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Eu não disse?
Sempre concordei com meus próprios argumentos.
Sempre os achei impecavelmente bem fundamentados. Dizia, para mim
mesmo, claro, pois acho cansativas as contestações:
"Millôr, cuidado com as hipóteses. Cuida bem das probabilidades
que das conseqüências eu me encarrego". E ia dormir,
satisfeito. Até pleno. Como o outro, que descansou depois
dos seis dias em que organizou esta joça em que nos equilibramos.
Mas a convicção com que me empenhei para que ninguém
acreditasse em nada, sobretudo em mim! E todos ouvindo, boquiabertos,
olhifechados, refestelados nas cadeiras durante horas. As palavras
não eram ocas, os ouvidos, porém, mouquíssimos.
De mercador, é isso aí.
Agora torcem a orelha e não sai sangue. Para
ser verdadeiro, antes também.
Mas
as advertências estavam lá. E não eram implícitas,
pra serem entendidas daqui a muito, talvez até na posteridade.
Não senhor. Eram atuais e pão-pão, queijo-queijo,
como diziam os mineiros, antes de inventar o pão de queijo.
Mas, quando os preços subiram, nem pão-pão
nem queijo-queijo. Estou satisfeito com isso? Devia? A do palhaço
é mesmo ver ele, circo, pegar fogo? Que humorista é
mesmo ladrão de mulhé? Ainda bem. Nossa roupa
é meio ridícula, eu sei, mas a sedução
é irresistível. E o trabalho é sério.
Andar no trapézio ninguém falsifica.
Mas pode ser mesmo que o problema todo esteja só
na roupa. Dona Lu Alckmin que o diga.
Quem sabe é por isso que a profissão
não vai pra diante? Se a gente pusesse um cravo na lapela,
uns botões dourados na manga, uns alamares – ainda se usam,
sequer se sabe o que quer dizer esse nome?... Sei não. Diz
que o hábito não faz o monge. Eu respondo – pode ser,
mas fá-lo parecer de longe. Como é que você
vai saber que o cara não é general? Jeitão
de general, farda de general, fala de general. Antes de você
pedir as credenciais a ele, já está mandando o avião
parar e botando você em cana. O quê, general não
é pra isso? Então você não é do
meu tempo.
Mas, honra seja feita, hoje ninguém contesta
que eu cansei de chamar atenção para os pequenos ruídos.
E sobretudo pras rachaduras no sótão e no porão,
junto à cozinha. Todos estavam com cera no ouvido, venda
nos olhos, bocca chiusa, pra não entrar mosca, tapando
as narinas pra não sentir o cheiro; aquele negócio.
Quando a trave de cima caiu, caiu com ela, naturalmente, a parte
central da nave. É claro que a abóbada não
podia resistir e veio abaixo, trazendo também a caixa-d'água
novinha, com 150 000 litros d'água. Inundou tudo, vocês
se lembram. Os que não ficaram soterrados se afogaram. Sorte,
porque o resto saiu queimado com o fogo, que, segundo os peritos,
começou no 3º andar, devido a um curto-circuito. Eu
só me salvei porque, às sextas, eu nunca vou à
missa. Nem no resto da semana, mas isso é outra história.
Estava, como sempre, lá em cima, no último
galho, chupando as carambolas. Quando vieram me avisar, que é
que eu podia fazer? Eu sou humano. Ofereci uma carambola, mas não
me contive. Disse:
"Eu não disse?!".
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