Empresas
2 bilhões os separam
Na disputa pelo título de
mais rico do mundo, Ellison encosta em Gates, cuja empresa
pode ser dividida
Eliana Simonetti
Larry Ellison, o maior acionista e chefão da empresa
americana Oracle, é o nome em ascensão no
mundo dos bilionários da nova economia. Emplumado,
veste-se com apuro, tem uma navalha no lugar da língua
e uma idéia cortante sobre o futuro. Ela se baseia
na estimativa de que apenas 1% da população
mundial tem um PC, computador pessoal, em casa. Ellison
acha que isso já é muito. Está certo
de que o número de pessoas ligadas à internet
crescerá muito mais rapidamente que o número
de PCs per capita. Essa é uma perspectiva revolucionária,
mesmo que fortemente apoiada no interesse pessoal de Ellison.
Sua empresa, a Oracle, produz justamente programas que trabalham
em grandes computadores centrais e que permitem às
pessoas entrar na internet sem PCs. Elas podem navegar utilizando
terminais instalados em empresas ou lugares públicos
ou ainda usando aparelhos portáteis relativamente
baratos, como telefone celular e aquelas agendas eletrônicas
turbinadas chamadas palmtop.
Montagem de Wander Mendes
sobre fotos de divulgação/Gamma
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Bill Gates, da Microsoft,
tem hoje 52
bilhões de dólares. Em
1999 tinha 85 bilhões
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Larry Ellison, da Oracle,
tem hoje 50
bilhões de dólares, três
vezes mais do que tinha
no ano passado
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A fortuna pessoal de Ellison está crescendo rapidamente
e já rivaliza com a de Bill Gates. Levando-se em
conta apenas o valor das ações de cada um
em suas respectivas empresas, Ellison passou Gates
que ainda mantém o título de maior bilionário
em virtude de seu patrimônio em ações
de outras companhias na última quinta-feira.
Uma parte desse movimento deve-se aos problemas do rival.
O poderoso dono da Microsoft pensa exatamente o oposto de
Ellison. É sua a previsão de que um dia haverá
um PC em cada casa todos, obviamente, com Windows.
Mas ele está na iminência de ver sua empresa
esfacelada pela Justiça americana. Na sexta-feira
passada, o juiz federal que processa a Microsoft por abuso
de poder econômico e monopólio deu seu veredicto.
Ele quer ver a empresa de Gates seccionada em duas partes.
Gates ficaria com um pedaço, provavelmente o que
produz o Windows, seu famoso sistema operacional, instalado
em nove entre dez computadores pessoais do mundo. A outra
metade da Microsoft teria de ser vendida. É a área
que fabrica os programas de processamento de texto (Word),
de planilhas (Excel) e de apresentações em
público (PowerPoint), que leva o nome comercial de
Microsoft Office.
A questão ainda vai arrastar-se por uns dois anos,
e a previsão é de que o processo chegará
à Suprema Corte americana. Enquanto isso, o valor
das ações da Microsoft nas bolsas de valores
despenca. E os investidores colocam suas fichas nos papéis
da Oracle. Com a queda das ações da Microsoft
e a subida das da Oracle, Ellison estava, na semana passada,
apenas 2 bilhões de dólares menos rico que
Bill Gates. E muita gente aposta que ele vai passar o bilionário
da Microsoft. Os dois homens que disputam o título
no campeonato da riqueza têm apenas duas coisas em
comum: não possuem diploma universitário e
gostam de estudar química. No mais, são seres
completamente díspares.
Gates tem 44 anos e, com seus óculos de aro fino
e um meio sorriso congelado nos lábios, parece um
adolescente. Veste sempre camisa pólo e calça
cáqui. Nasceu em família rica, estudou em
escola particular, largou a faculdade para montar sua empresa
e desde então só trabalhou. A imagem que se
tem de Gates é a de um menino bem-comportado. É
casado, tem dois filhos, doou 20 bilhões de dólares
a instituições de caridade e o único
ato de insensatez que, ao que se sabe, cometeu na vida foi
a construção de sua supercasa, de 6.000
metros quadrados no Estado de Washington.
Ellison é mercurial. Tem 55 anos, casou-se e divorciou-se
três vezes, corre como um louco em seus carros
Porsche, Ferrari, Jaguar, BMW , pilota aviões,
veleja. Tem 23 pinos no braço esquerdo, que precisou
ser reconstruído depois de uma queda de bicicleta.
Coleciona espadas de samurais e mora numa casa construída
no estilo japonês. Abandonado pela mãe aos
9 meses de idade, foi criado por tios, imigrantes russos,
num pequeno apartamento na cidade de Chicago. Foi rebelde
na escola e em casa. Mas conseguiu emprego como técnico
de computador numa agência bancária e acabou
gostando da coisa. No início da década de
70 foi trabalhar em uma companhia chamada Ampex, onde lidava
com bancos de dados.
Aí começou a construção da
fortuna de Ellison. Primeiro, ele idealizou um novo e gigantesco
banco de dados para a CIA, a central de inteligência
do governo americano. Depois, montou sua própria
empresa, a Oracle, cujo diferencial era um programa capaz
de relacionar os dados arquivados, provendo os pesquisadores
de informações mais úteis e complexas.
A novidade foi um estouro. A Oracle dobrou suas vendas anuais
em cada um de seus doze primeiros anos. Seu programa permitiu
às empresas operar via internet não só
na compra e venda de mercadorias mas também na administração
interna, no controle de estoques e no relacionamento com
fornecedores e clientes. Ele foi o inventor do Network Computer,
uma rede de armazenagem de arquivos que dispensa a existência
de um disco de memória no computador. Mas isso tudo
não quer dizer que Ellison se tenha tornado um homem
sisudo, responsável, um administrador dedicado. Ele
trabalha, é certo, mas sua megalomania está
mais visível do que nunca. Agora Ellison vive em
campanha permanente. Já avisou que pretende ser,
um dia, governador da Califórnia.
A medida da riqueza desses dois figurões é
resultado da multiplicação do valor das ações
de suas empresas pelo número de papéis que
eles possuem. Quer dizer, quando a bolsa está muito
instável, a fortuna de Gates e Ellison varia a cada
minuto. Nos últimos tempos, a Microsoft perdeu muito
valor de mercado. Vem se fortalecendo no mundo a idéia
de que comprar máquinas mais baratas e alugar um
banco de dados da Oracle pode ser mais vantajoso que adquirir
definitivamente os programas no modelo Microsoft. Gates
até desenvolveu um programa para competir com Ellison
na preferência das empresas, mas a sensação
é de que chegou tarde. As grandes companhias já
estão atadas à Oracle. Enquanto a Microsoft
está propensa a encolher, a Oracle tende a crescer.
Tem sido assim nos últimos meses. Nesse mercado volátil,
no entanto, é sempre prematuro tirar conclusões.
Não há aposta garantida nessa corrida. Gates,
o menino bonzinho, anda calado. Ellison, o provocador, já
disse a que veio. Está à vontade no palco:
"Sou rico, solteiro e procuro a mulher ideal para preencher
o vazio de minha vida".
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