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Gustavo
Franco
Oito
anos do
Plano Real
"Gostando
ou não
de mercados financeiros
e sua
complexa psicologia, o
novo presidente
vai ter de se
acostumar a
lidar com eles"
Ilustração Ale Setti
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Segunda feira 1º de julho faz oito anos das primeiras emissões
do real, a moeda brasileira criada em 27 de fevereiro de 1994 com o nome
de URV (Unidade Real de Valor). Nada mau para a moeda que o presidente
do PT e seu séquito de barbudinhos zangados de linguagem parnasiana
até recentemente insistiam ser um embuste com objetivos eleitorais.
Nada mau para uma moeda à qual o porta-bandeira honorário
do Parque Jurássico, o deputado Delfim Netto, deu quatro meses
de vida e até hoje diz que fracassou.
Rigorosamente falando, o Plano Real estava concluído ao final de
1996, quando a inflação brasileira, na margem, atingiu "níveis
internacionais". Em cerca de dois anos, portanto, a inflação
foi reduzida de 50% mensais para zero sem congelamento nem controle de
preços, sem prefixações, truques, mágicas,
confiscos e interferências em contratos e, principalmente, sem recessão.
Pelo menos dois elementos foram cruciais para esse extraordinário
resultado. De um lado, a consciência de que reformas deviam ser
feitas, ao longo de vários anos, a fim de construir os chamados
"fundamentos macroeconômicos" para que a estabilização
se tornasse uma conquista permanente. Como o "mercado" e também
o eleitorado acreditaram que as reformas andariam, e se encantaram com
o projeto, os efeitos delas foram "antecipados", numa espécie de
círculo virtuoso.
De outro lado, os mercados internacionais de capitais se encontravam em
um estado de grande abundância, o que nos permitiu conduzir uma
política cambial sem a qual a estabilização não
teria sido alcançada com tanta facilidade. Pouca gente se lembra
de que o Real começou sua existência num regime de flutuação
cambial exatamente como o de hoje. Em tempos de abundância, todavia,
a flutuação não deu muito certo e nos levou às
bandas cambiais, que nos serviram muito bem até a violenta mudança
meteorológica ocorrida em meados de 1998.
Em fins de 1997, a crise da Ásia começava a indicar uma
mudança para pior na conjuntura internacional, que, todavia, apenas
se tornaria clara e dramática com a crise da Rússia, em
meados de 1998. Essas difíceis e inesperadas circunstâncias
demandaram uma elevação do ritmo e da urgência das
reformas, de seus resultados no plano fiscal, e também uma mudança
no regime cambial. O acordo com o FMI nos deu o apoio necessário
para essas transformações, mas, a despeito dos melhores
resultados na área fiscal nos anos subseqüentes, o ímpeto
reformador restou consideravelmente diminuído. O governo perdeu
um tanto de sua convicção e, dividido, jogou na defesa durante
todo o segundo mandato.
Mas o grande teste vem agora, quando a eleição presidencial
nos apresenta quatro candidatos, todos de oposição. É,
portanto, genuína a perspectiva de mudança, e o mercado
tem uma igualmente genuína dúvida sobre a direção.
É verdade que já há algum tempo a oposição
começa a dar sinais de que quer desligar-se da postura peçonhenta
que sempre adotou com relação ao Real. Mais recentemente,
e em resposta ao justificado nervosismo do mercado financeiro, é
bastante evidente a transmutação dos barbudinhos em bons
rapazes que visitam empresas e bancos com conversas amenas e ponderadas,
falando na estabilidade como valor indiscutível e em outras coisas
que apenas fazem lembrar um bordão freqüentemente atirado
contra FHC: esqueçam o que eu escrevi!
Não se trata aqui de justificar os exageros do mercado nos últimos
tempos, mas seria tolo ignorar que o nervosismo é generalizado
e autêntico, e que acabou tendo efeitos benéficos, pois serviu
para antecipar um choque de realidade positivo que fatalmente ocorreria
quando os economistas de oposição fossem intimados a migrar
do caminhão de som para a mesa de operações do Banco
Central. Gostando ou não de mercados financeiros e sua complexa
psicologia, o novo presidente vai ter de se acostumar a lidar com eles,
pois continuarão a ser o cenário básico no âmbito
do qual a política econômica é digerida. É
bom que os candidatos já comecem a praticar.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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