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Auto-retrato
Edoardo Pollastri
Paulo Pinto/AE
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Só na semana passada, depois da recontagem dos votos das
eleições do dia 9, Edoardo Pollastri, presidente da
Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio, soube que
tinha sido eleito senador na Itália. Nascido no Piemonte
há 72 anos e há 31 vivendo em São Paulo, ele
levou uma das doze cadeiras destinadas a italianos radicados no
exterior. Pollastri conversou com o repórter José
Eduardo Barella.
QUAL É A SENSAÇÃO
DE SER ELEITO SENADOR APÓS A RECONTAGEM DE VOTOS?
A mesma de virar uma partida de futebol aos 45 minutos do segundo
tempo. Eu já estava conformado com a derrota. Na contagem
inicial havia perdido por 150 votos para a argentina Mirella Giai.
No domingo, um representante do tribunal eleitoral me ligou de Roma
para dizer que eu estava eleito por 70 votos. Foi inacreditável.
O SENHOR SE CONSIDERA MAIS BRASILEIRO OU
MAIS ITALIANO?
Tenho muita identificação com este país. Desembarquei
em 1975, para trabalhar como executivo de uma multinacional de alimentos.
Cheguei a montar subsidiárias na Argentina e no Chile, mas
jamais deixei de morar em São Paulo. Meus três netos
são brasileiros.
COMO SURGIU A IDÉIA DE SE CANDIDATAR?
Vivem no Brasil mais de 20 milhões de pessoas de origem italiana,
entre descendentes distantes, italianos natos ou de dupla cidadania.
Era importante termos pelo menos um representante identificado com
o Brasil no Parlamento da Itália.
QUANTO O SENHOR GASTOU NA CAMPANHA?
A lei italiana permitia um teto para cada candidato às cadeiras
em disputa no exterior de 52 000 euros, o equivalente a 160 000
reais. Foi o que gastei, a maior parte de meu bolso e o restante
com a colaboração de amigos. Não tive apoio
financeiro de nenhum partido político, apesar de minha chapa
estar comprometida com a candidatura de Romano Prodi, que derrotou
o primeiro-ministro Silvio Berlusconi.
NO BRASIL, UMA CAMPANHA VITORIOSA AO SENADO
NÃO SAI POR MENOS DE 6 MILHÕES DE REAIS...
Mas o número de votos em jogo foi bem menor no meu caso.
Concentrei a campanha nos estados de São Paulo, Minas Gerais
e Rio Grande do Sul. Fiz ainda viagens para o Chile, o Uruguai e,
duas vezes, para a Argentina. A maioria dos meus votos veio de São
Paulo. Os eleitores gaúchos, por exemplo, votaram em peso
nos candidatos da Argentina.
O QUE UM SENADOR RADICADO NO BRASIL VAI
FAZER NO PARLAMENTO DA ITÁLIA?
Pretendo defender os interesses dos cidadãos italianos que
vivem na América do Sul. É para isso que fui eleito.
Uma prioridade é aumentar o número de funcionários
nos consulados, onde há muita fila por causa da procura pelo
passaporte italiano. Se a lei italiana concede o direito de cidadania
aos descendentes de italianos, os consulados precisam estar preparados
para que essas pessoas sejam atendidas.
A ITÁLIA VIVE UM MOMENTO DE ESTAGNAÇÃO
ECONÔMICA. O QUE É PRECISO FAZER PARA VOLTAR A CRESCER?
A economia italiana depende das pequenas e médias empresas,
e esses setores resistem a se modernizar. Uma solução
é a internacionalização. Ou seja, que essas
empresas ampliem sua participação nos mercados externos
por meio da criação de joint ventures. Pretendo aproveitar
meus sete anos de experiência à frente da Câmara
Ítalo-Brasileira de Comércio para fazer essa ponte,
estimulando a aprovação de linhas de crédito
para empresas brasileiras que se associem a italianas.
O SENHOR NÃO TEME SER DISCRIMINADO
NO PARLAMENTO POR TER SIDO ELEITO COM VOTOS DO EXTERIOR?
Não acredito. Somos doze parlamentares eleitos dessa forma.
Como senador, devo participar ativamente da política interna
italiana. O desafio é dar sustentação ao governo
de Prodi, apoiando seus projetos sociais.
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