Edição 1 647 -3/5/2000

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Vaivém da ciência

Novas pesquisas que contradizem certezas médicas
confundem os pacientes e criam modismos perigosos

Cristina Poles

Montagem de Fabio Victor sobre fotos de Gamma/
Marcelo Breyne/ Luis Gomes


Uma hora os cientistas anunciam: quem consome quatro ou mais xícaras de café por dia está no caminho mais curto para a hipertensão. Outra, que a cafeína é um potente analgésico contra a dor de cabeça. Ou, ainda, que chocolate – meio amargo, diga-se – faz bem ao coração. Mas, cuidado, pois ao mesmo tempo causa obesidade e todas as complicações associadas ao excesso de peso. Quem se pauta pelas últimas novidades da ciência em nome de uma vida saudável tem razões de sobra para estar confuso. Em média, 10.000 estudos de medicina clínica são divulgados a cada semana. Alguns deles colocam em dúvida a eficácia ou a segurança de substâncias e tratamentos consagrados por trabalhos anteriores – e avidamente adotados por muitos pacientes. Não se trata de um processo perverso. Ao contrário, cada pesquisa carrega a possibilidade de ampliar o conhecimento das doenças e dos métodos de cura. Mas como explicar isso para alguém que apostou seu bem-estar numa substância que mais tarde seria desmascarada como perniciosa à saúde?

Um episódio de grande repercussão no momento envolve mudanças dramáticas em muito do que se sabia até agora sobre terapia hormonal. Até poucas semanas atrás, os médicos acreditavam que as doses extras de hormônios receitadas para atenuar os sintomas típicos da menopausa e proteger a mulher da osteoporose também diminuíssem o risco de infartos. Uma pesquisa patrocinada pelo governo americano, com 25.000 mulheres de 50 a 79 anos, chegou à conclusão de que a reposição hormonal pode ter efeito oposto ao que se imaginava – ao menos no que diz respeito às doenças cardiovasculares. Iniciado há dois anos pela organização Women's Health Initiative, trata-se do primeiro grande estudo clínico da eficácia da terapia com hormônios na prevenção dos males cardíacos. A resposta definitiva só virá em 2005, mas o anúncio do resultado preliminar foi o bastante para causar pânico nos Estados Unidos, onde 20 milhões de mulheres se submetem à terapia com hormônios sintéticos.

No Brasil não há números precisos sobre quantas mulheres adotam essa medida. Pode-se, contudo, ter idéia da amplitude dos tratamentos de reposição hormonal pelos dados de um dos medicamentos contendo estrógeno e consumido por 250.000 brasileiras. A popularização dessa terapia é um excelente exemplo de como certas especulações científicas são tomadas ao pé da letra e se tornam modismo, inclusive entre os médicos. Inicialmente, os estudos sobre a terapia de reposição hormonal tinham por objetivo comprovar a eficácia no combate aos sintomas clássicos da menopausa. Os supostos benefícios para a saúde das coronárias surgiram de evidências indiretas. Não se levou em conta que essas mulheres geralmente têm elevado nível de escolaridade, fumam pouco, adotam dietas balanceadas e praticam exercícios. Como saber quais desses fatores estavam protegendo o coração? Pelo que mostra o novo estudo, não era o estrógeno. É bom esclarecer, antes que se instale novo furor sem sustentação científica, que a reposição hormonal não significa uma condenação fatal. "A elevação nos riscos de infarto e derrame foi muito pequena, de apenas 1%", diz o médico Jacques Rossouw, diretor da pesquisa. "O importante é saber que, pelo menos nos dois primeiros anos de uso, o estrógeno não protege contra infartos."

Uma hipótese de cada vez – A produção científica passa por um período muito peculiar. Nunca na história da humanidade houve tantos cientistas, tantas pesquisas em andamento e tanta gente interessada em seus resultados. Por ano, são publicados de 800.000 a 900.000 estudos em revistas especializadas. O Brasil responde por 1% desse total. Pode parecer pouco, mas é o dobro do que o país produzia há dez anos. Estima-se que a indústria farmacêutica invista 20% do faturamento global na pesquisa de novos medicamentos. Com tanta novidade sendo anunciada em ritmo alucinante, é compreensível que as pessoas se embaralhem na hora de decidir como lidar com a saúde. Os próprios médicos são presas da propaganda dos laboratórios e das pesquisas de maior repercussão. A única defesa possível é desconfiar de tratamentos milagrosos que surgem da noite para o dia. A experiência mostra que ciência séria não se faz de uma hora para outra.

O consumo medicinal de vinho tinto é um bom exemplo disso. Um grupo de pesquisadores da prestigiada Universidade Harvard recomendou uma taça diária da bebida para o bom funcionamento do coração. Experiências em laboratórios mostraram que o vinho aumentava as taxas de colesterol bom, o HDL, no sangue. Em seguida, surgiu outro trabalho revelando que a bebida poderia elevar a pressão sanguínea. "Quando se trata de temas complexos, é preciso investigar uma hipótese de cada vez", diz Eduardo Moacyr Krieger, presidente da Academia Brasileira de Ciências. Não é assim, infelizmente, que o resultado de muitos trabalhos chega ao grande público. Os pesquisadores, sobretudo os americanos, que têm contas a prestar aos financiadores da pesquisa e, algumas vezes, aos investidores da bolsa de valores, estão ansiosos para mostrar resultados. Trabalhos apenas parciais são propagandeados como verdades absolutas.

Quando se investiga a ação de determinados alimentos ou os efeitos secundários de um medicamento sobre o organismo, os resultados tendem a ser sutis e demorados. Levou-se quase um século para perceber que a aspirina também protege o coração. Uma das áreas mais estudadas atualmente é a da nutrição. Trata-se, por sinal, de uma das mais difíceis para obter resultados claros e imediatos. Durante cerca de quatro anos, pesquisadores americanos do Instituto Nacional do Câncer e da Universidade do Arizona acompanharam 3 500 pessoas. Todas seguiam uma dieta com alto teor de fibras e baixa concentração de gordura – exatamente a alimentação que se acreditava ideal para prevenir o câncer de intestino. Divulgados recentemente na conceituada revista The New England Journal of Medicine, os estudos mostram que o regime alimentar não evita o surgimento de pólipos que podem levar ao câncer. Assustados com o possível efeito da novidade sobre os pacientes, os médicos apressaram-se em advertir que, por enquanto, nada mudou. Dietas ricas em fibras e pobres em gordura podem não combater os tumores malignos de intestino, como se pensava, mas ainda são as mais saudáveis. Trazem benefícios comprovados contra doenças cardíacas, diabetes e obesidade. "Percebeu-se que esse tipo de alimentação não é eficaz a curto prazo, mas ainda não se sabe se evita o câncer a longo prazo", diz Arthur Schatzkin, do Instituto Nacional do Câncer. "Alguns tumores levam mais de dez anos para se desenvolver."

É natural que tanta gente, ansiosa por remédios que ajudem a viver melhor, se deixe impressionar com resultados precoces de trabalhos médicos. "Há uma enorme diferença entre uma pesquisa de laboratório, feita com animais, e uma avaliação controlada de um grande grupo de pessoas", diz Irineu Tadeu Velasco, diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Mesmo assim, muitos pesquisadores divulgam suas descobertas feitas com cobaias como se elas valessem, sem restrições, para todo mundo. Um alimento pode brecar o câncer em ratinhos, mas não necessariamente fará o mesmo com seres humanos. "Muita gente tem interesses comerciais em divulgar estudos precocemente, ainda na fase de laboratório", diz Krieger. Afinal, tratamentos inéditos, alimentos anunciados como milagrosos, substâncias recém-descobertas ou novos suplementos nutricionais podem render milhões de dólares em vendas de livros ou produtos. Para não enlouquecer no meio de tantas descobertas médicas nem se deixar levar por um resultado precoce ou insignificante de uma pesquisa, é aconselhável considerar apenas o que já é consenso entre as sociedades científicas. "São elas que avaliam as novas levas de trabalhos e fazem a recomendação final do que os médicos e pacientes devem seguir", pondera Jorge Kalil, presidente da Comissão de Ética em Pesquisa do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Um ótimo exemplo de como a divulgação precoce de um fato pode fazer estragos ocorreu nos Estados Unidos com um artigo publicado na revista científica Pediatrics, em 1972. A pesquisa sobre a síndrome da morte súbita aconselhava os pais a equipar os berços com uma parafernália eletrônica para monitorar o sono das crianças. Foi a origem de uma verdadeira indústria de vigilância dos pequeninos, apesar de a morte de cinco crianças de uma mesma família americana apontar para a origem genética do problema. Na hora de colocá-los para dormir, era preciso seguir uma lista de recomendações. Muitos anos depois, descobriu-se que os cinco bebês usados como base para o estudo haviam sido assassinados. Os editores da Pediatrics tiveram de se desculpar pelo erro, mas àquela altura os pais já tinham gasto fortunas em babás eletrônicas e passado noites em claro à toa.

 

Saiba mais
Da internet
  Universidade de Harvard
  The New England Journal of Medicine

 

 

  Fotos Marcelo Kuba e Luiz Roberto Pereira