A vida no inferno
Pesquisa põe abaixo o mito do bom
bandido
encarnado por Marcinho VP
Consuelo Dieguez
Preso na semana passada pela polícia do Rio de Janeiro,
o traficante Marcinho VP desfilou pela CPI do Narcotráfico,
em Brasília, e voltou a fazer seu discurso de bandido
revolucionário. Márcio Amaro de Oliveira tem
30 anos, ficou conhecido por seu envolvimento com o cineasta
João Moreira Salles, um dos herdeiros do Unibanco,
e está condenado a 42 anos de cadeia. Ele diz ter
certeza de que é amado pela comunidade do Morro Dona
Marta, onde comandou por muito tempo o tráfico de
drogas usando crianças como auxiliares. "Todos lá
me conhecem, sabem da minha vontade de mudar aquilo ali,
apesar de não ter conseguido", afirma Marcinho VP.
Essa retórica de guerrilheiro social tem sido usada
com certa freqüência por marginais mais espertos
e chegou a convencer muitos intelectuais que moram a distância
segura dos morros. À luz fria das enquetes realizadas
nas favelas cariocas, a verdade é outra. Uma pesquisa
inédita da Escola Nacional de Saúde da Fundação
Oswaldo Cruz do Rio mostra que, nas favelas da região
metropolitana, milhares de pessoas têm seus mais básicos
direitos constitucionais, como o de ir e vir ou o de se
expressar, cassados pelos traficantes. As leis do tráfico
determinam hora para os moradores voltarem para suas casas
e definem dias até para as inocentes festinhas de
aniversário das crianças.
A pesquisa da Fiocruz, coordenada pelo sociólogo
Otávio Cruz Neto, foi feita com 94 adolescentes entre
14 e 18 anos, de 22 favelas do Rio de Janeiro e da periferia.
O levantamento começou com base em um trabalho de
quatro ONGs em conjunto com a Segunda Vara da Infância
e da Juventude entre menores ligados ao tráfico.
O projeto da Fiocruz consistia apenas em acompanhar o resultado
do atendimento a esses menores e suas famílias. Mas
os relatos dos participantes do programa foram desvendando
a vida infernal que os traficantes impõem aos habitantes
das favelas quase 1 milhão de pessoas no Rio ,
e a Fiocruz decidiu aprofundar-se mais no estudo da questão.
O resultado é estarrecedor. Alguns exemplos. Os telhados
dos barracos são usados como esconderijo de armas
e bandidos e qualquer morador pode ser obrigado a deixar
sua casa para dar lugar ao tráfico. Quem reclama
é ameaçado de morte. As visitas são
controladas e, em alguns locais, só podem ocorrer
com autorização expressa dos donos do morro.
As crianças crescem num clima de medo. Muitas são
obrigadas a deixar de estudar porque a escola está
localizada numa favela controlada por facção
rival.
O grande mérito da Fiocruz, ao desnudar esse mundo
terrível, é desmontar uma velha crença
dos que analisam a relação entre pobreza e
droga nos morros. Tornou-se habitual afirmar que foi "a
falta de Estado" nas favelas que abriu espaço para
o crescimento da rede de tráfico. A ausência
dos serviços públicos é um fato. Mas
é falsa a concepção ingênua,
romântica, de que o vácuo é preenchido
pelos traficantes, que atendem às necessidades elementares
da população, sob o aplauso irrestrito da
comunidade agradecida. Marcinho VP é apenas um entre
muitos traficantes que sustentam essa versão conveniente
da realidade, aceita docilmente por muitos intelectuais
do asfalto. Para o favelado, é diferente, apurou
a pesquisa da Fiocruz. Ele, se pudesse, se livraria dos
traficantes com prazer e alívio. Nas comunidades
carentes submetidas à tirania dos comerciantes de
drogas, a lei está na mão de bandidos que
têm o poder até de condenar à morte.
O Estado, é verdade, não ajuda nem um pouco.
"É uma grande bobagem dizer que a comunidade não
quer policiamento. Ela quer, sim. Mas quer uma polícia
decente, que suba o morro para protegê-los e não
para extorquir os traficantes", diz Cruz Neto.
O estudo da Fiocruz revela que a idéia do bandido
social chegou a fazer algum sentido na década de
70, quando uns poucos traficantes davam algum tipo de assistência
à comunidade. Mesmo naquela época, o preço
era alto. A ajuda significava um pacto de silêncio
e cooperação. Esse tipo de comportamento subsistiu
enquanto os bandidos que dominavam as favelas eram da própria
comunidade. Com o passar dos anos, essa realidade foi mudando.
O tráfico foi ficando cada vez mais lucrativo e as
disputas por pontos de droga se intensificaram. Surgiram
vários grupos rivais que hoje se matam numa guerra
sangrenta que sobra para os moradores. Como não têm
laços com a comunidade, esses traficantes acabam
cometendo atrocidades, como ameaçar famílias
inteiras de morte e forçar mulheres a manter relações
sexuais.
No trabalho com os adolescentes, a Fiocruz descobriu que
os meninos aliciados pelos traficantes vivem sob o império
do terror. O mais dramático é que esses garotos
são aliciados cada vez mais cedo. Numa de suas esfarrapadas
análises sociais, Marcinho VP deu uma explicação
sobre os motivos que o levavam a arregimentar crianças
para o tráfico. "Elas fazem parte da comunidade.
Não podemos excluí-las." A razão verdadeira
é muito mais crua. Segundo Maria Lucia Máximo,
coordenadora da ONG São Domingos Sávio, que
acompanhou quarenta meninos do programa de ressocialização,
essas crianças são bucha de canhão.
"Quando uma morre, é logo substituída", afirma
ela. Muitas entraram para o tráfico antes dos 10
anos, seduzidas pela possibilidade de acesso a bens inatingíveis
em condições normais.
A ilusão não dura. Submetidos a um regime
de terror, os meninos pagam com a vida por erros como perda
de dinheiro e mercadoria e abandono da função.
Os castigos são violentos, vão do espancamento
à morte. A maior parte deles se vicia. O pior é
que o pesadelo não termina nem para os que conseguem
livrar-se do tráfico. Eles passam grande parte do
tempo escondidos. Não podem sequer se reaproximar
de suas famílias, que muitas vezes são punidas
com a morte pela deserção. "Coração
de bandido fica no pé", definiu, com precisão,
um desses jovens "soldados".
Camus, Gandhi, Paulo Coelho...
Na última quinta-feira, Marcinho VP falou
a VEJA em dois momentos: à saída de
seu depoimento na CPI do Narcotráfico, em Brasília,
e na viagem de volta ao Rio, onde foi recolhido ao
presídio de segurança máxima
Bangu I. Suas penas somam 42 anos.
Veja Como você classifica
a amizade que manteve com o cineasta João Moreira
Salles?
Márcio Foi uma amizade
sincera, das duas partes. Somos duas pessoas cansadas,
que querem mudar o mundo.
Veja Por que um traficante precisa
receber mesada do filho de um banqueiro?
Márcio
Porque traficante não tem dinheiro.
Veja Quais os seus escritores preferidos?
Márcio Li tudo do Albert Camus.
Ele sabia que nós íamos existir. Em
O Homem Revoltado, ele fala sobre nós,
não sabia quem era, mas éramos nós.
Gosto também do Paulo Coelho e li algumas biografias,
como a do Gandhi.
Veja Você já disse
que 30% dos jovens de uma favela entram para o tráfico.
E os outros 70% que não escolhem esse caminho?
Márcio Esses 30% vão morrer
e vão entrar mais 30%, que vão virar
mais 30%. Quem não entra para o tráfico
tem sorte. Existe um esgoto te puxando o tempo todo.
O ecossistema da favela está totalmente desestruturado.
Veja O que quer dizer "ecossistema
da favela"?
Márcio A polícia
e os grupos de extermínio mataram muitas pessoas.
Com isso, gente que não era líder veio
para a frente. Isso gerou guerras e mais guerras nos
morros.
Veja O cantor Tim Maia costumava
dizer que o Brasil é o único país
onde prostituta se apaixona, cafetão sente
ciúme e traficante se vicia. Você se
viciou?
Márcio Eu não fumo, não
bebo e não cheiro. Só queimo um baseado.
É um vício que tenho desde os 15 anos.
Veja Você nunca sentiu remorso
por vender drogas?
Márcio Ninguém sente orgulho
de vender droga. Eu sou igual ao cara que consome.
Veja Você já viu alguém
morrer por overdose?
Márcio Já. Está
vendo aqui (mostra os dedos das mãos com
marcas de mordidas)? Foram pessoas em crise.
Veja Você já matou
alguém? Conseguiu dormir depois?
Márcio Já matei, no confronto.
Viu o filme Mad Max? É a mesma sensação.
Depois, em algum momento, você tem de dormir.
Marcelo Carneiro
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