Edição 1 647 -3/5/2000

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A vida no inferno

Pesquisa põe abaixo o mito do bom bandido
encarnado por Marcinho VP

Consuelo Dieguez

Preso na semana passada pela polícia do Rio de Janeiro, o traficante Marcinho VP desfilou pela CPI do Narcotráfico, em Brasília, e voltou a fazer seu discurso de bandido revolucionário. Márcio Amaro de Oliveira tem 30 anos, ficou conhecido por seu envolvimento com o cineasta João Moreira Salles, um dos herdeiros do Unibanco, e está condenado a 42 anos de cadeia. Ele diz ter certeza de que é amado pela comunidade do Morro Dona Marta, onde comandou por muito tempo o tráfico de drogas usando crianças como auxiliares. "Todos lá me conhecem, sabem da minha vontade de mudar aquilo ali, apesar de não ter conseguido", afirma Marcinho VP. Essa retórica de guerrilheiro social tem sido usada com certa freqüência por marginais mais espertos e chegou a convencer muitos intelectuais que moram a distância segura dos morros. À luz fria das enquetes realizadas nas favelas cariocas, a verdade é outra. Uma pesquisa inédita da Escola Nacional de Saúde da Fundação Oswaldo Cruz do Rio mostra que, nas favelas da região metropolitana, milhares de pessoas têm seus mais básicos direitos constitucionais, como o de ir e vir ou o de se expressar, cassados pelos traficantes. As leis do tráfico determinam hora para os moradores voltarem para suas casas e definem dias até para as inocentes festinhas de aniversário das crianças.

A pesquisa da Fiocruz, coordenada pelo sociólogo Otávio Cruz Neto, foi feita com 94 adolescentes entre 14 e 18 anos, de 22 favelas do Rio de Janeiro e da periferia. O levantamento começou com base em um trabalho de quatro ONGs em conjunto com a Segunda Vara da Infância e da Juventude entre menores ligados ao tráfico. O projeto da Fiocruz consistia apenas em acompanhar o resultado do atendimento a esses menores e suas famílias. Mas os relatos dos participantes do programa foram desvendando a vida infernal que os traficantes impõem aos habitantes das favelas – quase 1 milhão de pessoas no Rio –, e a Fiocruz decidiu aprofundar-se mais no estudo da questão. O resultado é estarrecedor. Alguns exemplos. Os telhados dos barracos são usados como esconderijo de armas e bandidos e qualquer morador pode ser obrigado a deixar sua casa para dar lugar ao tráfico. Quem reclama é ameaçado de morte. As visitas são controladas e, em alguns locais, só podem ocorrer com autorização expressa dos donos do morro. As crianças crescem num clima de medo. Muitas são obrigadas a deixar de estudar porque a escola está localizada numa favela controlada por facção rival.

O grande mérito da Fiocruz, ao desnudar esse mundo terrível, é desmontar uma velha crença dos que analisam a relação entre pobreza e droga nos morros. Tornou-se habitual afirmar que foi "a falta de Estado" nas favelas que abriu espaço para o crescimento da rede de tráfico. A ausência dos serviços públicos é um fato. Mas é falsa a concepção ingênua, romântica, de que o vácuo é preenchido pelos traficantes, que atendem às necessidades elementares da população, sob o aplauso irrestrito da comunidade agradecida. Marcinho VP é apenas um entre muitos traficantes que sustentam essa versão conveniente da realidade, aceita docilmente por muitos intelectuais do asfalto. Para o favelado, é diferente, apurou a pesquisa da Fiocruz. Ele, se pudesse, se livraria dos traficantes com prazer e alívio. Nas comunidades carentes submetidas à tirania dos comerciantes de drogas, a lei está na mão de bandidos que têm o poder até de condenar à morte. O Estado, é verdade, não ajuda nem um pouco. "É uma grande bobagem dizer que a comunidade não quer policiamento. Ela quer, sim. Mas quer uma polícia decente, que suba o morro para protegê-los e não para extorquir os traficantes", diz Cruz Neto.

O estudo da Fiocruz revela que a idéia do bandido social chegou a fazer algum sentido na década de 70, quando uns poucos traficantes davam algum tipo de assistência à comunidade. Mesmo naquela época, o preço era alto. A ajuda significava um pacto de silêncio e cooperação. Esse tipo de comportamento subsistiu enquanto os bandidos que dominavam as favelas eram da própria comunidade. Com o passar dos anos, essa realidade foi mudando. O tráfico foi ficando cada vez mais lucrativo e as disputas por pontos de droga se intensificaram. Surgiram vários grupos rivais que hoje se matam numa guerra sangrenta que sobra para os moradores. Como não têm laços com a comunidade, esses traficantes acabam cometendo atrocidades, como ameaçar famílias inteiras de morte e forçar mulheres a manter relações sexuais.

No trabalho com os adolescentes, a Fiocruz descobriu que os meninos aliciados pelos traficantes vivem sob o império do terror. O mais dramático é que esses garotos são aliciados cada vez mais cedo. Numa de suas esfarrapadas análises sociais, Marcinho VP deu uma explicação sobre os motivos que o levavam a arregimentar crianças para o tráfico. "Elas fazem parte da comunidade. Não podemos excluí-las." A razão verdadeira é muito mais crua. Segundo Maria Lucia Máximo, coordenadora da ONG São Domingos Sávio, que acompanhou quarenta meninos do programa de ressocialização, essas crianças são bucha de canhão. "Quando uma morre, é logo substituída", afirma ela. Muitas entraram para o tráfico antes dos 10 anos, seduzidas pela possibilidade de acesso a bens inatingíveis em condições normais.

A ilusão não dura. Submetidos a um regime de terror, os meninos pagam com a vida por erros como perda de dinheiro e mercadoria e abandono da função. Os castigos são violentos, vão do espancamento à morte. A maior parte deles se vicia. O pior é que o pesadelo não termina nem para os que conseguem livrar-se do tráfico. Eles passam grande parte do tempo escondidos. Não podem sequer se reaproximar de suas famílias, que muitas vezes são punidas com a morte pela deserção. "Coração de bandido fica no pé", definiu, com precisão, um desses jovens "soldados".

 

Camus, Gandhi, Paulo Coelho...

Na última quinta-feira, Marcinho VP falou a VEJA em dois momentos: à saída de seu depoimento na CPI do Narcotráfico, em Brasília, e na viagem de volta ao Rio, onde foi recolhido ao presídio de segurança máxima Bangu I. Suas penas somam 42 anos.

Veja – Como você classifica a amizade que manteve com o cineasta João Moreira Salles?
Márcio – Foi uma amizade sincera, das duas partes. Somos duas pessoas cansadas, que querem mudar o mundo.

Veja – Por que um traficante precisa receber mesada do filho de um banqueiro?
Márcio – Porque traficante não tem dinheiro.

Veja – Quais os seus escritores preferidos?
Márcio – Li tudo do Albert Camus. Ele sabia que nós íamos existir. Em O Homem Revoltado, ele fala sobre nós, não sabia quem era, mas éramos nós. Gosto também do Paulo Coelho e li algumas biografias, como a do Gandhi.

Veja – Você já disse que 30% dos jovens de uma favela entram para o tráfico. E os outros 70% que não escolhem esse caminho?
Márcio – Esses 30% vão morrer e vão entrar mais 30%, que vão virar mais 30%. Quem não entra para o tráfico tem sorte. Existe um esgoto te puxando o tempo todo. O ecossistema da favela está totalmente desestruturado.

Veja – O que quer dizer "ecossistema da favela"?
Márcio – A polícia e os grupos de extermínio mataram muitas pessoas. Com isso, gente que não era líder veio para a frente. Isso gerou guerras e mais guerras nos morros.

Veja – O cantor Tim Maia costumava dizer que o Brasil é o único país onde prostituta se apaixona, cafetão sente ciúme e traficante se vicia. Você se viciou?
Márcio – Eu não fumo, não bebo e não cheiro. Só queimo um baseado. É um vício que tenho desde os 15 anos.

Veja – Você nunca sentiu remorso por vender drogas?
Márcio – Ninguém sente orgulho de vender droga. Eu sou igual ao cara que consome.

Veja – Você já viu alguém morrer por overdose?
Márcio – Já. Está vendo aqui (mostra os dedos das mãos com marcas de mordidas)? Foram pessoas em crise.

Veja – Você já matou alguém? Conseguiu dormir depois?
Márcio – Já matei, no confronto. Viu o filme Mad Max? É a mesma sensação. Depois, em algum momento, você tem de dormir.

Marcelo Carneiro

 

 
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