Edição 1 647 -3/5/2000

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Para levar a sério

Em O Mundo de Andy, o comediante Jim Carrey
demonstra ter talento também para o drama

Isabela Boscov

Quando o diretor Milos Forman anunciou que buscava um candidato para personificar o comediante Andy Kaufman numa biografia, Hollywood assistiu a um fenômeno inédito: pelo menos meia dúzia de atores consagrados se dispuseram a fazer um teste para o papel, como se fossem humildes iniciantes. De Kevin Spacey a Edward Norton e John Cusack, todos enviaram a Forman fitas de vídeo em que imitavam o biografado. O diretor, contudo, não teve dificuldade em anunciar um vencedor. "Quando vi a fita de Jim Carrey, fiquei espantado. Ele era Andy", disse Forman. Para o público brasileiro, que não acompanhou a carreira de Kaufman até meados dos anos 80 no seriado Taxi ou no programa Saturday Night Live, a comparação não tem lá muita ressonância. Mas isso não chega a ser empecilho para entender o elogio de Forman. A interpretação de Carrey em O Mundo de Andy (Man on the Moon, Estados Unidos, 1999), que estréia nesta sexta-feira no país, é mesmo brilhante.

Kaufman era um transgressor nato, que adorava levar a platéia ao limite do desconforto. Era capaz de passar minutos em silêncio na frente de uma câmara, fazendo cara de angustiado, até que ninguém mais soubesse se estava tendo um surto ou apenas representando. Quando se cansou de ser adorado no papel do meigo mecânico Latka em Taxi, rodou a baiana. Entrou para o circuito de luta livre – mas sempre desafiando mulheres, que espumavam de raiva com suas piadas machistas. Vivia ainda espinafrando os caipiras do sul dos Estados Unidos, comprando brigas e trocando tapas com supostos desafetos, como o lutador Jerry Lawler (que, aliás, bateu em Carrey para valer durante as filmagens). O que ninguém entendia é que era tudo encenação. Sozinho em casa, Kaufman preferia praticar meditação transcendental.

Assim como ele, Carrey é adepto de uma mistura de afronta e excesso que nem sempre é bem compreendida – vale lembrar o choque que ele provocou na cerimônia do Oscar, alguns anos atrás, ao fazer um número de ventriloquismo usando as nádegas. Pelo que se vê no filme, Kaufman e Carrey compartilham várias outras características, como uma enorme dificuldade em separar suas criações artísticas da vida real (quando os médicos diagnosticaram um câncer no pulmão de Kaufman, por exemplo, até seus pais acharam que se tratava de piada). Além disso, ambos foram rechaçados quando tentaram sair de sua trilha batida. Kaufman foi cortado do Saturday Night Live por pressão do público, que já não conseguia acompanhar suas pirações cada vez mais radicais. E Carrey é alvejado sempre que muda de tom – como no próprio O Mundo de Andy, que fracassou nas bilheterias americanas e ainda lhe rendeu uma imerecida esnobada nas indicações ao Oscar. Pela segunda vez, diga-se. A Academia também ignorou seu bom desempenho no drama O Show de Truman. O recado é claro: ele dá mais lucro, e provoca menos dor-de-cotovelo, quando se restringe a fazer caretas. Como não quer perder sua posição de superastro, Carrey já programou sua volta ao pastelão. Seu próximo filme, Me, Myself and Irene, será dirigido pelos mesmos irmãos Farrelly de Quem Vai Ficar com Mary? Isso deve garantir que seu cachê continue na casa dos 20 milhões de dólares.

Direto na jugular – A conturbada história de Andy Kaufman põe à prova toda a extensão do talento dramático do comediante, e ele sai engrandecido do teste. Carrey, contudo, conta com uma ajuda de peso. O checo Milos Forman é um dos mais criativos cineastas em atividade e um especialista em personagens que gostam de andar no fio da navalha. O diretor de Amadeus é, ainda, craque em biografias. Em vez de ficar alinhavando fatos da vida de seus biografados, prefere ir direto à jugular deles. Em O Mundo de Andy, só há uma cena da infância do comediante: Kaufman leva uma bronca do pai por causa de sua mania de interpretar para as paredes do quarto. "Você precisa falar para gente de carne e osso", diz. Em uma única pincelada, o diretor sintetiza o maior dilema de um artista: a quem ele serve, a si próprio ou à platéia? Para Andy Kaufman, toda uma carreira não foi suficiente para resolver esse impasse.

 
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