Edição 1954 . 3 de maio de 2006

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Auto-retrato
Edoardo Pollastri

Paulo Pinto/AE


Só na semana passada, depois da recontagem dos votos das eleições do dia 9, Edoardo Pollastri, presidente da Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio, soube que tinha sido eleito senador na Itália. Nascido no Piemonte há 72 anos e há 31 vivendo em São Paulo, ele levou uma das doze cadeiras destinadas a italianos radicados no exterior. Pollastri conversou com o repórter José Eduardo Barella.

QUAL É A SENSAÇÃO DE SER ELEITO SENADOR APÓS A RECONTAGEM DE VOTOS?
A mesma de virar uma partida de futebol aos 45 minutos do segundo tempo. Eu já estava conformado com a derrota. Na contagem inicial havia perdido por 150 votos para a argentina Mirella Giai. No domingo, um representante do tribunal eleitoral me ligou de Roma para dizer que eu estava eleito por 70 votos. Foi inacreditável.

O SENHOR SE CONSIDERA MAIS BRASILEIRO OU MAIS ITALIANO?
Tenho muita identificação com este país. Desembarquei em 1975, para trabalhar como executivo de uma multinacional de alimentos. Cheguei a montar subsidiárias na Argentina e no Chile, mas jamais deixei de morar em São Paulo. Meus três netos são brasileiros.  

COMO SURGIU A IDÉIA DE SE CANDIDATAR?
Vivem no Brasil mais de 20 milhões de pessoas de origem italiana, entre descendentes distantes, italianos natos ou de dupla cidadania. Era importante termos pelo menos um representante identificado com o Brasil no Parlamento da Itália.  

QUANTO O SENHOR GASTOU NA CAMPANHA?
A lei italiana permitia um teto para cada candidato às cadeiras em disputa no exterior de 52 000 euros, o equivalente a 160 000 reais. Foi o que gastei, a maior parte de meu bolso e o restante com a colaboração de amigos. Não tive apoio financeiro de nenhum partido político, apesar de minha chapa estar comprometida com a candidatura de Romano Prodi, que derrotou o primeiro-ministro Silvio Berlusconi.  

NO BRASIL, UMA CAMPANHA VITORIOSA AO SENADO NÃO SAI POR MENOS DE 6 MILHÕES DE REAIS...
Mas o número de votos em jogo foi bem menor no meu caso. Concentrei a campanha nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Fiz ainda viagens para o Chile, o Uruguai e, duas vezes, para a Argentina. A maioria dos meus votos veio de São Paulo. Os eleitores gaúchos, por exemplo, votaram em peso nos candidatos da Argentina.

O QUE UM SENADOR RADICADO NO BRASIL VAI FAZER NO PARLAMENTO DA ITÁLIA?
Pretendo defender os interesses dos cidadãos italianos que vivem na América do Sul. É para isso que fui eleito. Uma prioridade é aumentar o número de funcionários nos consulados, onde há muita fila por causa da procura pelo passaporte italiano. Se a lei italiana concede o direito de cidadania aos descendentes de italianos, os consulados precisam estar preparados para que essas pessoas sejam atendidas.  

A ITÁLIA VIVE UM MOMENTO DE ESTAGNAÇÃO ECONÔMICA. O QUE É PRECISO FAZER PARA VOLTAR A CRESCER?
A economia italiana depende das pequenas e médias empresas, e esses setores resistem a se modernizar. Uma solução é a internacionalização. Ou seja, que essas empresas ampliem sua participação nos mercados externos por meio da criação de joint ventures. Pretendo aproveitar meus sete anos de experiência à frente da Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio para fazer essa ponte, estimulando a aprovação de linhas de crédito para empresas brasileiras que se associem a italianas.

O SENHOR NÃO TEME SER DISCRIMINADO NO PARLAMENTO POR TER SIDO ELEITO COM VOTOS DO EXTERIOR?
Não acredito. Somos doze parlamentares eleitos dessa forma. Como senador, devo participar ativamente da política interna italiana. O desafio é dar sustentação ao governo de Prodi, apoiando seus projetos sociais.

 
 
 
 
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