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Edição 1 745 - 3 de abril de 2002
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Roberto Pompeu de Toledo

Por que a porteira estava aberta

A tese de armação do governo, na
invasão da fazenda do presidente,
levada às últimas conseqüências

A quem aproveita o crime? A clássica pergunta dos romances policiais rolava na boca do candidato do PT à Presidência, Luís Inácio Lula da Silva, no mesmo balanço em que ele próprio rolava na cadeira giratória do programa Roda Viva, na segunda-feira 25. A quem aproveita o crime? Lula disse que não tinha dormido bem, tanto a pergunta o incomodava. E demorava-se nela, repetindo-a com ares de Sherlock Holmes, formulando-a mas deixando-a em suspenso, dando-se o jeito sagaz de quem sabe a resposta mas não quer dizer. Afinal Lula não disse mas disse. E o que disse, sem dizer, é que achava muito possível que a invasão da casa da família do presidente Fernando Henrique Cardoso por um comando do MST não passasse de manobra do próprio governo, interessado em desmoralizar o Movimento dos Sem-Terra e, de quebra, o aliado com que tantas vezes, justa ou injustamente, é identificado, o Partido dos Trabalhadores.

Santo Lula! A tese por ele levantada conduz a um mistério digno não de Sherlock Holmes, mas de G.K. Chesterton, o autor inglês que, em O Homem que Era Quinta-Feira, desenvolve uma história de espionagem com tal nível de infiltração recíproca entre a polícia e seus adversários anarquistas que afinal se revela que o chefe de polícia era na verdade o chefe do grupo anarquista, e o chefe do grupo anarquista o chefe de polícia.

Se não, vejamos. Para que se desse a invasão não bastava estar a porteira aberta, convidativamente aberta, como insinuaram outros adeptos da mesma teoria. Também seria preciso haver a determinação de entrar. Se os líderes da invasão viram que a porteira aberta, suspeitamente aberta, sinalizava uma armadilha, e mesmo assim entraram, de duas uma. Ou eram tontos ou – tenhamos a coragem de admiti-lo – estavam a serviço do governo. A hipótese de que fossem tontos é pouco verossímil. Nada havia de tonto na imagem daqueles homens decididos, falando ao telefone, ou escarrapachados no sofá, em desabusado e consciente desafio à intimidade e à propriedade do presidente.

Resta que fossem agentes a serviço do governo. Nesse caso, tenha paciência o leitor, descortinam-se igualmente dois desdobramentos possíveis. O primeiro é que atuavam à revelia da direção nacional do movimento, e em oposição a ela. Claro: se faziam o jogo do governo, e o MST é visceralmente contra o governo, segue-se que se tratava de rematados pulhas. Traidores. Mereceriam portanto ser desmascarados de pronto pela direção nacional. Mas... não foi o que se viu. A direção nacional emprestou-lhes solidariedade. Até promoveu uma segunda invasão, em outra fazenda, em protesto contra a prisão dos responsáveis pela primeira.

Sobra o segundo – e terrível – desdobramento. Se os invasores eram agentes a serviço do governo, e ainda assim mereceram irrestrita solidariedade de seus chefes, o que concluir? Ousemos dizê-lo: a direção nacional só poderia estar, ela própria, mancomunada com o governo. Eis até onde nos foi levar a suspeita de Lula. O MST é governo! Tudo em contrário, até agora, não passava de fingimento! Rasga-se, perante nossos olhos atônitos, a fantasia de um José Rainha perturbador como um subcomandante Marcos, temível como um Tirofijo. O Rainha que agora se desvela está tão a serviço do governo e de seus propósitos neoliberais quanto um Pedro Malan. Desmorona por igual a imagem de um João Pedro Stedile com fumos de fiscal de paredón. Quem chegou a vislumbrar nele um Pol Pot toma-se de perplexidade ao vê-lo transmudado em tão firme defensor da ordem quanto um Marco Maciel.

Ou, então, será que...? Prepare seu coração, leitor, que na linha de Chesterton, segundo a qual um se infiltra no outro e o outro no um, de tal modo que no fim nem se distingue um do outro, há uma última hipótese a considerar. Já concluímos que o MST e o governo, vale dizer, Fernando Henrique Cardoso, trabalham num único e mesmo sentido. Mas que sentido? Será realmente o sentido da ordem e da lei, como, talvez algo precipitadamente, aventamos? E se for o contrário? Quer dizer: e se Fernando Henrique estiver mancomunado com o MST exatamente com o propósito oposto, de promover o desassossego e abrir caminho para a revolução?

Por esse cenário, Stedile continua o mesmo Stedile de sempre, e Rainha o mesmo Rainha. Quem muda é Fernando Henrique. Ele é que está infiltrado no governo. De notório passado esquerdista, terá se fingido de bom amigo do capitalismo, nos últimos oito anos, com propósitos solertes. No fundo, o que quer é baderna. Sonha instaurar o comunismo. Chegou à conclusão, como Mao, de que a revolução começa no campo. Não foi por outra razão que comprou a fazenda. Ele é o verdadeiro chefe do MST, assim como, no livro de Chesterton, o chefe de polícia era na verdade o chefe dos anarquistas. Com seus lugares-tenentes Rainha e Stedile, prepara-se para o assalto final. Já concluíram, os três, que Lula não fará revolução alguma. Ninguém faz revolução aliado ao PL. É preciso tirar o PT do caminho. Não foi por outra razão – elementar, meu caro Lula – que deixou a porteira aberta.

   
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