Cinema
Nada se cria, tudo se imita
James
Cameron não produziu, não escreveu e não dirigiu
O
Exterminador do Futuro A Salvação. Mas não há
cena
do filme que não seja uma cópia de seu estilo e de sua
visão

Isabela Boscov
Divulgação  |
A VOLTA DE J.C. Bale
como o messias da rebelião contra as máquinas, John Connor (mesmas
iniciais de Jesus Cristo e, claro, James Cameron): quando ele perceber que um
estreante lhe roubou a glória, vai ter outro chilique |
Quando
um diretor assume uma série iniciada por outro cineasta, o esperado é
que lhe imprima uma marca pessoal que justifique ter sido ele o escolhido. Não
fazê-lo indicaria alguma medida de fracasso. Pois O Exterminador do
Futuro A Salvação (Terminator Salvation, Estados
Unidos, 2009), que estreia nesta sexta-feira no país, oferece um bom argumento
contra a generalização dessa tese. Na ausência de uma marca
pessoal e é esse o caso do diretor McG , tanto melhor que
o sucessor se limite a reproduzir as singularidades e qualidades do trabalho original.
Especialmente quando elas são tão abundantes quanto nos dois Exterminador
feitos por James Cameron, em 1984 e 1991, os quais desdobram com grande clareza
e igual inspiração o tema que obceca o diretor: o ímpeto
com que a humanidade domina o mundo à sua volta por meio da tecnologia
e o temor, não de todo irracional, que ela associa a essa evolução,
de em algum ponto perder o controle sobre sua criação e ficar à
mercê dela. Cameron tem com a tecnologia e as máquinas uma relação
instintiva. É o proponente de alguns progressos técnicos notáveis
nas últimas duas décadas, na forma de softwares, do uso de maquetes
ou de invenções óticas (como o novo sistema 3D); e invariavelmente
os aplica a enredos repletos daquela angústia. Superar uma visão
tão individual e tão marcante seria impraticável. Daí
o bom senso de McG em se restringir ao possível: imitar Cameron.
Por esse motivo também o novo Exterminador ignora o terceiro filme
da série, que não foi dirigido por Cameron, descartando-o como uma
continuação espúria. Salvação retoma
a trama a partir do segundo episódio: John Connor, o profetizado líder
da rebelião contra as máquinas, visto pela última vez na
adolescência, é agora um dos integrantes da pequena resistência
humana que sobrevive em um mundo pós-apocalíptico, ocupado e duramente
patrulhado pela rede de computadores SkyNet e pelas máquinas de extermínio
que ela produz sem descanso. Durante um ataque a uma instalação
da SkyNet, surgem dois fatos novos nessa guerra: um, a descoberta de uma frequência
de rádio capaz de desativar os exterminadores e assim propiciar a vitória
dos seres humanos que restam; o outro, a estranha ressurreição de
um homem que anos antes havia sido executado por um crime, e que desperta sem
saber onde está mas logo se posta ao lado de Kyle Reese, um rapaz
que, sem o saber, é uma peça crucial desse jogo.
Uma das tarefas de McG é fazer todas essas trajetórias convergirem,
e ele a cumpre mimetizando Cameron no estilo e no ritmo: ação incessante
e pesada, rodada muito de perto e, como manda a tendência sempre seguida
por Cameron e recentemente dominante entre outros diretores de superproduções,
com apenas o indispensável de computação gráfica e
o máximo de acrobacias reais, que criam muito mais verossimilhança
e intensidade. (De brincadeira e como homenagem, ele inventou também uma
ponta para o Exterminador original e atual "governator" da Califórnia,
Arnold Schwarzenegger.) Sua outra tarefa é não atrapalhar os atores,
alguns deles excelentes Christian Bale (que, num episódio célebre
entre os usuários do YouTube, foi atrapalhado por um diretor de fotografia
e devolveu com sobra a injúria) como John Connor, Anton Yelchin, o Dr.
Chekov de Star Trek, no papel de Kyle Reese, e o estreante Sam Worthington
como o homem que misteriosamente volta à vida. Esse australiano, aliás,
é a arma secreta de fato de Salvação: rouba o filme
de Bale e sai correndo com ele debaixo do braço mas descobri-lo
não foi mérito de McG. O ator é também o protagonista
de Avatar, que só deve estrear em dezembro mas começou a
ser produzido bem antes de Salvação. E que, veja-se que coincidência,
é dirigido por James Cameron o qual, assim, mesmo sem ter nada a
ver com o novo Exterminador do Futuro, dá ao filme seu único
momento verdadeiro de inspiração.
| O CHILIQUE QUE NINGUÉM ESQUECE Há
três meses, um episódio dos bastidores de Salvação
fez a festa de alguns milhões de pessoas no YouTube: um diretor de fotografia
foi mexer na luz bem no meio de uma cena de Christian Bale. Pela falha, foi punido
com uma atitude ainda menos profissional que a sua. Durante 3 minutos e 53 segundos,
o ator xingou o sujeito aos berros, sem parar, à taxa de um palavrão
a cada 5,8 segundos. Bale fez vários mea-culpa públicos, mas em
vão: assim que ele abre a boca, em Salvação, o faniquito
é a primeira lembrança que vem à mente de quem o ouviu
e a causa das várias risadinhas que têm sido ouvidas nas plateias
em que o filme é visto, naquilo que deveria ser um momento dramático.
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