Edição 1 647 -3/5/2000

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Empresas

2 bilhões os separam

Na disputa pelo título de mais rico do mundo, Ellison encosta em Gates, cuja empresa pode ser dividida

Eliana Simonetti

Larry Ellison, o maior acionista e chefão da empresa americana Oracle, é o nome em ascensão no mundo dos bilionários da nova economia. Emplumado, veste-se com apuro, tem uma navalha no lugar da língua e uma idéia cortante sobre o futuro. Ela se baseia na estimativa de que apenas 1% da população mundial tem um PC, computador pessoal, em casa. Ellison acha que isso já é muito. Está certo de que o número de pessoas ligadas à internet crescerá muito mais rapidamente que o número de PCs per capita. Essa é uma perspectiva revolucionária, mesmo que fortemente apoiada no interesse pessoal de Ellison. Sua empresa, a Oracle, produz justamente programas que trabalham em grandes computadores centrais e que permitem às pessoas entrar na internet sem PCs. Elas podem navegar utilizando terminais instalados em empresas ou lugares públicos ou ainda usando aparelhos portáteis relativamente baratos, como telefone celular e aquelas agendas eletrônicas turbinadas chamadas palmtop.

 

Montagem de Wander Mendes sobre fotos de divulgação/Gamma

Bill Gates, da Microsoft, tem hoje 52 bilhões de dólares. Em 1999 tinha 85 bilhões

Larry Ellison, da Oracle, tem hoje 50 bilhões de dólares, três vezes mais do que tinha no ano passado


A fortuna pessoal de Ellison está crescendo rapidamente e já rivaliza com a de Bill Gates. Levando-se em conta apenas o valor das ações de cada um em suas respectivas empresas, Ellison passou Gates – que ainda mantém o título de maior bilionário em virtude de seu patrimônio em ações de outras companhias – na última quinta-feira. Uma parte desse movimento deve-se aos problemas do rival. O poderoso dono da Microsoft pensa exatamente o oposto de Ellison. É sua a previsão de que um dia haverá um PC em cada casa – todos, obviamente, com Windows. Mas ele está na iminência de ver sua empresa esfacelada pela Justiça americana. Na sexta-feira passada, o juiz federal que processa a Microsoft por abuso de poder econômico e monopólio deu seu veredicto. Ele quer ver a empresa de Gates seccionada em duas partes. Gates ficaria com um pedaço, provavelmente o que produz o Windows, seu famoso sistema operacional, instalado em nove entre dez computadores pessoais do mundo. A outra metade da Microsoft teria de ser vendida. É a área que fabrica os programas de processamento de texto (Word), de planilhas (Excel) e de apresentações em público (PowerPoint), que leva o nome comercial de Microsoft Office.

A questão ainda vai arrastar-se por uns dois anos, e a previsão é de que o processo chegará à Suprema Corte americana. Enquanto isso, o valor das ações da Microsoft nas bolsas de valores despenca. E os investidores colocam suas fichas nos papéis da Oracle. Com a queda das ações da Microsoft e a subida das da Oracle, Ellison estava, na semana passada, apenas 2 bilhões de dólares menos rico que Bill Gates. E muita gente aposta que ele vai passar o bilionário da Microsoft. Os dois homens que disputam o título no campeonato da riqueza têm apenas duas coisas em comum: não possuem diploma universitário e gostam de estudar química. No mais, são seres completamente díspares.

Gates tem 44 anos e, com seus óculos de aro fino e um meio sorriso congelado nos lábios, parece um adolescente. Veste sempre camisa pólo e calça cáqui. Nasceu em família rica, estudou em escola particular, largou a faculdade para montar sua empresa e desde então só trabalhou. A imagem que se tem de Gates é a de um menino bem-comportado. É casado, tem dois filhos, doou 20 bilhões de dólares a instituições de caridade e o único ato de insensatez que, ao que se sabe, cometeu na vida foi a construção de sua supercasa, de 6.000 metros quadrados no Estado de Washington.

Ellison é mercurial. Tem 55 anos, casou-se e divorciou-se três vezes, corre como um louco em seus carros – Porsche, Ferrari, Jaguar, BMW –, pilota aviões, veleja. Tem 23 pinos no braço esquerdo, que precisou ser reconstruído depois de uma queda de bicicleta. Coleciona espadas de samurais e mora numa casa construída no estilo japonês. Abandonado pela mãe aos 9 meses de idade, foi criado por tios, imigrantes russos, num pequeno apartamento na cidade de Chicago. Foi rebelde na escola e em casa. Mas conseguiu emprego como técnico de computador numa agência bancária e acabou gostando da coisa. No início da década de 70 foi trabalhar em uma companhia chamada Ampex, onde lidava com bancos de dados.

Aí começou a construção da fortuna de Ellison. Primeiro, ele idealizou um novo e gigantesco banco de dados para a CIA, a central de inteligência do governo americano. Depois, montou sua própria empresa, a Oracle, cujo diferencial era um programa capaz de relacionar os dados arquivados, provendo os pesquisadores de informações mais úteis e complexas. A novidade foi um estouro. A Oracle dobrou suas vendas anuais em cada um de seus doze primeiros anos. Seu programa permitiu às empresas operar via internet não só na compra e venda de mercadorias mas também na administração interna, no controle de estoques e no relacionamento com fornecedores e clientes. Ele foi o inventor do Network Computer, uma rede de armazenagem de arquivos que dispensa a existência de um disco de memória no computador. Mas isso tudo não quer dizer que Ellison se tenha tornado um homem sisudo, responsável, um administrador dedicado. Ele trabalha, é certo, mas sua megalomania está mais visível do que nunca. Agora Ellison vive em campanha permanente. Já avisou que pretende ser, um dia, governador da Califórnia.

A medida da riqueza desses dois figurões é resultado da multiplicação do valor das ações de suas empresas pelo número de papéis que eles possuem. Quer dizer, quando a bolsa está muito instável, a fortuna de Gates e Ellison varia a cada minuto. Nos últimos tempos, a Microsoft perdeu muito valor de mercado. Vem se fortalecendo no mundo a idéia de que comprar máquinas mais baratas e alugar um banco de dados da Oracle pode ser mais vantajoso que adquirir definitivamente os programas no modelo Microsoft. Gates até desenvolveu um programa para competir com Ellison na preferência das empresas, mas a sensação é de que chegou tarde. As grandes companhias já estão atadas à Oracle. Enquanto a Microsoft está propensa a encolher, a Oracle tende a crescer. Tem sido assim nos últimos meses. Nesse mercado volátil, no entanto, é sempre prematuro tirar conclusões. Não há aposta garantida nessa corrida. Gates, o menino bonzinho, anda calado. Ellison, o provocador, já disse a que veio. Está à vontade no palco: "Sou rico, solteiro e procuro a mulher ideal para preencher o vazio de minha vida".

 
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