Marcio Capovilla

Pais se preocupam com os perigos
errados.
Poucas crianças somem no shopping. Poucas
são seqüestradas. O problema é cinto
de
segurança, fogão e
material de limpeza
Thaís Oyama
Nem doenças, nem miséria.
No Brasil, a primeira causa de morte de crianças
a partir dos 5 anos de idade são os acidentes, daqueles
que poderiam ser perfeitamente evitados com um pouco mais
de atenção. Segundo a última pesquisa
em grande escala sobre o assunto, realizada pelo Ministério
da Saúde em 1997, batidas de carro, atropelamentos,
afogamentos, quedas, queimaduras e intoxicações
mataram 5.843 meninos e meninas
de até 14 anos. Qual a explicação para
estatística tão assustadora? Os pediatras
têm uma tese nada tranqüilizadora para os adultos.
Costumam repetir que, por trás de toda criança
acidentada, existe um pai ou mãe descuidado. Pois
a tese agora conta com o aval do mais conhecido especialista
americano em segurança pessoal, Gavin de Becker.
Em seu último livro, Protecting the Gift,
com lançamento previsto para o segundo semestre no
Brasil e dedicado à segurança infantil, ele
confirma com entrevistas e números: a desatenção
dos adultos é, de fato, a grande culpada pela maioria
dos acidentes que vitimam crianças. Mas ela sozinha
não explica tudo. Muitos pais, diz o especialista,
perdem a chance de cuidar melhor de seus filhos por se preocupar
demais com riscos improváveis e menosprezar
os mais corriqueiros.
Fotos Antonio Milena
 |
Fotos Antonio Milena
 |
 |
Pais
aflitos, bebês on-line: no berçário
paulista Baby Oz, mães podem matar
a saudade dos filhos via internet,
como a gerente Ana, que na
seqüência sorri para a filha Gabriela,
no colo de uma funcionária
|
Qual é o medo mais comum dos adultos em relação
a um filho pequeno nos Estados Unidos, no Brasil e na maior
parte do mundo? Que ele de repente suma, se perca, seja
seqüestrado ou roubado. É possível, sem
dúvida. Mas muito menos provável do que perdê-lo
em um acidente de automóvel. No entanto, quem ainda
não viu uma mãe deixar a maternidade e se
sentar no banco dianteiro do carro com seu bebê recém-nascido
no colo? Para verificar o que se passa pela cabeça
dos adultos quando o assunto é segurança infantil,
VEJA realizou uma tomada de depoimentos na qual, durante
três horas, onze mães de classe média,
moradoras de São Paulo e com filhos de 8 meses a
10 anos, falaram sobre o que mais temem em relação
a suas crianças. Sete citaram como uma de suas maiores
aflições o receio de que os filhos sumissem,
episódio estatisticamente raro. Apenas uma mencionou
o risco de acidentes de transporte a primeira causa
de morte infantil no país, desconsideradas as causas
naturais.
"Nunca pensei que fosse tão rápido"
De acordo com dados do Departamento Nacional de Trânsito,
atropelamentos e batidas de carro vitimaram 37.000
crianças no Brasil em 1997. Do total de meninos e
meninas atingidos, 3.307 morreram,
segundo o Comitê Nacional de Prevenção
de Acidentes e Violência do Ministério da Saúde.
O número representa 35% das mortes não naturais
ocorridas entre crianças brasileiras de até
14 anos. Fatalidade? Nada disso. Por meio de boletins de
ocorrência, a pediatra Renata Waxman, da Sociedade
Brasileira de Pediatria e do Hospital Paulista Albert Einstein,
esmiuçou como se deram 218 batidas de carro que tiraram
a vida de crianças em São Paulo. Concluiu
que 100% das vítimas de colisão com menos
de 1 ano de idade e pelo menos 12% das que tinham até
9 anos viajavam no banco da frente e sem cinto de segurança.
Ou seja, haveria grandes chances de estarem vivas hoje se
os responsáveis por elas tivessem simplesmente observado
a norma que obriga menores de 10 anos a andar no banco traseiro
afivelados por cintos. "São medidas aparentemente
óbvias, mas, por incrível que pareça,
até hoje nem todo mundo adota", afirma a médica.
 |
| Proteção
em período integral: Ana
Clara busca os filhos na escola
e os mantém o tempo todo
sob suas vistas. Mesmo assim,
já foram assaltados no carro,
com ela dirigindo |
Descuido, nesse caso, não é absolutamente
sinônimo de falta de amor. O problema é que
bastam alguns segundos de distração para que
os acidentes aconteçam. Como mãe que é
mãe dificilmente vai tomar a drástica atitude
de não levar seu filho à piscina do prédio,
onde todos os seus amiguinhos se divertem, instala-se o
perigo. Há duas semanas, a dona-de-casa Roberta Ahuja
conversava com as amigas na área de lazer do prédio
onde mora, no bairro paulistano do Alto de Pinheiros, quando
seu filho de 3 anos tropeçou na borda da piscina
e caiu na água. Uma das moradoras percebeu a cena,
deu o alerta e a criança foi salva por um vizinho.
"Só vi a cabecinha dele subindo e descendo. Nunca
pensei que pudesse ser tão rápido", lembra
Roberta.
Escolinhas não resolvem Afogamentos
são a segunda causa de morte não natural entre
crianças brasileiras. Eles vitimaram 1.841
meninos e meninas em 1997, contabiliza o Ministério
da Saúde. No Rio de Janeiro, diariamente, pelo menos
uma criança de até 9 anos se afoga no mar.
Em São Paulo, os acidentes em piscina representam
a quase totalidade dos casos de afogamento. No interior,
rios e lagos são os maiores vilões. Mas, por
mais arrepiante que isso soe, nem sempre se afogar tem a
ver com não saber ou não poder nadar. Mais
raros, mas igualmente fatais, são os casos de submersão
acidental a morte por afogamento em baldes, vasos
sanitários e banheiras. "Baldes cheios deixados em
áreas de serviço e vasos sanitários
sem proteção são ameaças reais
para bebês de até 2 anos. Se afundam, eles
não têm força para sair sozinhos", explica
a pediatra Renata Waxman. O Hospital das Clínicas
de São Paulo registrou pelo menos um caso de morte
por submersão em balde no ano passado. O Hospital
Albert Einstein atende de um a dois casos por ano de bebês
que acabam morrendo em função de acidentes
em banheira. Em comum, eles têm o fato de acontecer
num piscar de olhos. "O acidente é rápido
e seu desfecho também. Para que a morte cerebral
ocorra não são necessários mais do
que quatro minutos de submersão", lembra o pediatra
Cláudio Schvartsman, do Instituto da Criança
da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
(USP).
Há outra maneira de prevenir o afogamento de crianças
além de prestar uma obsessiva atenção
nelas quando se aproximam da água? Depois do episódio
na piscina, a dona-de-casa Roberta passou a ouvir de amigas
que deveria matricular o filho urgentemente em uma escola
de natação. Este seria, de fato, o procedimento
de praxe, apoiado pela maioria dos pediatras, não
fosse a divulgação, no início de abril,
de uma recomendação em sentido contrário
feita pela respeitada Academia Americana de Pediatria (AAP).
Com base em um levantamento elaborado por seu comitê
de prevenção de acidentes, a AAP concluiu
que, antes dos 4 anos, crianças podem até
aprender a nadar, mas não têm controle motor
para boiar ou dar grandes braçadas numa situação
de emergência. Diante disso, colocá-las ainda
pequenas em escolinhas de natação pode, em
vez de reforçar sua segurança, prejudicá-las.
Primeiro, porque, ao perder o medo da água, as crianças
se sentem mais encorajadas a se aventurar nela sem supervisão.
Depois, porque os próprios adultos, acreditando que
os filhos já estão familiarizados com a piscina,
passam a ter uma falsa sensação de segurança.
Ensinar a dizer não No meio de tantas
tragédias que rondam as crianças pequenas,
as que mais chocam são aquelas que envolvem violência,
até porque, nesse caso, nem sempre a atenção
redobrada espanta o perigo. As agressões são
a terceira maior causa de mortalidade infantil no Brasil:
de acordo com dados do Ministério da Saúde,
790 crianças morreram em conseqüência
de maus-tratos, brigas e abusos sexuais em 1997. Muitas
vezes a violência é cometida por estranhos,
aqueles mesmos que papai e mamãe sempre avisam para
evitar. Conselho equivocado, ensina Becker, o especialista
em segurança americano. Dono de uma empresa da Califórnia
que presta serviço para ricos e famosos do quilate
da ex-primeira-ministra da Inglaterra Margaret Thatcher
e da atriz e cantora Madonna, ele afirma que ensinamentos
do tipo "nunca fale com estranhos", em vez de proteger a
criança, contribuem para torná-la mais vulnerável
a riscos. Assim orientado, diz ele, o menino tem, no final
das contas, menos chance de defender-se de situações
perigosas. Primeiro, porque a regra não transmite
credibilidade: filhos vêem os pais ignorá-la
o tempo todo. Depois, porque, quanto menos habituadas ao
contato com desconhecidos, menos preparadas as crianças
estarão para lidar com eles. Melhor aprender, diz
Becker. Ele recomenda aos pais que, ao levar os filhos para
um passeio no shopping center, incentive-os a abordar estranhos
para saber as horas ou perguntar como se chega ao cinema,
por exemplo. Além de acostumar as crianças
a falar com quem não conhecem, terão uma chance
de orientá-las sobre como reconhecer estranhos mais
ou menos confiáveis.
Becker, também autor do best-seller Virtudes
do Medo, manual com orientações sobre
segurança pessoal, faz ainda um alerta aos pais que
recomendam aos filhos que obedeçam sempre aos adultos.
Estatísticas americanas indicam que, em 90% dos casos
de abuso sexual, o molestador é um conhecido da vítima
e não um estranho. A advertência de Becker:
"Ensine a seu filho que nenhum adulto, nem mesmo os que
ele ama e respeita, está autorizado a fazer com seu
corpo coisas que ele não queira. E, caso isso ocorra,
ele deverá gritar, chutar e fazer barulho". Por fim,
para situações de emergência, como se
machucar na volta da escola, se perder na praia ou se sentir
ameaçado de alguma forma, o conselho muito prático
que Becker sugere aos pais para transmitir aos filhos é:
peçam ajuda a uma mulher. Isso porque, ele afirma,
mulheres raramente são predadoras sexuais e, além
disso, homens sempre poderão limitar-se a apontar
para o pequeno desorientado o caminho da cabine de informações.
Elas, ao contrário, acredita o especialista, tenderão
a se envolver com o problema até solucioná-lo.