Vaivém da ciência
Novas pesquisas que contradizem
certezas médicas
confundem os pacientes e criam modismos perigosos
Cristina Poles
Montagem de Fabio Victor sobre fotos
de Gamma/
Marcelo Breyne/ Luis Gomes
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Uma hora os cientistas anunciam: quem consome quatro ou
mais xícaras de café por dia está no
caminho mais curto para a hipertensão. Outra, que
a cafeína é um potente analgésico contra
a dor de cabeça. Ou, ainda, que chocolate
meio amargo, diga-se faz bem ao coração.
Mas, cuidado, pois ao mesmo tempo causa obesidade e todas
as complicações associadas ao excesso de peso.
Quem se pauta pelas últimas novidades da ciência
em nome de uma vida saudável tem razões de
sobra para estar confuso. Em média, 10.000
estudos de medicina clínica são divulgados
a cada semana. Alguns deles colocam em dúvida a eficácia
ou a segurança de substâncias e tratamentos
consagrados por trabalhos anteriores e avidamente
adotados por muitos pacientes. Não se trata de um
processo perverso. Ao contrário, cada pesquisa carrega
a possibilidade de ampliar o conhecimento das doenças
e dos métodos de cura. Mas como explicar isso para
alguém que apostou seu bem-estar numa substância
que mais tarde seria desmascarada como perniciosa à
saúde?
Um episódio de grande repercussão no momento
envolve mudanças dramáticas em muito do que
se sabia até agora sobre terapia hormonal. Até
poucas semanas atrás, os médicos acreditavam
que as doses extras de hormônios receitadas para atenuar
os sintomas típicos da menopausa e proteger a mulher
da osteoporose também diminuíssem o risco
de infartos. Uma pesquisa patrocinada pelo governo americano,
com 25.000 mulheres de 50 a 79
anos, chegou à conclusão de que a reposição
hormonal pode ter efeito oposto ao que se imaginava
ao menos no que diz respeito às doenças cardiovasculares.
Iniciado há dois anos pela organização
Women's Health Initiative, trata-se do primeiro grande estudo
clínico da eficácia da terapia com hormônios
na prevenção dos males cardíacos. A
resposta definitiva só virá em 2005, mas o
anúncio do resultado preliminar foi o bastante para
causar pânico nos Estados Unidos, onde 20 milhões
de mulheres se submetem à terapia com hormônios
sintéticos.
No Brasil não há números precisos
sobre quantas mulheres adotam essa medida. Pode-se, contudo,
ter idéia da amplitude dos tratamentos de reposição
hormonal pelos dados de um dos medicamentos contendo estrógeno
e consumido por 250.000 brasileiras.
A popularização dessa terapia é um
excelente exemplo de como certas especulações
científicas são tomadas ao pé da letra
e se tornam modismo, inclusive entre os médicos.
Inicialmente, os estudos sobre a terapia de reposição
hormonal tinham por objetivo comprovar a eficácia
no combate aos sintomas clássicos da menopausa. Os
supostos benefícios para a saúde das coronárias
surgiram de evidências indiretas. Não se levou
em conta que essas mulheres geralmente têm elevado
nível de escolaridade, fumam pouco, adotam dietas
balanceadas e praticam exercícios. Como saber quais
desses fatores estavam protegendo o coração?
Pelo que mostra o novo estudo, não era o estrógeno.
É bom esclarecer, antes que se instale novo furor
sem sustentação científica, que a reposição
hormonal não significa uma condenação
fatal. "A elevação nos riscos de infarto e
derrame foi muito pequena, de apenas 1%", diz o médico
Jacques Rossouw, diretor da pesquisa. "O importante é
saber que, pelo menos nos dois primeiros anos de uso, o
estrógeno não protege contra infartos."
Uma hipótese de cada vez A produção
científica passa por um período muito peculiar.
Nunca na história da humanidade houve tantos cientistas,
tantas pesquisas em andamento e tanta gente interessada
em seus resultados. Por ano, são publicados de 800.000
a 900.000 estudos em revistas
especializadas. O Brasil responde por 1% desse total.
Pode parecer pouco, mas é o dobro do que o país
produzia há dez anos. Estima-se que a indústria
farmacêutica invista 20% do faturamento global na
pesquisa de novos medicamentos. Com tanta novidade sendo
anunciada em ritmo alucinante, é compreensível
que as pessoas se embaralhem na hora de decidir como lidar
com a saúde. Os próprios médicos são
presas da propaganda dos laboratórios e das pesquisas
de maior repercussão. A única defesa possível
é desconfiar de tratamentos milagrosos que surgem
da noite para o dia. A experiência mostra que ciência
séria não se faz de uma hora para outra.
O consumo medicinal de vinho tinto é um bom exemplo
disso. Um grupo de pesquisadores da prestigiada Universidade
Harvard recomendou uma taça diária da bebida
para o bom funcionamento do coração. Experiências
em laboratórios mostraram que o vinho aumentava as
taxas de colesterol bom, o HDL, no sangue. Em seguida, surgiu
outro trabalho revelando que a bebida poderia elevar a pressão
sanguínea. "Quando se trata de temas complexos, é
preciso investigar uma hipótese de cada vez", diz
Eduardo Moacyr Krieger, presidente da Academia Brasileira
de Ciências. Não é assim, infelizmente,
que o resultado de muitos trabalhos chega ao grande público.
Os pesquisadores, sobretudo os americanos, que têm
contas a prestar aos financiadores da pesquisa e, algumas
vezes, aos investidores da bolsa de valores, estão
ansiosos para mostrar resultados. Trabalhos apenas parciais
são propagandeados como verdades absolutas.
Quando se investiga a ação de determinados
alimentos ou os efeitos secundários de um medicamento
sobre o organismo, os resultados tendem a ser sutis e demorados.
Levou-se quase um século para perceber que a aspirina
também protege o coração. Uma das áreas
mais estudadas atualmente é a da nutrição.
Trata-se, por sinal, de uma das mais difíceis para
obter resultados claros e imediatos. Durante cerca de quatro
anos, pesquisadores americanos do Instituto Nacional do
Câncer e da Universidade do Arizona acompanharam 3
500 pessoas. Todas seguiam uma dieta com alto teor de fibras
e baixa concentração de gordura exatamente
a alimentação que se acreditava ideal para
prevenir o câncer de intestino. Divulgados recentemente
na conceituada revista The New England Journal of Medicine,
os estudos mostram que o regime alimentar não evita
o surgimento de pólipos que podem levar ao câncer.
Assustados com o possível efeito da novidade sobre
os pacientes, os médicos apressaram-se em advertir
que, por enquanto, nada mudou. Dietas ricas em fibras e
pobres em gordura podem não combater os tumores malignos
de intestino, como se pensava, mas ainda são as mais
saudáveis. Trazem benefícios comprovados contra
doenças cardíacas, diabetes e obesidade. "Percebeu-se
que esse tipo de alimentação não é
eficaz a curto prazo, mas ainda não se sabe se evita
o câncer a longo prazo", diz Arthur Schatzkin, do
Instituto Nacional do Câncer. "Alguns tumores levam
mais de dez anos para se desenvolver."
É natural que tanta gente, ansiosa por remédios
que ajudem a viver melhor, se deixe impressionar com resultados
precoces de trabalhos médicos. "Há uma enorme
diferença entre uma pesquisa de laboratório,
feita com animais, e uma avaliação controlada
de um grande grupo de pessoas", diz Irineu Tadeu Velasco,
diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de São
Paulo. Mesmo assim, muitos pesquisadores divulgam suas descobertas
feitas com cobaias como se elas valessem, sem restrições,
para todo mundo. Um alimento pode brecar o câncer
em ratinhos, mas não necessariamente fará
o mesmo com seres humanos. "Muita gente tem interesses comerciais
em divulgar estudos precocemente, ainda na fase de laboratório",
diz Krieger. Afinal, tratamentos inéditos, alimentos
anunciados como milagrosos, substâncias recém-descobertas
ou novos suplementos nutricionais podem render milhões
de dólares em vendas de livros ou produtos. Para
não enlouquecer no meio de tantas descobertas médicas
nem se deixar levar por um resultado precoce ou insignificante
de uma pesquisa, é aconselhável considerar
apenas o que já é consenso entre as sociedades
científicas. "São elas que avaliam as novas
levas de trabalhos e fazem a recomendação
final do que os médicos e pacientes devem seguir",
pondera Jorge Kalil, presidente da Comissão de Ética
em Pesquisa do Hospital das Clínicas de São
Paulo.
Um ótimo exemplo de como a divulgação
precoce de um fato pode fazer estragos ocorreu nos Estados
Unidos com um artigo publicado na revista científica
Pediatrics, em 1972. A pesquisa sobre a síndrome
da morte súbita aconselhava os pais a equipar os
berços com uma parafernália eletrônica
para monitorar o sono das crianças. Foi a origem
de uma verdadeira indústria de vigilância dos
pequeninos, apesar de a morte de cinco crianças de
uma mesma família americana apontar para a origem
genética do problema. Na hora de colocá-los
para dormir, era preciso seguir uma lista de recomendações.
Muitos anos depois, descobriu-se que os cinco bebês
usados como base para o estudo haviam sido assassinados.
Os editores da Pediatrics tiveram de se desculpar
pelo erro, mas àquela altura os pais já tinham
gasto fortunas em babás eletrônicas e passado
noites em claro à toa.
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