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Edição 1 745 - 3 de abril de 2002
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Stephen Kanitz

Ordem ou progresso?

"O lema de nossa bandeira deveria ser
invertido, progresso primeiro, ordem
depois. Progresso, por definição, é
desordem. Criatividade é bagunça
e confusão. Muita ordem pode até
dificultar o progresso"


Ilustração Ale Setti


Um dos modismos em administração de empresas na década de 80 foi a criação da "missão da empresa" e das "cartas de princípios", que você encontra incrustadas nas paredes da maioria das salas de recepção das grandes empresas. Algumas têm cinco pontos básicos, outras chegam a ter doze, mas seguramente ninguém na empresa, nem o presidente, se lembra de mais de três itens. Missões compridas não funcionam.

A "missão" mais antiga que eu conheço tem 1.000 anos e pertence a uma entidade beneficente, a Ordem dos Cavaleiros da Cruz de Malta, "obsequium pauperum", servir aos pobres, uma missão que se mantém até hoje. O Brasil é um dos poucos países do mundo que possuem uma "carta de princípios": "Ordem e Progresso", o lema positivista de Auguste Comte gravado em nossa bandeira. "Ordem é a precondição para todo progresso." "Ordem por base, progresso por fim", diz Comte em seu Cours de Philosophie Positive.

Boa parte da política econômica de Fernando Henrique Cardoso, Pedro Malan e Armínio Fraga Neto segue o lema positivista de manter a casa em ordem, sem inflação, por exemplo, como precondição para o progresso. Temos uma Constituição de mais de 300 parágrafos que põe "ordem" em tudo, ou em quase tudo.

Para abrir uma empresa no Brasil são necessárias dezenas de autorizações prévias para podermos começar em "ordem". Nosso lema deixa bem claro que "ordem" vem em primeiro lugar, sem "ordem" não há progresso.

Ricardo Semler, um dos primeiros a escrever um livro de administração que se tornou best-seller popular, Virando a Própria Mesa, mostra uma interessante inconsistência. "Ordem e progresso são incompatíveis", argumenta Semler. Progresso, por definição, é desordem. Criatividade é bagunça e confusão. Basta observar a mesa de um cientista, injustamente chamado de louco por suas atitudes desordeiras.

Ou se escolhe "ordem", diz Semler, ou se escolhe "progresso", e a grande crítica de todos os candidatos, incluindo o do próprio governo, é que Fernando Henrique Cardoso escolheu a primeira opção e está na hora de mudarmos o enfoque para privilegiar a segunda parte do lema nacional. Curiosamente, muita ordem pode até dificultar o progresso. Existe uma terceira interpretação, que segue a linha de Semler mas é um pouco diferente. Nossa bandeira deveria conter a frase invertida: "Progresso e Ordem". Depois da bagunça da criação, é necessário ter uma fase mais calma de consolidação. Todos os cientistas sabem disso. De tempos em tempos, até eles criam vergonha e arrumam o laboratório. Progresso primeiro, ordem depois faz mais sentido do ponto de vista operacional.

Quem coloca a sociedade em ordem não são os economistas, como nos querem fazer acreditar, mas sim advogados, administradores, analistas, jornalistas, historiadores, professores. São eles que ajudam a consolidar os "progressos" feitos pelos cientistas, empreendedores, criadores e revolucionários, sedimentando-os em leis e lições para que o restante da sociedade possa imitá-los. Até os progressistas mais revolucionários precisam, periodicamente, de um governo mais conservador, para que as mudanças se tornem consagradas, sedimentadas e difundidas.

Quem gera o progresso sem dúvida são os criadores, os inovadores, as pequenas empresas e os pequenos empresários, os artistas que quebram paradigmas, os que destroem a "ordem" e a visão reinante, os que se arriscam e mostram o exemplo. A desordem dessa fase precisa de uma pausa para respirar e de membros da sociedade preocupados em consolidar as conquistas geradas. Nosso erro fundamental, portanto, foi inverter o processo. A ordem sucede ao progresso. Não o antecede, como reza nossa bandeira.

Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)

 
 
   
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