Edição 1 647 -3/5/2000

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A invenção do cachorro

Mapeamento do genoma do cão, um animal com
evolução atrelada à do homem, pode ajudar a
curar as doenças humana
s

Bia Barbosa

Columbia Buena Vista


Depois do homem, seu melhor amigo. Um grupo de pesquisadores americanos está mapeando o genoma do cão, num projeto bem mais ambicioso do que qualquer um daqueles atualmente desenvolvidos com insetos e larvas por toda a parte. A razão é simples: homem e cão têm histórias evolutivas paralelas e, por isso, compartilham uma infinidade de doenças genéticas. Há outras semelhanças notáveis. Ambas as espécies possuem um código genético composto de cerca de 100.000 genes. Perto de 90% do DNA é absolutamente idêntico. Não é tanto se comparado ao do chimpanzé, nosso parente mais próximo na árvore da evolução, com o qual compartilhamos 99%. O que importa nesse estudo, contudo, não é a quantidade, mas a qualidade. Já se descobriu que somos iguais aos cães em 21 genes cruciais, cujas mutações geram problemas de saúde. Pesquisas recentes mostram que 222 das 370 doenças genéticas caninas conhecidas também afligem os humanos. São males como epilepsia, surdez, cegueira, malformações ósseas e alguns tipos de câncer. Identificar os genes que causam doenças em nosso melhor amigo pode ser um atalho para encontrar seus equivalentes no DNA humano. Um caminho, por sinal, bem mais barato.



Pedro Rubens


O Projeto Genoma Canino é um primo pobre do Projeto Genoma Humano. Enquanto o mapeamento de nosso DNA envolve um orçamento de cerca de 800 milhões de dólares e é cotado na bolsa de valores, o estudo com os cães, que começou há oito anos, consome uns poucos milhões de dólares anuais. A geneticista Elaine Ostrander coordena o estudo no Centro de Pesquisas de Câncer Fred Hutchinson, em Seattle, com a participação de meia centena de pesquisadores em outros laboratórios dos Estados Unidos e na Europa. Outros 100 centros de pesquisas contribuem com informações esparsas. Os primeiros resultados dos trabalhos já começaram a aparecer. Há dois anos, o oftalmologista americano Gustavo Aguirre localizou o gene causador de cegueira hereditária em dez raças de cães, incluindo o poodle e o cocker spaniel. A doença é equivalente à retinite pigmentosa que afeta os humanos. No ano passado, o psiquiatra Emmanuel Mignot, da Escola de Medicina da Universidade Stanford, descobriu no DNA de dobermanns e labradores a mutação genética responsável pela narcolepsia, a doença do sono que também vitima os humanos. "Os cachorros de raça pura são ideais para mapear doenças genéticas", diz Elaine. "Como têm variabilidade genética pequena e um pedigree que recua várias gerações, são ideais para mapear doenças humanas."

As incríveis semelhanças entre humanos e cães decorrem dos séculos de convivência no mesmo ambiente e, até, de terem compartilhado a alimentação. Estima-se que o cão se tenha separado do lobo há cerca de 100.000 anos – provavelmente por ter abandonado a caça e passado a viver dos restos de comida deixados pelo homem da idade da pedra. O ser humano não apenas domesticou o animal mas também o moldou a sua vontade. O processo de criação de novas raças é corriqueiro. A cada geração, selecionam-se para acasalamento os animais com características desejadas ou mais bem adaptados a determinada tarefa. Existem atualmente cerca de 500 raças registradas, do minúsculo chihuahua, de 1,5 quilo, até o dogue alemão, com mais de 60 quilos. Trata-se da maior variedade de tamanho e forma existente numa mesma espécie, com a exceção do próprio homem. Ocorreram tantos cruzamentos que hoje é impossível dizer qual raça está mais próxima do lobo original, mesmo que algumas se pareçam fisicamente com ele, como o husky siberiano. "Quase todas as raças que vemos hoje surgiram no final do século XIX", diz a bióloga portuguesa Isabel Amorim do Rosário, pesquisadora da Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

Nessa busca por animais perfeitos o homem cometeu um erro. "Para garantir os aspectos que queriam, criadores cruzavam animais com alto grau de parentesco", explica o americano Donald Patterson, professor de genética da Universidade da Pensilvânia. Quando isso ocorre, multiplica-se o risco de surgirem doenças genéticas. Foi o que aconteceu. Os pastores alemães, por exemplo, têm elevada incidência de distrofia muscular. A alta taxa de doenças genéticas em algumas raças ajuda o trabalho dos pesquisadores. Como elas se manifestam em um grande número de espécimes da mesma raça, são mais facilmente identificadas nos cães do que no homem. Esse é outro motivo pelo qual os pesquisadores estão tão interessados em destrinchar o genoma canino. Se as pesquisas continuarem nesse ritmo, poderemos identificar praticamente todas as doenças genéticas dos cães e promover uma verdadeira revolução na veterinária. "Quando estiverem mapeadas, será possível fazer o caminho inverso e eliminá-las, por cruzamentos seletivos, nos próximos vinte anos", diz Gregory Acland, pesquisador do Instituto de Saúde Animal James A. Baker, da Universidade Cornell, nos Estados Unidos.

 
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  Mal cortado pela raiz
Da internet
  The Dog Genome Project
  The FHCRC Dog Genome Project