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Entrevista: Renato
Mezan
"Freud é um vencedor"
Não, ele não morreu,
muito pelo contrário.
Continua presente em toda a psicologia
e também na cultura. É o que diz o maior
especialista brasileiro na obra do pai
da psicanálise

João Gabriel de Lima
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Antonio Milena

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"Harry Potter é uma
história popular dos dias de hoje em que está
ilustrada a problemática explorada pela psicanálise"
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O psicanalista Renato Mezan é
o maior estudioso brasileiro da obra do austríaco Sigmund
Freud. Alguns de seus livros, como Freud, Pensador da Cultura
que acaba de ser reeditado , são referência
internacional nos trabalhos acadêmicos sobre o pai da psicanálise.
Os caminhos de Mezan e Freud se cruzaram quando o brasileiro havia
acabado de se formar em filosofia, em meados dos anos 70, e procurava
um assunto para sua dissertação de mestrado. Escolheu
a obra de Freud e nunca mais conseguiu sair do labirinto
intelectual freudiano. Tanto que se tornou, ele próprio,
psicanalista. Ao longo do século XX, a obra de Freud sofreu
questionamentos de toda espécie. Nesta entrevista a VEJA,
em seu consultório em São Paulo, Mezan fala do legado
do austríaco no ano em que se comemora o sesquicentenário
de seu nascimento. "Todas as correntes da psicologia foram marcadas
por suas idéias", diz ele.
Veja O que sobrou
de Freud 150 anos depois?
Mezan Ele é um vencedor. Em primeiro lugar,
todas as correntes da psicologia foram marcadas por suas idéias.
Aí se inclui a psiquiatria, que passou a tentar entender
as razões e as conseqüências dos transtornos mentais,
em vez de apenas receitar remédios que aliviam os sintomas.
Para além de sua área específica, a influência
de Freud também é grande. A idéia de inconsciente
já existia antes dele, mas Freud a transformou em um instrumento
de intervenção na mente humana. A aplicação
desse instrumento mudou a relação do ser humano consigo
mesmo, influenciou os relacionamentos, alterou a forma de educar
as crianças e, alavancada pelo cinema e pela literatura,
marcou decisivamente o imaginário do século XX.
Veja Em que
áreas a influência de Freud sobre a cultura é
mais visível?
Mezan Inúmeros livros, filmes e peças
fazem referência direta à psicanálise. A obra
do cineasta americano Woody Allen é o exemplo mais evidente.
Mas é na literatura de ficção que essa presença
se faz sentir de maneira mais forte, nem sempre de forma explícita
no interesse pela interioridade do personagem e pelas forças
que escapam à sua consciência na determinação
de suas ações. O romance psicológico, característico
do século XX, só existe por causa do pai da psicanálise.
Não conheço suficientemente a biografia do irlandês
James Joyce, autor de Ulisses, para saber se ele leu Freud,
mas a influência está clara em sua obra. Outro exemplo,
também na arte do século XX, é a escola pictórica
surrealista, cujas imagens podem ser relacionadas a fantasias inconscientes.
Na cultura pop, podemos citar todos os livros da série Harry
Potter os romances trazem a luta do bem contra o mal,
e o mal é encarnado no homem que matou os pais do protagonista.
Uma das cenas mais tocantes do primeiro volume é quando ele
descobre no castelo um espelho, que é o espelho de ojesed,
"desejo" ao contrário. O espelho mostra aquilo que ele mais
quer, e o que ele mais quer é ser amado pelos pais. É
uma história popular dos dias de hoje em que está
ilustrada a problemática explorada pela psicanálise.
Veja Freud é
importante para a cultura ocidental. Até que ponto sua obra
influenciou quem não pertence a ela?
Mezan O inconsciente existe em toda parte. Há
estudos que mostram que existe o complexo de Édipo até
nas sociedades primitivas. De acordo com esses estudos, o importante
não é a figura concreta do pai, mas aquilo que ocupa
a posição paterna seja o tio, a matriarca ou
um totem. No Oriente, a psicanálise se adaptou a culturas
como a da Índia e a do Japão. Nos japoneses, o sentimento
de vergonha, devido à cultura aristocrática, é
muito intenso, e existem casos de pacientes que têm enorme
dificuldade em falar sobre a própria sexualidade com medo
de ofender a sensibilidade do analista. Mesmo assim a psicanálise
encontrou terreno fértil por lá. Nos países
islâmicos é mais complicado, não porque os muçulmanos
não tenham inconsciente. O fato é que um xiita em
crise dificilmente procuraria um analista. É mais provável
que ele procurasse um líder religioso.
Veja A psicanálise
é criticada freqüentemente por não oferecer uma
"cura" para as aflições psíquicas. Como vê
essa questão?
Mezan Freud era médico. Ele freqüentemente
chamava as pessoas que atendia de "o doente", e ocasionalmente aparecem
termos como "cura". O que acontece é que, ao longo de suas
pesquisas, Freud foi percebendo que a diminuição do
sofrimento psíquico envolvia um tipo de tratamento diferente
daquele que se aplica a outras áreas da medicina. Essas "doenças"
afetam a subjetividade do indivíduo, e isso significa que
o trabalho sobre esse problema, do ponto de vista psicanalítico,
não pode prescindir da colaboração e participação
ativas desse indivíduo. Então, o que Freud percebe
é que a psicanálise, talvez mais que uma cura, almeja
e proporciona uma experiência de si, sem nenhum sentido místico
nisso. No mundo de hoje, quando vivemos a época da cultura
de massa, a psicanálise faz parte daquelas atividades nas
quais o trabalho artesanal, de ourivesaria, lento, cuidadoso, ainda
é necessário. A subjetividade humana é complicada
demais para ser manipulada sem cuidado. Qual paralelo poderíamos
fazer? Talvez com a educação musical, em que o entusiasmo
e o envolvimento do aluno são essenciais para a aprendizagem.
Veja Várias
correntes da psicologia, principalmente as da linha cognitivo-comportamental,
têm prosperado porque oferecem uma solução mais
rápida para os transtornos da alma.
Mezan Eu acho que existe espaço para todas,
ou quase todas. Claro que há algumas linhas que são
claramente charlatanescas. Existem, no entanto, outras correntes
que não visam a uma profunda experiência de si, e seria
absurdo cobrar delas que funcionassem de acordo com os cânones
psicanalíticos. Se alguém tem medo de dirigir e apenas
deseja se ver livre dessa fobia, sem entrar mais a fundo na própria
subjetividade, que vá a um terapeuta comportamental, e se
der certo tudo bem. A psicanálise estudou suficientemente
a paranóia para que os psicanalistas se sintam perseguidos
pela existência de outras abordagens.
Veja Na sua
opinião, qual seria a reação do médico
Sigmund Freud em relação aos atuais remédios
psiquiátricos, como os antidepressivos?
Mezan Provavelmente ele teria curiosidade, satisfação
e interesse em acompanhar os progressos da medicina contemporânea,
porque era um homem lúcido e inteligente. Ele vaticinava
que no futuro se fariam melhores estudos sobre o cérebro
e sobre a organização neurológica de uma maneira
geral. Determinadas hipóteses que Freud formulou no Projeto
Psicologia Científica, de 1895 uma obra inteiramente
especulativa , revelam-se intuições, quase premonições,
de fatos que vieram a ser descobertos 100, 110 anos depois. Não
sei se ele receitaria medicamentos, mas provavelmente receberia
com equanimidade as informações existentes, e também
retiraria determinadas afirmações que fez se elas
se revelassem contrárias às descobertas.
Veja Os estudos
de Freud partiram da maneira como se dava a repressão sexual
feminina no fim do século XIX e início do XX. Hoje
a questão da sexualidade é encarada socialmente de
forma bem mais tranqüila. Em que isso altera a teoria da psicanálise?
Mezan Freud partiu do fato de que as mulheres,
sendo privadas freqüentemente da possibilidade de satisfação
sexual orgástica, muitas vezes ficavam extremamente irritadiças
e desenvolviam sintomas que substituíam, no dizer dele, a
própria vida sexual. A sexualidade hoje é um assunto
mais livre do que há 100 anos, mas ela continua sendo uma
enorme fonte de conflitos. Não tanto pela repressão,
e sim pela extrema valorização social dessa atividade.
O psicanalista Jurandir Freire Costa fez um estudo interessante
sobre o culto ao corpo no qual ele mostrou de que maneira esse culto
acaba engendrando novos imperativos tão categóricos
quanto o "não goze" só que no sentido contrário,
de "goze". Apesar dos costumes mais liberais do que no tempo de
Freud, a sexualidade continua sendo um dos fortes motivos pelos
quais as pessoas procuram os analistas.
Veja O que a
psicanálise tem a dizer hoje sobre a melhor forma de educar
os filhos?
Mezan Acho pertinente essa questão do limite,
da qual tanto se fala atualmente. Pais que, em crianças,
foram educados de forma muito rígida passam para o extremo
oposto com os próprios filhos a tolerância total.
O resultado é a delinqüência, porque uma criança
precisa de um quadro de referência no qual haja muito amor,
mas também mostre claramente o que é permitido e o
que é proibido. A ausência disso gera ataques de angústia
na criança, os famosos "pitis" em restaurantes ou consultórios
de pediatras. No caso específico do Brasil, acho que existe
até um componente cultural nessa questão da falta
de autoridade.
Veja Como assim?
Mezan Pelo fato de nossa formação
social ter sido tão autoritária, penso que um elemento
contemporâneo brasileiro é justamente a contestação
de qualquer autoridade. Estamos nos transformando num povo de litigantes.
Raramente há uma lei que não seja contestada por alguém,
mesmo que ela tenha sido produzida legitimamente e seja uma boa
lei, no sentido de beneficiar um grande número de pessoas.
Um resultado disso é a "indústria de liminares".
Veja Características
culturais como essa atrapalham muito o Brasil?
Mezan Acho que sim. Mas não são
problemas insolúveis. Uma vez perguntei a um senhor mais
velho, da mesma idade que meu pai teria hoje, se o Brasil havia
melhorado. Ele respondeu: "Olha, meu filho, melhorou muito". E ele
tem razão. Em 1927, quando ele tinha 10 anos, fazia menos
de quarenta que a escravidão havia sido abolida, o Brasil
era um país agrário, atrasado, ainda mais injusto,
cheio de doenças etc. Está certo que, hoje, você
vê muitas crianças pedindo esmolas no sinal, o que
é triste. Todas essas crianças, contudo, têm
dentes, pelo menos aqui em São Paulo, devido à fluoração
da água. Hoje praticamente 100% das crianças freqüentam
a escola. O ensino básico tem de ser melhorado, isso vai
levar cinqüenta anos, mas já é um avanço
elas estarem na escola. Nelson Rodrigues falava na tendência
ciclotímica do brasileiro, e acho que muitas vezes somos
mesmo assim ou nos glorificamos demais ou caímos no
complexo de vira-latas. Quando a crítica serve de estímulo
para continuar na boa direção, ótimo. Mas,
se serve como forma de apequenar aquilo que se conseguiu, acho lamentável.
Veja Dá
para superar o trauma com o governo do PT, que se apresentava como
o campeão da ética e se revelou uma organização
criminosa, nas palavras do procurador-geral da República?
Mezan Falando como cidadão e eleitor, eu
penso que o PT, e o governo federal em particular, vai sofrer sérios
reveses com essa decepção que causou à população
do Brasil. É possível que haja, no entanto, algo positivo,
que é o choque de realidade. Talvez a população
perceba que o sonho foi grande demais, que era impossível
essa ilusão messiânica, do homem que vai resolver todos
os problemas. Isso pode ser um primeiro passo para equacionar as
grandes questões brasileiras. Haverá também
os que continuarão prisioneiros dessa ilusão. Estes
acreditarão que Lula foi um líder traído, e
votarão nele novamente.
Veja É
possível saber algo sobre a personalidade do presidente a
partir de seus discursos?
Mezan Lula gosta muito de se comparar a seus antecessores,
dizendo que fez mais do que eles. Minha impressão é
que isso tem dois componentes: um de classe e outro que eu vou chamar
rapidamente de "edípico". A questão de classe é
o "eu sou melhor que meu patrão, meu governo é melhor
do que o dos patrões, nós somos melhores do que os
patrões". O lado edípico é a luta com o pai,
representado aqui pelos que vieram antes, e isso se reflete numa
rivalidade com figuras prestigiosas, como Fernando Henrique, Getúlio,
Juscelino, todos os que o precederam. Quem está constantemente
se comparando com outro não se sente seguro daquilo que está
fazendo. Você ouve Maradona dizendo que é melhor do
que Pelé, mas não Pelé dizendo que é
melhor do que Maradona. Veja bem, não estou fazendo psicanálise
selvagem do presidente, seria ridículo e tiraria a força
do argumento. Estou dizendo apenas que, de maneira genérica,
aquele que está constantemente em rivalidade com seu predecessor
sugere fortemente uma problemática edípica, do tipo
"eu ainda não acabei de matar o pai". Para um líder
político, isso me parece negativo, além de ser irritante.
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