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Edição 2115

3 de junho de 2009
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Cinema
Nada se cria, tudo se imita

James Cameron não produziu, não escreveu e não dirigiu
O Exterminador do Futuro – A Salvação. Mas não há cena
do filme que não seja uma cópia de seu estilo e de sua visão


Isabela Boscov

Divulgação
A VOLTA DE J.C.
Bale como o messias da rebelião contra as máquinas, John Connor (mesmas iniciais de Jesus Cristo e, claro, James Cameron): quando ele perceber que um estreante lhe roubou a glória, vai ter outro chilique


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Quando um diretor assume uma série iniciada por outro cineasta, o esperado é que lhe imprima uma marca pessoal que justifique ter sido ele o escolhido. Não fazê-lo indicaria alguma medida de fracasso. Pois O Exterminador do Futuro – A Salvação (Terminator Salvation, Estados Unidos, 2009), que estreia nesta sexta-feira no país, oferece um bom argumento contra a generalização dessa tese. Na ausência de uma marca pessoal – e é esse o caso do diretor McG –, tanto melhor que o sucessor se limite a reproduzir as singularidades e qualidades do trabalho original. Especialmente quando elas são tão abundantes quanto nos dois Exterminador feitos por James Cameron, em 1984 e 1991, os quais desdobram com grande clareza e igual inspiração o tema que obceca o diretor: o ímpeto com que a humanidade domina o mundo à sua volta por meio da tecnologia – e o temor, não de todo irracional, que ela associa a essa evolução, de em algum ponto perder o controle sobre sua criação e ficar à mercê dela. Cameron tem com a tecnologia e as máquinas uma relação instintiva. É o proponente de alguns progressos técnicos notáveis nas últimas duas décadas, na forma de softwares, do uso de maquetes ou de invenções óticas (como o novo sistema 3D); e invariavelmente os aplica a enredos repletos daquela angústia. Superar uma visão tão individual e tão marcante seria impraticável. Daí o bom senso de McG em se restringir ao possível: imitar Cameron.

Por esse motivo também o novo Exterminador ignora o terceiro filme da série, que não foi dirigido por Cameron, descartando-o como uma continuação espúria. Salvação retoma a trama a partir do segundo episódio: John Connor, o profetizado líder da rebelião contra as máquinas, visto pela última vez na adolescência, é agora um dos integrantes da pequena resistência humana que sobrevive em um mundo pós-apocalíptico, ocupado e duramente patrulhado pela rede de computadores SkyNet e pelas máquinas de extermínio que ela produz sem descanso. Durante um ataque a uma instalação da SkyNet, surgem dois fatos novos nessa guerra: um, a descoberta de uma frequência de rádio capaz de desativar os exterminadores e assim propiciar a vitória dos seres humanos que restam; o outro, a estranha ressurreição de um homem que anos antes havia sido executado por um crime, e que desperta sem saber onde está – mas logo se posta ao lado de Kyle Reese, um rapaz que, sem o saber, é uma peça crucial desse jogo.

Uma das tarefas de McG é fazer todas essas trajetórias convergirem, e ele a cumpre mimetizando Cameron no estilo e no ritmo: ação incessante e pesada, rodada muito de perto e, como manda a tendência sempre seguida por Cameron e recentemente dominante entre outros diretores de superproduções, com apenas o indispensável de computação gráfica e o máximo de acrobacias reais, que criam muito mais verossimilhança e intensidade. (De brincadeira e como homenagem, ele inventou também uma ponta para o Exterminador original e atual "governator" da Califórnia, Arnold Schwarzenegger.) Sua outra tarefa é não atrapalhar os atores, alguns deles excelentes – Christian Bale (que, num episódio célebre entre os usuários do YouTube, foi atrapalhado por um diretor de fotografia e devolveu com sobra a injúria) como John Connor, Anton Yelchin, o Dr. Chekov de Star Trek, no papel de Kyle Reese, e o estreante Sam Worthington como o homem que misteriosamente volta à vida. Esse australiano, aliás, é a arma secreta de fato de Salvação: rouba o filme de Bale e sai correndo com ele debaixo do braço – mas descobri-lo não foi mérito de McG. O ator é também o protagonista de Avatar, que só deve estrear em dezembro mas começou a ser produzido bem antes de Salvação. E que, veja-se que coincidência, é dirigido por James Cameron – o qual, assim, mesmo sem ter nada a ver com o novo Exterminador do Futuro, dá ao filme seu único momento verdadeiro de inspiração.

O CHILIQUE QUE NINGUÉM ESQUECE

Há três meses, um episódio dos bastidores de Salvação fez a festa de alguns milhões de pessoas no YouTube: um diretor de fotografia foi mexer na luz bem no meio de uma cena de Christian Bale. Pela falha, foi punido com uma atitude ainda menos profissional que a sua. Durante 3 minutos e 53 segundos, o ator xingou o sujeito aos berros, sem parar, à taxa de um palavrão a cada 5,8 segundos. Bale fez vários mea-culpa públicos, mas em vão: assim que ele abre a boca, em Salvação, o faniquito é a primeira lembrança que vem à mente de quem o ouviu – e a causa das várias risadinhas que têm sido ouvidas nas plateias em que o filme é visto, naquilo que deveria ser um momento dramático.


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