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Stephen
Kanitz
Ordem ou progresso?
"O
lema de nossa bandeira deveria ser
invertido, progresso primeiro, ordem
depois. Progresso, por definição, é
desordem. Criatividade é bagunça
e confusão. Muita ordem pode até
dificultar o progresso"
Ilustração Ale Setti
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Um dos modismos em administração de empresas na década
de 80 foi a criação da "missão da empresa" e das
"cartas de princípios", que você encontra incrustadas nas
paredes da maioria das salas de recepção das grandes empresas.
Algumas têm cinco pontos básicos, outras chegam a ter doze,
mas seguramente ninguém na empresa, nem o presidente, se lembra
de mais de três itens. Missões compridas não funcionam.
A "missão"
mais antiga que eu conheço tem 1.000
anos e pertence a uma entidade beneficente, a Ordem dos Cavaleiros da
Cruz de Malta, "obsequium pauperum", servir aos pobres, uma missão
que se mantém até hoje. O Brasil é um dos poucos
países do mundo que possuem uma "carta de princípios": "Ordem
e Progresso", o lema positivista de Auguste Comte gravado em nossa bandeira.
"Ordem é a precondição para todo progresso." "Ordem
por base, progresso por fim", diz Comte em seu Cours de Philosophie
Positive.
Boa parte
da política econômica de Fernando Henrique Cardoso, Pedro
Malan e Armínio Fraga Neto segue o lema positivista de manter a
casa em ordem, sem inflação, por exemplo, como precondição
para o progresso. Temos uma Constituição de mais de 300
parágrafos que põe "ordem" em tudo, ou em quase tudo.
Para abrir
uma empresa no Brasil são necessárias dezenas de autorizações
prévias para podermos começar em "ordem". Nosso lema deixa
bem claro que "ordem" vem em primeiro lugar, sem "ordem" não há
progresso.
Ricardo
Semler, um dos primeiros a escrever um livro de administração
que se tornou best-seller popular, Virando a Própria Mesa,
mostra uma interessante inconsistência. "Ordem e progresso são
incompatíveis", argumenta Semler. Progresso, por definição,
é desordem. Criatividade é bagunça e confusão.
Basta observar a mesa de um cientista, injustamente chamado de louco por
suas atitudes desordeiras.
Ou se escolhe
"ordem", diz Semler, ou se escolhe "progresso", e a grande crítica
de todos os candidatos, incluindo o do próprio governo, é
que Fernando Henrique Cardoso escolheu a primeira opção
e está na hora de mudarmos o enfoque para privilegiar a segunda
parte do lema nacional. Curiosamente, muita ordem pode até dificultar
o progresso. Existe uma terceira interpretação, que segue
a linha de Semler mas é um pouco diferente. Nossa bandeira deveria
conter a frase invertida: "Progresso e Ordem". Depois da bagunça
da criação, é necessário ter uma fase mais
calma de consolidação. Todos os cientistas sabem disso.
De tempos em tempos, até eles criam vergonha e arrumam o laboratório.
Progresso primeiro, ordem depois faz mais sentido do ponto de vista operacional.
Quem coloca
a sociedade em ordem não são os economistas, como nos querem
fazer acreditar, mas sim advogados, administradores, analistas, jornalistas,
historiadores, professores. São eles que ajudam a consolidar os
"progressos" feitos pelos cientistas, empreendedores, criadores e revolucionários,
sedimentando-os em leis e lições para que o restante da
sociedade possa imitá-los. Até os progressistas mais revolucionários
precisam, periodicamente, de um governo mais conservador, para que as
mudanças se tornem consagradas, sedimentadas e difundidas.
Quem gera
o progresso sem dúvida são os criadores, os inovadores,
as pequenas empresas e os pequenos empresários, os artistas que
quebram paradigmas, os que destroem a "ordem" e a visão reinante,
os que se arriscam e mostram o exemplo. A desordem dessa fase precisa
de uma pausa para respirar e de membros da sociedade preocupados em consolidar
as conquistas geradas. Nosso erro fundamental, portanto, foi inverter
o processo. A ordem sucede ao progresso. Não o antecede, como reza
nossa bandeira.
Stephen
Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)
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