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Ponto
de vista: Lya Luft
Quebrar o silêncio
"Escrevo sobre o drama de falar quando
seria melhor calar, de ficar quieto quando
uma palavra teria sido a salvação, e a gente
não sabia mas devia ter sabido"
Começo a escrever um novo livro, um ensaio
sobre o silêncio: o silêncio bom e o silêncio
mau, o necessário e o danoso, o inevitável e o que
nasce nos porões da nossa covardia.
Escrevo sobre o drama de falar quando seria melhor
calar, de ficar quieto quando uma palavra teria sido a salvação,
e a gente não sabia mas devia ter sabido.
Escrevo sobre o silêncio entre as gerações,
eterno conflito. Nem sempre escutamos nossos filhos para sentir
como estão. Assim nasce o silêncio da omissão,
quando devíamos estar presentes. Difícil é
saber qual o momento de interferir, orientar e exigir (por que temos
tanta dificuldade de exigir coisas dos filhos?), e quando é
melhor apenas observar, para que o outro se desenvolva.
Atômica Studio
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Escrevo sobre a barreira inegável entre os gêneros,
região de silêncios doloridos, zona interdita entre
masculino e feminino, fonte de desencontros e sofrimento, mas também
de superação e descobertas. Desperdiçamos momentos
bons porque nos entregamos à negatividade: não vemos
a boca do beijo, porque tememos a mordida. Nem percebemos direito
nosso próprio rosto no espelho, e assim escolhemos coisas
que nos desconstroem.
Escrevo sobre o silêncio dos que se desconstroem,
matando-se lentamente na droga e em outros modos de autodestruição:
com quem dialogam nesse caminho, que voz escutarão, o que
os leva à irrealidade? Mesmo nossas esperanças e impulsos
positivos são vozes que podem ser libertárias ou fatais.
Pensei nisso especificamente ao assistir ao filme
Capote, e ao reler uma biografia desse autor americano que
traduzi há muito tempo. Brilhante, talentoso, Truman Capote
superou uma infância de desamor e abandono para se tornar
o querido dos ricos e importantes na sociedade. Ao chegar ao cume
do sucesso, como acontece com tantos, não suportou: não
tinha nascido para ser feliz. Então começou a se destruir,
correndo atrás das vozes mais sombrias.
No livro que começo a escrever, falo de surdez
e mordaça, mas também de visão e cegueira.
O filósofo inglês John Gray, autor
de Cachorros de Palha, diz que a humanidade não nasceu
para isso que tanto busca conquistar, possuir , mas
simplesmente para aprender a enxergar.
Talvez não haja outra saída para as
loucuras humanas a não ser olhar o outro com respeito. Tolerar
não é respeitar. Alguém disse que o mais importante
entre as pessoas não é a tolerância, que é
benevolente, mas o respeito, que vem do conhecimento.
Olhar, ouvir, conhecer e reagir: algo bem diferente
da hipocrisia dos que têm voz, influência, poder e posições
importantes, mas fecham olhos e bocas diante da humilhação
geral de ver inocentes sendo caluniados e culpados sendo absolvidos.
Que se divertem com nosso assombro ao ouvir que estamos chegando
à perfeição em setores nos quais enxergamos
ruína e decadência.
Se não somos surdos nem cegos, tendo ouvido
e enxergado será preciso que falemos: cada um do seu jeito,
do jeito que pode ou consegue. Não precisa ser numa coluna
de revista, num palanque, numa página de jornal: pode ser
em casa, na sala de aula, na esquina, no ônibus.
Ou no recinto da nossa liberdade e da nossa maior
força, ali onde podemos de verdade mudar o que deve ser mudado:
a urna do voto secreto, minúsculo espaço onde cada
um de nós é rei.
Lya Luft é escritora
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