Os donos-de-casa
O que muda quando as mulheres trabalham
e
os maridos passam a tomar conta das crianças
Tatiana Chiari
Ricardo Benichio
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| Helcio, com o menino Mauro: o engenheiro
virou consultor e hoje cuida da educação
do filho |
O último censo americano apresentou um dado surpreendente:
quase 5 milhões de homens nos Estados Unidos são
donos-de-casa. Eles se ocupam das tarefas domésticas
e, principalmente, se responsabilizam pela educação
dos filhos. No Brasil, ainda não se sabe ao certo
quantos lares vivem nessa situação. Mas sabe-se
que aumenta o número de pais que, por força
das circunstâncias, trocam de lugar com a mãe.
É incrível imaginar que crianças acostumadas
a dormir com canções do tipo "papai foi trabalhar"
experimentem a situação inversa. Na casa delas,
mamãe é quem foi trabalhar e o papai está
ali para passar, lavar e preparar a comida. Não há
dúvida de que o rearranjo familiar muda a dinâmica
da casa. Mas, como o fenômeno é recente, não
há estudo conclusivo a respeito do efeito dessa troca
sobre as crianças. Os especialistas concordam que
os pais tendem a ser mais rigorosos que as mães com
alguns aspectos da educação dos filhos. Preocupam-se
mais que elas com a pontualidade das tarefas, por exemplo.
Ou são implicantes demais quando o garoto ou a garota
lhes desobedecem. "As mães têm mais dificuldade
na hora de impor autoridade", diz Maria da Conceição
Uvaldo, professora de psicologia da Universidade de São
Paulo.
Da década de 70 para cá, houve uma mudança
significativa no papel da figura paterna. Nesse tempo, o
pai perdeu a primazia de ser o chefe de família.
No Brasil, as mulheres já chefiam uma em cada quatro
casas. As razões são conhecidas: houve o aumento
da presença feminina no mercado de trabalho e também
na renda do casal. A presença do pai em casa é
subproduto dessa onda de transformações. A
troca acontece em algumas circunstâncias específicas,
quase sempre quando a renda do casal não é
suficiente para pagar uma babá, um dos dois se vê
obrigado a deixar o emprego e ela ganha bem mais que ele.
Ou então quando o marido perde o emprego e, diante
da dificuldade de voltar ao mercado, se acomoda no papel
de dono-de-casa. Raramente isso acontece por opção
do homem, mas por necessidade. Do ponto de vista dos filhos,
eis outro aspecto a ser estudado. Será que o pai
está feliz nesse novo papel?
Em alguns casos, sim, garante o engenheiro eletrônico
Helcio Dias Leite, de São Paulo. Quando seu filho
Mauro nasceu, sua mulher tinha uma carreira em ascensão.
Ele não. Em comum acordo, ficou acertado que Helcio
iria assumir a educação do menino. Hoje, é
ele quem lava, passa e prepara as refeições
de Mauro. Nas horas vagas, presta consultoria. A atual configuração
familiar requer cuidados, já que ambos, pai e mãe,
estão pisando em campo desconhecido. A mãe
sente que seu espaço está sendo invadido e
o pai tem de galgar sozinho um caminho para o qual nunca
foi treinado. Para os especialistas, a inversão de
papéis é apenas uma alternativa para lidar
com as variantes de um mundo dinâmico. E uma possibilidade
a mais para quem, em algum momento, precisa se adaptar às
regras do jogo.
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