Não cabe apelação
Pai dos romances
de tribunal, Scott Turow mostra
que ainda é o melhor nesse gênero
Carlos Graieb
Corrupção.
O leitor brasileiro tem calafrios diante dessa palavra.
Mas será que não é possível
divertir-se com o assunto, apenas para variar? É
diversão, e das boas, o que o americano Scott Turow
oferece com o recém-lançado Ofensas
Pessoais (tradução de Alves Calado;
Record; 417 páginas; 24,30 reais). O romance envolve
juízes que aceitam suborno, advogados inescrupulosos
e uma enorme operação policial, montada para
desbaratar o esquema sujo. Turow é o pai dos "suspenses
jurídicos" ou "thrillers de tribunal". Ele criou
esse gênero em 1987, ao lançar Acima de
Qualquer Suspeita. John Grisham entrou em cena logo
depois, para conquistar milhões de fãs. E
a cada ano surgem outros autores nos Estados Unidos investindo
no mesmo filão. Ninguém, entretanto, superou
Scott Turow em qualidade. As virtudes desse escritor competente
ficam bem claras em seu novo livro.
Apesar de todo o sucesso
na literatura, Turow mantém uma segunda carreira,
como advogado. Ele é sócio de um dos maiores
escritórios de Chicago, cujos serviços não
ficam por menos de 200 dólares a hora. Turow afirma
que o trabalho nos tribunais é importante para manter
a exatidão dos detalhes em seus livros. Ofensas
Pessoais foi inspirado num processo em que o autor atuou
no começo de sua carreira, nos anos 80. Na época,
ele trabalhava como assistente da promotoria. Uma grande
teia de corrupção foi descoberta e o FBI organizou
uma investigação secreta para chegar aos culpados.
Quinze juízes e 49 advogados foram processados. Turow
preparou a acusação de um dos réus
mais importantes, um magistrado que acabou condenado a dezoito
anos de cadeia.
Esse enredo se repete
no livro. Os personagens centrais, no entanto, saíram
da imaginação de Turow. A heroína é
Evon Miller, uma agente federal que precisa atuar sob disfarce.
Mas a grande figura da trama é Robbie Feaver, um
advogado bem-sucedido, falastrão, que adora luxo
e usa um penteado vistoso. Ele teria tudo para ser repulsivo.
Turow, habilmente, consegue fazê-lo charmoso e até
tocante em sua dedicação pela esposa, que
passa pelos primeiros sintomas de uma esclerose profunda.
Feaver que o ator Dustin Hoffman vai interpretar
no cinema é a peça fundamental na estratégia
do FBI para agarrar os juízes corruptos. Ele mesmo
tem culpa no cartório: decide colaborar com a polícia
em troca de sua liberdade.
Como nos romances anteriores
de Turow, a ação acontece na comarca de Kindle.
Trata-se de um lugar inexistente na realidade, embora tenha
semelhanças com a cidade do Estado americano de Illinois
onde Turow nasceu, 51 anos atrás. Em outras palavras,
o escritor criou toda uma geografia para as suas histórias.
Na edição americana de Ofensas Pessoais,
pode-se até encontrar um mapa de Kindle. Infelizmente,
ele não foi reproduzido na edição brasileira.
Ressalvando as diferenças entre um autor de entretenimento
e um escritor clássico, alguns críticos dos
Estados Unidos já chegaram a tecer comparações
entre Turow e William Faulkner, inventor de outro território
imaginário, o condado de Yoknapatawpha. "Eu jamais
me arriscaria a fazer esse tipo de comparação,
que soa grandiosa demais", afirmou Turow numa entrevista
recente. "Mas Faulkner de fato me influenciou profundamente."
Cinismo
Richard Posner, um dos juízes mais influentes dos
Estados Unidos na atualidade, convocado para atuar, por
exemplo, no caso de monopólio movido pelo governo
americano contra a Microsoft, disse a respeito dos romances
de tribunal que "o espírito dominante nesse tipo
de literatura é o cinismo". Segundo Posner, o problema
desses livros é pretender denunciar uma Justiça
corrompida, lançando mão de heróis
que não passam, eles mesmos, pelo teste da honestidade.
À primeira vista, Ofensas Pessoais não
se livra dessa acusação. Robbie Feaver, afinal
de contas, é também um escroque e construiu
seu sucesso com base em métodos ilegais. A diferença
é que, enquanto autores como John Grisham criam personagens
que são pouco mais do que caricaturas, ou bonecos
de papelão, Turow descreve pessoas com idéias
e emoções complexas. No fim, talvez seja justo
dizer que ele faz livros divertidos, sim, mas que também
vão além disso.
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