Edição 1 647 -3/5/2000

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Não cabe apelação

Pai dos romances de tribunal, Scott Turow mostra
que ainda é o melhor nesse gênero

Carlos Graieb

 

Corrupção. O leitor brasileiro tem calafrios diante dessa palavra. Mas será que não é possível divertir-se com o assunto, apenas para variar? É diversão, e das boas, o que o americano Scott Turow oferece com o recém-lançado Ofensas Pessoais (tradução de Alves Calado; Record; 417 páginas; 24,30 reais). O romance envolve juízes que aceitam suborno, advogados inescrupulosos e uma enorme operação policial, montada para desbaratar o esquema sujo. Turow é o pai dos "suspenses jurídicos" ou "thrillers de tribunal". Ele criou esse gênero em 1987, ao lançar Acima de Qualquer Suspeita. John Grisham entrou em cena logo depois, para conquistar milhões de fãs. E a cada ano surgem outros autores nos Estados Unidos investindo no mesmo filão. Ninguém, entretanto, superou Scott Turow em qualidade. As virtudes desse escritor competente ficam bem claras em seu novo livro.

Apesar de todo o sucesso na literatura, Turow mantém uma segunda carreira, como advogado. Ele é sócio de um dos maiores escritórios de Chicago, cujos serviços não ficam por menos de 200 dólares a hora. Turow afirma que o trabalho nos tribunais é importante para manter a exatidão dos detalhes em seus livros. Ofensas Pessoais foi inspirado num processo em que o autor atuou no começo de sua carreira, nos anos 80. Na época, ele trabalhava como assistente da promotoria. Uma grande teia de corrupção foi descoberta e o FBI organizou uma investigação secreta para chegar aos culpados. Quinze juízes e 49 advogados foram processados. Turow preparou a acusação de um dos réus mais importantes, um magistrado que acabou condenado a dezoito anos de cadeia.

Esse enredo se repete no livro. Os personagens centrais, no entanto, saíram da imaginação de Turow. A heroína é Evon Miller, uma agente federal que precisa atuar sob disfarce. Mas a grande figura da trama é Robbie Feaver, um advogado bem-sucedido, falastrão, que adora luxo e usa um penteado vistoso. Ele teria tudo para ser repulsivo. Turow, habilmente, consegue fazê-lo charmoso e até tocante em sua dedicação pela esposa, que passa pelos primeiros sintomas de uma esclerose profunda. Feaver — que o ator Dustin Hoffman vai interpretar no cinema — é a peça fundamental na estratégia do FBI para agarrar os juízes corruptos. Ele mesmo tem culpa no cartório: decide colaborar com a polícia em troca de sua liberdade.

Como nos romances anteriores de Turow, a ação acontece na comarca de Kindle. Trata-se de um lugar inexistente na realidade, embora tenha semelhanças com a cidade do Estado americano de Illinois onde Turow nasceu, 51 anos atrás. Em outras palavras, o escritor criou toda uma geografia para as suas histórias. Na edição americana de Ofensas Pessoais, pode-se até encontrar um mapa de Kindle. Infelizmente, ele não foi reproduzido na edição brasileira. Ressalvando as diferenças entre um autor de entretenimento e um escritor clássico, alguns críticos dos Estados Unidos já chegaram a tecer comparações entre Turow e William Faulkner, inventor de outro território imaginário, o condado de Yoknapatawpha. "Eu jamais me arriscaria a fazer esse tipo de comparação, que soa grandiosa demais", afirmou Turow numa entrevista recente. "Mas Faulkner de fato me influenciou profundamente."

Cinismo — Richard Posner, um dos juízes mais influentes dos Estados Unidos na atualidade, convocado para atuar, por exemplo, no caso de monopólio movido pelo governo americano contra a Microsoft, disse a respeito dos romances de tribunal que "o espírito dominante nesse tipo de literatura é o cinismo". Segundo Posner, o problema desses livros é pretender denunciar uma Justiça corrompida, lançando mão de heróis que não passam, eles mesmos, pelo teste da honestidade. À primeira vista, Ofensas Pessoais não se livra dessa acusação. Robbie Feaver, afinal de contas, é também um escroque e construiu seu sucesso com base em métodos ilegais. A diferença é que, enquanto autores como John Grisham criam personagens que são pouco mais do que caricaturas, ou bonecos de papelão, Turow descreve pessoas com idéias e emoções complexas. No fim, talvez seja justo dizer que ele faz livros divertidos, sim, mas que também vão além disso.

 
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