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Roberto
Pompeu de Toledo
Por
que a porteira estava aberta
A
tese de armação do governo,
na
invasão da fazenda do presidente,
levada
às últimas
conseqüências
A
quem aproveita o crime? A clássica pergunta dos romances policiais
rolava na boca do candidato do PT à Presidência, Luís
Inácio Lula da Silva, no mesmo balanço em que ele próprio
rolava na cadeira giratória do programa Roda Viva, na segunda-feira
25. A quem aproveita o crime? Lula disse que não tinha dormido
bem, tanto a pergunta o incomodava. E demorava-se nela, repetindo-a com
ares de Sherlock Holmes, formulando-a mas deixando-a em suspenso, dando-se
o jeito sagaz de quem sabe a resposta mas não quer dizer. Afinal
Lula não disse mas disse. E o que disse, sem dizer, é que
achava muito possível que a invasão da casa da família
do presidente Fernando Henrique Cardoso por um comando do MST não
passasse de manobra do próprio governo, interessado em desmoralizar
o Movimento dos Sem-Terra e, de quebra, o aliado com que tantas vezes,
justa ou injustamente, é identificado, o Partido dos Trabalhadores.
Santo Lula! A tese por ele levantada conduz a um mistério digno
não de Sherlock Holmes, mas de G.K. Chesterton, o autor inglês
que, em O Homem que Era Quinta-Feira, desenvolve uma história
de espionagem com tal nível de infiltração recíproca
entre a polícia e seus adversários anarquistas que afinal
se revela que o chefe de polícia era na verdade o chefe do grupo
anarquista, e o chefe do grupo anarquista o chefe de polícia.
Se não, vejamos. Para que se desse a invasão não
bastava estar a porteira aberta, convidativamente aberta, como insinuaram
outros adeptos da mesma teoria. Também seria preciso haver a determinação
de entrar. Se os líderes da invasão viram que a porteira
aberta, suspeitamente aberta, sinalizava uma armadilha, e mesmo assim
entraram, de duas uma. Ou eram tontos ou tenhamos a coragem de
admiti-lo estavam a serviço do governo. A hipótese
de que fossem tontos é pouco verossímil. Nada havia de tonto
na imagem daqueles homens decididos, falando ao telefone, ou escarrapachados
no sofá, em desabusado e consciente desafio à intimidade
e à propriedade do presidente.
Resta que fossem agentes a serviço do governo. Nesse caso, tenha
paciência o leitor, descortinam-se igualmente dois desdobramentos
possíveis. O primeiro é que atuavam à revelia da
direção nacional do movimento, e em oposição
a ela. Claro: se faziam o jogo do governo, e o MST é visceralmente
contra o governo, segue-se que se tratava de rematados pulhas. Traidores.
Mereceriam portanto ser desmascarados de pronto pela direção
nacional. Mas... não foi o que se viu. A direção
nacional emprestou-lhes solidariedade. Até promoveu uma segunda
invasão, em outra fazenda, em protesto contra a prisão dos
responsáveis pela primeira.
Sobra o segundo e terrível desdobramento. Se os invasores
eram agentes a serviço do governo, e ainda assim mereceram irrestrita
solidariedade de seus chefes, o que concluir? Ousemos dizê-lo: a
direção nacional só poderia estar, ela própria,
mancomunada com o governo. Eis até onde nos foi levar a suspeita
de Lula. O MST é governo! Tudo em contrário, até
agora, não passava de fingimento! Rasga-se, perante nossos olhos
atônitos, a fantasia de um José Rainha perturbador como um
subcomandante Marcos, temível como um Tirofijo. O Rainha que agora
se desvela está tão a serviço do governo e de seus
propósitos neoliberais quanto um Pedro Malan. Desmorona por igual
a imagem de um João Pedro Stedile com fumos de fiscal de paredón.
Quem chegou a vislumbrar nele um Pol Pot toma-se de perplexidade ao vê-lo
transmudado em tão firme defensor da ordem quanto um Marco Maciel.
Ou, então, será que...? Prepare seu coração,
leitor, que na linha de Chesterton, segundo a qual um se infiltra no outro
e o outro no um, de tal modo que no fim nem se distingue um do outro,
há uma última hipótese a considerar. Já concluímos
que o MST e o governo, vale dizer, Fernando Henrique Cardoso, trabalham
num único e mesmo sentido. Mas que sentido? Será realmente
o sentido da ordem e da lei, como, talvez algo precipitadamente, aventamos?
E se for o contrário? Quer dizer: e se Fernando Henrique estiver
mancomunado com o MST exatamente com o propósito oposto, de promover
o desassossego e abrir caminho para a revolução?
Por esse cenário, Stedile continua o mesmo Stedile de sempre, e
Rainha o mesmo Rainha. Quem muda é Fernando Henrique. Ele é
que está infiltrado no governo. De notório passado esquerdista,
terá se fingido de bom amigo do capitalismo, nos últimos
oito anos, com propósitos solertes. No fundo, o que quer é
baderna. Sonha instaurar o comunismo. Chegou à conclusão,
como Mao, de que a revolução começa no campo. Não
foi por outra razão que comprou a fazenda. Ele é o verdadeiro
chefe do MST, assim como, no livro de Chesterton, o chefe de polícia
era na verdade o chefe dos anarquistas. Com seus lugares-tenentes Rainha
e Stedile, prepara-se para o assalto final. Já concluíram,
os três, que Lula não fará revolução
alguma. Ninguém faz revolução aliado ao PL. É
preciso tirar o PT do caminho. Não foi por outra razão
elementar, meu caro Lula que deixou a porteira aberta.
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