Edição 1 647 -3/5/2000

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Marcio Capovilla

Pais se preocupam com os perigos errados.
Poucas crianças somem no shopping. Poucas
são seqüestradas. O problema é cinto de
segurança,
fogão e material de limpeza

Thaís Oyama

Nem doenças, nem miséria. No Brasil, a primeira causa de morte de crianças a partir dos 5 anos de idade são os acidentes, daqueles que poderiam ser perfeitamente evitados com um pouco mais de atenção. Segundo a última pesquisa em grande escala sobre o assunto, realizada pelo Ministério da Saúde em 1997, batidas de carro, atropelamentos, afogamentos, quedas, queimaduras e intoxicações mataram 5.843 meninos e meninas de até 14 anos. Qual a explicação para estatística tão assustadora? Os pediatras têm uma tese nada tranqüilizadora para os adultos. Costumam repetir que, por trás de toda criança acidentada, existe um pai ou mãe descuidado. Pois a tese agora conta com o aval do mais conhecido especialista americano em segurança pessoal, Gavin de Becker. Em seu último livro, Protecting the Gift, com lançamento previsto para o segundo semestre no Brasil e dedicado à segurança infantil, ele confirma com entrevistas e números: a desatenção dos adultos é, de fato, a grande culpada pela maioria dos acidentes que vitimam crianças. Mas ela sozinha não explica tudo. Muitos pais, diz o especialista, perdem a chance de cuidar melhor de seus filhos por se preocupar demais com riscos improváveis – e menosprezar os mais corriqueiros.

 
Fotos Antonio Milena
Fotos Antonio Milena
Pais aflitos, bebês on-line: no berçário paulista Baby Oz, mães podem matar a saudade dos filhos via internet, como a gerente Ana, que na seqüência sorri para a filha Gabriela, no colo de uma funcionária

Qual é o medo mais comum dos adultos em relação a um filho pequeno nos Estados Unidos, no Brasil e na maior parte do mundo? Que ele de repente suma, se perca, seja seqüestrado ou roubado. É possível, sem dúvida. Mas muito menos provável do que perdê-lo em um acidente de automóvel. No entanto, quem ainda não viu uma mãe deixar a maternidade e se sentar no banco dianteiro do carro com seu bebê recém-nascido no colo? Para verificar o que se passa pela cabeça dos adultos quando o assunto é segurança infantil, VEJA realizou uma tomada de depoimentos na qual, durante três horas, onze mães de classe média, moradoras de São Paulo e com filhos de 8 meses a 10 anos, falaram sobre o que mais temem em relação a suas crianças. Sete citaram como uma de suas maiores aflições o receio de que os filhos sumissem, episódio estatisticamente raro. Apenas uma mencionou o risco de acidentes de transporte – a primeira causa de morte infantil no país, desconsideradas as causas naturais.

"Nunca pensei que fosse tão rápido" – De acordo com dados do Departamento Nacional de Trânsito, atropelamentos e batidas de carro vitimaram 37.000 crianças no Brasil em 1997. Do total de meninos e meninas atingidos, 3.307 morreram, segundo o Comitê Nacional de Prevenção de Acidentes e Violência do Ministério da Saúde. O número representa 35% das mortes não naturais ocorridas entre crianças brasileiras de até 14 anos. Fatalidade? Nada disso. Por meio de boletins de ocorrência, a pediatra Renata Waxman, da Sociedade Brasileira de Pediatria e do Hospital Paulista Albert Einstein, esmiuçou como se deram 218 batidas de carro que tiraram a vida de crianças em São Paulo. Concluiu que 100% das vítimas de colisão com menos de 1 ano de idade e pelo menos 12% das que tinham até 9 anos viajavam no banco da frente e sem cinto de segurança. Ou seja, haveria grandes chances de estarem vivas hoje se os responsáveis por elas tivessem simplesmente observado a norma que obriga menores de 10 anos a andar no banco traseiro afivelados por cintos. "São medidas aparentemente óbvias, mas, por incrível que pareça, até hoje nem todo mundo adota", afirma a médica.

Proteção em período integral: Ana Clara busca os filhos na escola e os mantém o tempo todo sob suas vistas. Mesmo assim, já foram assaltados no carro, com ela dirigindo

Descuido, nesse caso, não é absolutamente sinônimo de falta de amor. O problema é que bastam alguns segundos de distração para que os acidentes aconteçam. Como mãe que é mãe dificilmente vai tomar a drástica atitude de não levar seu filho à piscina do prédio, onde todos os seus amiguinhos se divertem, instala-se o perigo. Há duas semanas, a dona-de-casa Roberta Ahuja conversava com as amigas na área de lazer do prédio onde mora, no bairro paulistano do Alto de Pinheiros, quando seu filho de 3 anos tropeçou na borda da piscina e caiu na água. Uma das moradoras percebeu a cena, deu o alerta e a criança foi salva por um vizinho. "Só vi a cabecinha dele subindo e descendo. Nunca pensei que pudesse ser tão rápido", lembra Roberta.

Escolinhas não resolvem – Afogamentos são a segunda causa de morte não natural entre crianças brasileiras. Eles vitimaram 1.841 meninos e meninas em 1997, contabiliza o Ministério da Saúde. No Rio de Janeiro, diariamente, pelo menos uma criança de até 9 anos se afoga no mar. Em São Paulo, os acidentes em piscina representam a quase totalidade dos casos de afogamento. No interior, rios e lagos são os maiores vilões. Mas, por mais arrepiante que isso soe, nem sempre se afogar tem a ver com não saber ou não poder nadar. Mais raros, mas igualmente fatais, são os casos de submersão acidental – a morte por afogamento em baldes, vasos sanitários e banheiras. "Baldes cheios deixados em áreas de serviço e vasos sanitários sem proteção são ameaças reais para bebês de até 2 anos. Se afundam, eles não têm força para sair sozinhos", explica a pediatra Renata Waxman. O Hospital das Clínicas de São Paulo registrou pelo menos um caso de morte por submersão em balde no ano passado. O Hospital Albert Einstein atende de um a dois casos por ano de bebês que acabam morrendo em função de acidentes em banheira. Em comum, eles têm o fato de acontecer num piscar de olhos. "O acidente é rápido e seu desfecho também. Para que a morte cerebral ocorra não são necessários mais do que quatro minutos de submersão", lembra o pediatra Cláudio Schvartsman, do Instituto da Criança da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Há outra maneira de prevenir o afogamento de crianças além de prestar uma obsessiva atenção nelas quando se aproximam da água? Depois do episódio na piscina, a dona-de-casa Roberta passou a ouvir de amigas que deveria matricular o filho urgentemente em uma escola de natação. Este seria, de fato, o procedimento de praxe, apoiado pela maioria dos pediatras, não fosse a divulgação, no início de abril, de uma recomendação em sentido contrário feita pela respeitada Academia Americana de Pediatria (AAP). Com base em um levantamento elaborado por seu comitê de prevenção de acidentes, a AAP concluiu que, antes dos 4 anos, crianças podem até aprender a nadar, mas não têm controle motor para boiar ou dar grandes braçadas numa situação de emergência. Diante disso, colocá-las ainda pequenas em escolinhas de natação pode, em vez de reforçar sua segurança, prejudicá-las. Primeiro, porque, ao perder o medo da água, as crianças se sentem mais encorajadas a se aventurar nela sem supervisão. Depois, porque os próprios adultos, acreditando que os filhos já estão familiarizados com a piscina, passam a ter uma falsa sensação de segurança.

Ensinar a dizer não – No meio de tantas tragédias que rondam as crianças pequenas, as que mais chocam são aquelas que envolvem violência, até porque, nesse caso, nem sempre a atenção redobrada espanta o perigo. As agressões são a terceira maior causa de mortalidade infantil no Brasil: de acordo com dados do Ministério da Saúde, 790 crianças morreram em conseqüência de maus-tratos, brigas e abusos sexuais em 1997. Muitas vezes a violência é cometida por estranhos, aqueles mesmos que papai e mamãe sempre avisam para evitar. Conselho equivocado, ensina Becker, o especialista em segurança americano. Dono de uma empresa da Califórnia que presta serviço para ricos e famosos do quilate da ex-primeira-ministra da Inglaterra Margaret Thatcher e da atriz e cantora Madonna, ele afirma que ensinamentos do tipo "nunca fale com estranhos", em vez de proteger a criança, contribuem para torná-la mais vulnerável a riscos. Assim orientado, diz ele, o menino tem, no final das contas, menos chance de defender-se de situações perigosas. Primeiro, porque a regra não transmite credibilidade: filhos vêem os pais ignorá-la o tempo todo. Depois, porque, quanto menos habituadas ao contato com desconhecidos, menos preparadas as crianças estarão para lidar com eles. Melhor aprender, diz Becker. Ele recomenda aos pais que, ao levar os filhos para um passeio no shopping center, incentive-os a abordar estranhos para saber as horas ou perguntar como se chega ao cinema, por exemplo. Além de acostumar as crianças a falar com quem não conhecem, terão uma chance de orientá-las sobre como reconhecer estranhos mais ou menos confiáveis.

Becker, também autor do best-seller Virtudes do Medo, manual com orientações sobre segurança pessoal, faz ainda um alerta aos pais que recomendam aos filhos que obedeçam sempre aos adultos. Estatísticas americanas indicam que, em 90% dos casos de abuso sexual, o molestador é um conhecido da vítima e não um estranho. A advertência de Becker: "Ensine a seu filho que nenhum adulto, nem mesmo os que ele ama e respeita, está autorizado a fazer com seu corpo coisas que ele não queira. E, caso isso ocorra, ele deverá gritar, chutar e fazer barulho". Por fim, para situações de emergência, como se machucar na volta da escola, se perder na praia ou se sentir ameaçado de alguma forma, o conselho muito prático que Becker sugere aos pais para transmitir aos filhos é: peçam ajuda a uma mulher. Isso porque, ele afirma, mulheres raramente são predadoras sexuais e, além disso, homens sempre poderão limitar-se a apontar para o pequeno desorientado o caminho da cabine de informações. Elas, ao contrário, acredita o especialista, tenderão a se envolver com o problema até solucioná-lo.