Para levar a sério
Em O Mundo de Andy, o comediante
Jim Carrey
demonstra ter talento também para o drama
Isabela Boscov
Quando o diretor Milos Forman anunciou que buscava um
candidato para personificar o comediante Andy Kaufman numa
biografia, Hollywood assistiu a um fenômeno inédito:
pelo menos meia dúzia de atores consagrados se dispuseram
a fazer um teste para o papel, como se fossem humildes iniciantes.
De Kevin Spacey a Edward Norton e John Cusack, todos enviaram
a Forman fitas de vídeo em que imitavam o biografado.
O diretor, contudo, não teve dificuldade em anunciar
um vencedor. "Quando vi a fita de Jim Carrey, fiquei espantado.
Ele era Andy", disse Forman. Para o público
brasileiro, que não acompanhou a carreira de Kaufman
até meados dos anos 80 no seriado Taxi ou
no programa Saturday Night Live, a comparação
não tem lá muita ressonância. Mas isso
não chega a ser empecilho para entender o elogio
de Forman. A interpretação de Carrey em O
Mundo de Andy (Man on the Moon, Estados Unidos,
1999), que estréia nesta sexta-feira no país,
é mesmo brilhante.
Kaufman era um transgressor nato, que adorava levar a
platéia ao limite do desconforto. Era capaz de passar
minutos em silêncio na frente de uma câmara,
fazendo cara de angustiado, até que ninguém
mais soubesse se estava tendo um surto ou apenas representando.
Quando se cansou de ser adorado no papel do meigo mecânico
Latka em Taxi, rodou a baiana. Entrou para o circuito
de luta livre mas sempre desafiando mulheres, que espumavam
de raiva com suas piadas machistas. Vivia ainda espinafrando
os caipiras do sul dos Estados Unidos, comprando brigas
e trocando tapas com supostos desafetos, como o lutador
Jerry Lawler (que, aliás, bateu em Carrey para valer
durante as filmagens). O que ninguém entendia é
que era tudo encenação. Sozinho em casa, Kaufman
preferia praticar meditação transcendental.
Assim como ele, Carrey é adepto de uma mistura
de afronta e excesso que nem sempre é bem compreendida
vale lembrar o choque que ele provocou na cerimônia
do Oscar, alguns anos atrás, ao fazer um número
de ventriloquismo usando as nádegas. Pelo que se
vê no filme, Kaufman e Carrey compartilham várias
outras características, como uma enorme dificuldade
em separar suas criações artísticas
da vida real (quando os médicos diagnosticaram um
câncer no pulmão de Kaufman, por exemplo, até
seus pais acharam que se tratava de piada). Além
disso, ambos foram rechaçados quando tentaram sair
de sua trilha batida. Kaufman foi cortado do Saturday
Night Live por pressão do público, que
já não conseguia acompanhar suas pirações
cada vez mais radicais. E Carrey é alvejado sempre
que muda de tom como no próprio O Mundo de
Andy, que fracassou nas bilheterias americanas e ainda
lhe rendeu uma imerecida esnobada nas indicações
ao Oscar. Pela segunda vez, diga-se. A Academia também
ignorou seu bom desempenho no drama O Show de Truman.
O recado é claro: ele dá mais lucro, e provoca
menos dor-de-cotovelo, quando se restringe a fazer caretas.
Como não quer perder sua posição de
superastro, Carrey já programou sua volta ao pastelão.
Seu próximo filme, Me, Myself and Irene, será
dirigido pelos mesmos irmãos Farrelly de Quem
Vai Ficar com Mary? Isso deve garantir que seu cachê
continue na casa dos 20 milhões de dólares.
Direto na jugular A conturbada história
de Andy Kaufman põe à prova toda a extensão
do talento dramático do comediante, e ele sai engrandecido
do teste. Carrey, contudo, conta com uma ajuda de peso.
O checo Milos Forman é um dos mais criativos cineastas
em atividade e um especialista em personagens que gostam
de andar no fio da navalha. O diretor de Amadeus
é, ainda, craque em biografias. Em vez de ficar alinhavando
fatos da vida de seus biografados, prefere ir direto à
jugular deles. Em O Mundo de Andy, só há
uma cena da infância do comediante: Kaufman leva uma
bronca do pai por causa de sua mania de interpretar para
as paredes do quarto. "Você precisa falar para gente
de carne e osso", diz. Em uma única pincelada, o
diretor sintetiza o maior dilema de um artista: a quem ele
serve, a si próprio ou à platéia? Para
Andy Kaufman, toda uma carreira não foi suficiente
para resolver esse impasse.
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