rapazes que visitam empresas e bancos com conversas amenas e ponderadas, falando na estabilidade como valor indiscutível e em outras coisas que apenas fazem lembrar um bordão freqüentemente atirado contra FHC: esqueçam o que eu escrevi!

Não se trata aqui de justificar os exageros do mercado nos últimos tempos, mas seria tolo ignorar que o nervosismo é generalizado e autêntico, e que acabou tendo efeitos benéficos, pois serviu para antecipar um choque de realidade positivo que fatalmente ocorreria quando os economistas de oposição fossem intimados a migrar do caminhão de som para a mesa de operações do Banco Central. Gostando ou não de mercados financeiros e sua complexa psicologia, o novo presidente vai ter de se acostumar a lidar com eles, pois continuarão a ser o cenário básico no âmbito do qual a política econômica é digerida. É bom que os candidatos já comecem a praticar.


Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.comwww.gfranco.com.br)


 
 
   
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