Edição 1 647 -3/5/2000

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Praias no interior

Mais sofisticados, lagos e represas
tornam-se novos pólos de lazer

Rachel Verano

Rogerio Voltan
Bragança Paulista:
jet-skis, lanchas e esquis na Represa de Jaguari


Todo feriado a cena se repete. O empresário mineiro Rodrigo Mascarenhas deixa Belo Horizonte, onde mora, e viaja até o balneário de Escarpas do Lago, a 290 quilômetros de distância, para curtir seu lazer preferido: descansar em sua casa de 450 metros quadrados às margens da Represa de Furnas. Ali, Mascarenhas costuma passear de lancha durante horas pelo lago, em meio a cachoeiras belíssimas, e curtir a piscina e os amigos. O mesmo faz a empresária Liliana Hermeto e sua família. Litoral? Nem pensar. Há três anos Liliana vendeu o apartamento que tinha em Cabo Frio, na costa do Estado do Rio, e apostou no balneário. "Trocamos a areia e o mar pela tranqüilidade e pelo conforto", diz ela. Mascarenhas e Liliana ilustram um movimento que se iniciou tímido faz alguns anos e hoje já se tornou uma tendência: o investimento nas chamadas praias do interior, que surgem em torno de lagos, rios e represas. "Até pouco tempo atrás, lazer era sinônimo de litoral", observa o consultor Lincoln Marques, especialista em mercado imobiliário. "O brasileiro está deixando de lado o preconceito pelo interior. O resultado é uma verdadeira explosão de investimentos."

Eugenio Savio
Escarpas do Lago, em Minas: tênis, mansões e lanchas nas águas da Represa de Furnas


 

Uma série de novidades tem impulsionado esse movimento. Há alguns anos os empreendimentos eram muito rústicos. Hoje esses lugares contam com uma infra-estrutura de fazer inveja a qualquer praia da moda. Às margens de lagos de água cristalina brotam marinas, hotéis de luxo, lojas de artigos náuticos, bons restaurantes e condomínios sofisticados. Reduto de empresários ricos e bem-sucedidos, Escarpas do Lago tem a maior base náutica de água doce da América Latina. São mais de 300 embarcações, o triplo do que existia por ali pouco mais de cinco anos atrás. Cerca de 800 imóveis de luxo foram construídos em volta do lago. Há seis meses a cidade de Capitólio, onde fica o balneário, ganhou um aeroporto a pedido dos empresários que têm casas de veraneio no condomínio. É que muitos se deslocam até lá em helicópteros e aviões particulares. De olho no potencial da região, a MRV, uma das maiores construtoras de imóveis residenciais do país, colocou à venda, na virada do ano, aproximadamente 200 lotes e passou a construir casas de até 200 metros quadrados. O sucesso superou as expectativas. Mais de dez já foram vendidas, o dobro do que era esperado.


Eugenio Savio

Os fãs de carteirinha apontam inúmeras vantagens de investir no interior. Uma é o preço. É bem mais baixo que no litoral. Segundo estimativas de Roberto Capuano, presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis de São Paulo, um imóvel às margens das represas mais badaladas do interior paulista custa a metade do preço de um similar no litoral norte do Estado. Enquanto uma casa de 300 metros quadrados vale cerca de 250.000 reais às margens de uma represa, no litoral norte custaria o dobro. A aproximadamente 300 quilômetros da capital paulista, mais de dez represas formam o circuito das praias de água doce do Estado. Um dos lugares mais freqüentados é a Represa do Broa, no município de Itirapina. São muitas as opções de diversão: de praia pública a esportes náuticos e até pára-quedismo. Em Bragança Paulista, dezenas de lanchas e jet-skis lotam a Represa de Jaguari nos finais de semana.

 

Renata Ursaia
Condomínio em Avaré e vista da
Represa do Broa, em São Paulo: diversão perto da capital



Algumas cidades já começam a sentir no dia-a-dia as mudanças trazidas pela leva de investimentos. Avaré, às margens da Represa de Jurumirim, a pouco mais de 200 quilômetros de São Paulo, passou por uma verdadeira revolução nos últimos três anos. Viu o comércio abrir nos fins de semana, o número de restaurantes dobrar e triplicar as lojas de artigos esportivos e de pesca. Nos grandes feriados a população, de 80.000 habitantes, chega a duplicar. Somente para este ano estão previstos investimentos de 10 milhões de reais na cidade. Há três hotéis em construção. O maior deles será erguido num terreno de 242.000 metros quadrados, um investimento de mais de 7 milhões de reais.



Marcus Mico Ribeiro

Para quem vive no interior do Paraná, praia é um sonho distante. Cada vez que um morador de Londrina quer curtir o verão no litoral, tem duas opções: pegar um avião ou enfrentar os 500 quilômetros de estrada que o separam da costa mais próxima. Resultado: pouca gente vai à praia. São justamente as longas distâncias do território nacional que os especialistas apontam como um dos principais combustíveis de desenvolvimento das praias do interior, que aparecem como alternativas de lazer mais acessíveis. Pois bem, a 70 quilômetros de Londrina foi lançado, em novembro do ano passado, um condomínio de luxo numa ilha de 54 hectares na Represa de Capivara, município de Primeiro de Maio. Antes mesmo de as obras básicas de infra-estrutura ficarem prontas, 40% dos lotes já foram vendidos. Nos próximos anos a represa ganhará um hotel de luxo. "A idéia é aliar o conforto à praticidade", diz o empresário Abílio Medeiros, que administra os empreendimentos na ilha. Aplicando esse mesmo conceito, outra região do Paraná se prepara para tornar-se um pólo de lazer. Novas casas, condomínios, hotéis e marinas começam a pipocar às margens da represa criada há dezoito anos pela hidrelétrica de Itaipu, que banha quinze cidades do oeste do Estado. As praias do interior nunca estiveram tão animadas.

 
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