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A guerra das versões

Um historiador diz que a Guerra
do Paraguai não foi bem do jeito
que se tem ensinado na escola

Marcelo Marthe

 
Reprodução Oscar Cabral

Batalha de Avaí, de Pedro Américo: vacilações e desordem no front



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Trechos do livro sobre a Guerra do Paraguai

Nenhum episódio do passado brasileiro tem dividido tanto os historiadores quanto a Guerra do Paraguai. Encerrado há 132 anos, ao custo de mais de 200.000 vidas, o conflito já foi contado e recontado de várias formas. Durante décadas, prevaleceu uma visão oficialista, que enaltecia a vitória brasileira. Nos anos 70, porém, houve uma drástica reviravolta. Autores de esquerda passaram a interpretar os fatos sob a ótica marxista e inverteram os papéis de bandido e mocinho. O ditador paraguaio, Solano López, tornou-se uma espécie de visionário, paladino do progresso social na selva sul-americana. Já a atuação do Brasil passou a ser descrita como vergonhosa. O país só teria ido às armas por pressão da Inglaterra, a superpotência da época, e suas tropas teriam perpetrado um genocídio. Agora, sai uma obra que pretende revisar o revisionismo: Maldita Guerra (Companhia das Letras; 598 páginas; 45 reais). Seu autor, o historiador paulista Francisco Doratioto, está na linha de frente de uma corrente de estudiosos que se empenha em desmantelar a arraigada versão marxista. "A idéia de que Solano López foi um mártir antiimperialista é um disparate", diz ele.

É consenso entre os historiadores que a Guerra do Paraguai foi um momento decisivo na história do continente. Iniciado em dezembro de 1864, o conflito durou cinco anos e envolveu quatro países – Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai. O pomo de discórdia entre os estudiosos do tema sempre foram as razões por trás da luta. A versão marxista apregoa que a destruição do Paraguai foi orquestrada pela Inglaterra, insatisfeita com os ares de autonomia que o país tomava. Para Doratioto, as causas do conflito foram regionais e a intromissão inglesa um fator secundário. Em arquivos que vasculhou na Argentina, Brasil, Portugal, Vaticano e Paraguai, ele recolheu indícios de que a coroa inglesa teve uma atuação mais conciliatória do que se supunha. Pedra de toque em sua argumentação é uma carta inédita enviada ao governo paraguaio pelo cônsul inglês em Buenos Aires, na qual este se propõe a mediar a paz.

Divulgação
O ditador Solano López, em charge dos tempos da guerra: "caudilho caricato", e não herói antiimperialista


Maldita Guerra
procura demolir o mito que se criou em torno de Solano López. Segundo Doratioto, a efígie do ditador esclarecido começou a ser forjada em seu país com objetivos pouco nobres. Ela se esboçou, primeiro, numa campanha de marketing promovida por seus familiares para tentar reaver os bens de López confiscados após a guerra. O livro procura mostrar que López, na realidade, foi um "caudilho caricato" que governou o Paraguai como se fosse uma estância rural e implantou um regime de terror contra os opositores. "Como a esquerda se acorvadou no Brasil, estão tentando reescrever a história de um modo desfavorável ao Paraguai", reage o jornalista Julio Chiavenatto, autor do best-seller que nos anos 70 detonou todo o revisionismo de esquerda, Genocídio Americano.

Embora Doratioto dedique parte do livro a desmentir a visão marxista, ele não promove uma volta ao velho tom oficialista. Maldita Guerra é, sobretudo, uma exaustiva retrospectiva do dia-a-dia no campo de batalha – e, ao descrevê-lo, o autor não poupa vencidos nem vencedores. Ele resgata, por exemplo, as vacilações do alto comando brasileiro, que teriam prolongado o conflito além do necessário e causado a perda de milhares de vidas. O almirante Tamandaré, responsável pela esquadra nacional, emerge de suas páginas como um inepto e o conde d'Eu, marido da princesa Isabel, como um covarde. Longe de ser exemplares, os soldados brasileiros eram inclinados à deserção e aos saques. O comportamento das tropas de Solano López não fugia muito disso. Com uma diferença: seus homens estavam programados para lutar até morrer. Ainda hoje, não há um diagnóstico conclusivo sobre as perdas paraguaias na guerra, porque inexistem estatísticas populacionais confiáveis. Segundo o historiador, só uma coisa é certa: elas não caracterizam um genocídio deliberado levado a cabo pelo Brasil. O número de mortos foi uma enormidade, mas não chega perto de 1 milhão de baixas, como os defensores de López sempre brandiram. Até porque, diz Doratioto, a população do Paraguai na época não totalizava a metade disso.

   
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